domingo, 15 de fevereiro de 2026

Momo dos abraços

 

Momo dos abraços

 

De vez em quando, isso acontece: passa o caminhão que carrega ossos, passa também um que transporta esterco.

Se nem os passarinhos suportam, voamos para longe.

E ficamos lá até que a nossa volta dê-nos esta garantia: meia hora é tempo o bastante pro ar ter retornado a oferecer-se inodoro.

É normal que a gente goste de respirar sem que nosso estômago se manifeste. É bom quando a gente nem precisa avaliar a qualidade do ar. Basta respirar; a natureza faz o resto: funciona como esperado, sem chamar a nossa atenção para os seus mecanismos.

Uma vez que o nariz esteja na parada: ou o aroma é agradável ou a gente tem mais é que sumir no pé.

Se a coisa ficasse no olfato, encontrar um lugarzinho arejado seria suficiente para a gente papear sem proteger a boca com as mãos em concha, mas o impulso de olhar a sola dos pés tem força irracional.

Já que andar descalço faz parte da fantasia de índio, a gente olha a sola dos pés quando a inhaca desperta em nós a aula adormecida de Ciências: olfato é um dos cinco sentidos do ser humano.

É um dos cinco diz a razão, mas é a visão que ganha a prioridade. E a gente olha a planta dos pés. Como o cheiro está impregnado, não é nenhum despropósito olhar outra vez.

Se os pés estão limpos, e continuam limpos a trinta metros, o jeito é trocar de fantasia. Uma que não nos faça pensar nos pés, nos force a olhar a limpeza da sola. Mais ainda: ela traduza o nosso tempo, em que temos mesmo de trocar os pés pelas mãos.

Sem mãozinhas leves. Sem mãozonas levianas.

A gente conta que nos reconheçam pela graça de estar fantasiado como pessoa legal. A gente sabe que um camarada bacana faz sorrir quem o abraça.

Bacanas e legais, um abraço!

Quando o abraço não nos envergonha, tiramos selfie.

Quando as mãos nas nossas costas não pesam, tiramos selfies.

Quando sorrimos, compartilhamos mais de uma selfie.

E o joinha vai para quem nos aprova.

Importantíssimo: esclarecemos que nossa fantasia incorpora itens pra que a patotinha do bloquinho bem efusivo fique apresentável: pra recauchutagens salomônicas, o martelinho; sobre terninho belamente cinzento, a capa preta; o chapeuzinho escoa chãos: o Monte Caburaí, o Arroio Chuí, a Baía dos Guanabaras, o Rio Branco do Barão do Rio Branco, os Tietês da Paulista, os agronegócios ruminantes, a Floresta Caprichosa dos Parintins e a caninha dos Pitús.

Pra que percebam a profundidade intensa da nossa alegria, já que somos diversamente alegres de ponta a ponta, o ouro deste carnaval é a gente brincar que perdoa quem a nós nunca nos deixa de obrigar-nos a perdoá-los.

Com a pressa de finalmente o Ano Novo chegar, a gente não sorri para quem regula o semáforo!

Nas Cinzas da Quarta-Feira, depois de tomar um sal de fruta, em verdade, este folião vai dar a freadinha:

Brasil, meu Brasil Brasileiro, perdoe-os que eles sabem muitíssimo bem o que andam fazendo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 15 de fevereiro de 2026.

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