Momo
dos abraços
De vez em quando, isso acontece: passa o
caminhão que carrega ossos, passa também um que transporta esterco.
Se nem os passarinhos suportam, voamos para
longe.
E ficamos lá até que a nossa volta dê-nos
esta garantia: meia hora é tempo o bastante pro ar ter retornado a oferecer-se
inodoro.
É normal que a gente goste de respirar
sem que nosso estômago se manifeste. É bom quando a gente nem precisa avaliar a
qualidade do ar. Basta respirar; a natureza faz o resto: funciona como
esperado, sem chamar a nossa atenção para os seus mecanismos.
Uma vez que o nariz esteja na parada: ou
o aroma é agradável ou a gente tem mais é que sumir no pé.
Se a coisa ficasse no olfato, encontrar
um lugarzinho arejado seria suficiente para a gente papear sem proteger a boca
com as mãos em concha, mas o impulso de olhar a sola dos pés tem força
irracional.
Já que andar descalço faz parte da
fantasia de índio, a gente olha a sola dos pés quando a inhaca desperta em nós a
aula adormecida de Ciências: olfato é um dos cinco sentidos do ser humano.
É um dos cinco diz a razão, mas é a
visão que ganha a prioridade. E a gente olha a planta dos pés. Como o cheiro está
impregnado, não é nenhum despropósito olhar outra vez.
Se os pés estão limpos, e continuam
limpos a trinta metros, o jeito é trocar de fantasia. Uma que não nos faça
pensar nos pés, nos force a olhar a limpeza da sola. Mais ainda: ela traduza o
nosso tempo, em que temos mesmo de trocar os pés pelas mãos.
Sem mãozinhas leves. Sem mãozonas
levianas.
A gente conta que nos reconheçam pela
graça de estar fantasiado como pessoa legal. A gente sabe que um camarada
bacana faz sorrir quem o abraça.
Bacanas e legais, um abraço!
Quando o abraço não nos envergonha, tiramos
selfie.
Quando as mãos nas nossas costas não
pesam, tiramos selfies.
Quando sorrimos, compartilhamos mais de
uma selfie.
E o joinha vai para quem nos aprova.
Importantíssimo: esclarecemos que nossa fantasia
incorpora itens pra que a patotinha do bloquinho bem efusivo fique apresentável:
pra recauchutagens salomônicas, o martelinho; sobre terninho belamente cinzento,
a capa preta; o chapeuzinho escoa chãos: o Monte Caburaí, o Arroio Chuí, a Baía
dos Guanabaras, o Rio Branco do Barão do Rio Branco, os Tietês da Paulista, os agronegócios
ruminantes, a Floresta Caprichosa dos Parintins e a caninha dos Pitús.
Pra que percebam a profundidade intensa da
nossa alegria, já que somos diversamente alegres de ponta a ponta, o ouro deste
carnaval é a gente brincar que perdoa quem a nós nunca nos deixa de obrigar-nos
a perdoá-los.
Com a pressa de finalmente o Ano Novo
chegar, a gente não sorri para quem regula o semáforo!
Nas Cinzas da Quarta-Feira, depois de tomar
um sal de fruta, em verdade, este folião vai dar a freadinha:
Brasil, meu Brasil Brasileiro, perdoe-os
que eles sabem muitíssimo bem o que andam fazendo.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 15 de fevereiro de 2026.
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