quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

A boa preguiça da hora

 

A boa preguiça da hora

 

Só à noite, quando foi dormir, nem deu tempo pra ocorrer-lhe esta ideia: quem sabe o seu corpo trabalhasse como sempre, mas a tevê estava ligada.

Para o fio da meada nem fazer força para levá-lo de volta ao sofá, o seriado já estava passando.

Como seu estômago ronca ao meio-dia, fez o mínimo de esforço: trouxe uma maçã, duas bananas e um copo de água.

Rotina tem hora de almoço.

Sem a percepção de que adotara a dieta dos faquires, ele poderia rolar até o riachinho que corre nos fundos de casa. Se ventasse, até.

Rolaria. Tão manso... Fosse rolando.

Se o copo d’água estava com ele, tudo bem. Ele se sentou. Tinha o streaming. Não se deu ao trabalho de escolher, pois o riachinho de sereias as mais diversas já cantava algo narcotizante.

E o volume baixinho da tevê o fez cochilar.

Seduzido por Morfeu, a história foi se desenrolando de tal jeito que ele nem descascou a maçã. Babando, ele a mordiscava.

Deitado sem nem se dar conta: o episódio contou que uma criança foi sequestrada e uma babá foi acusada.

E veio o segundo episódio, a babá tinha seus motivos. Não estava com a razão, mas o roteiro trazia relances do passado.

Sem prestar conta: a segunda banana foi comida.

A tarde não fez marola... A hora da janta chegou...

No meio da jornada, o policial astuto tinha que alterar o conteúdo de um frasco. Sai oxicodona, entra paracetamol.

São as regras do jogo: o filho com necessidades especiais ganhou a vaga numa escola melhor equipada, com profissionais de finíssimas habilidades e mensalidade para quem possa pagar.

Disseram que vagas nunca caem do céu ꟷ a tal bolsa, sim.

A barriga voltou a roncar. A tevê foi pausada. Pelo que a geladeira lhe oferecia: o sanduíche foi de muçarela e presunto.

Como ao streaming não importa a higiene pessoal de quem segue assistindo, ele não lavou as mãos.

Os episódios avançaram sem que botão algum do controle remoto tivesse sido pressionado.

Mesmo a quem emenda um seriado no outro sem nem guardar os nomes, terem tantas pontas soltas era um final arriscado.

Para ter feito o que fez, a babá tinhas razões incontornáveis.

Na mansão da bilionária, o investigador destrama: não há enigma. A tal leoa proteger suas contas bancárias, isso nem é notável.

E veio o capítulo em que tudo fica esclarecido. Veio a morte que a história pedia. Veio o velório daquela personagem que nem precisava ter morrido. Veio ainda a cena na adega.

Fatal seria redimensioná-la.

O fundamental é que a cabeça no travesseiro nem perdeu tempo com a dúvida. Sim, ele pode ter emagrecido por inércia.

O sono foi pegando. O corpo foi cedendo.

De manhã, o despertador tocou: era o dia seguinte.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 05 de fevereiro de 2026.

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