A
boa preguiça da hora
Só à noite, quando foi dormir, nem deu
tempo pra ocorrer-lhe esta ideia: quem sabe o seu corpo trabalhasse como sempre,
mas a tevê estava ligada.
Para o fio da meada nem fazer força para
levá-lo de volta ao sofá, o seriado já estava passando.
Como seu estômago ronca ao meio-dia, fez
o mínimo de esforço: trouxe uma maçã, duas bananas e um copo de água.
Rotina tem hora de almoço.
Sem a percepção de que adotara a dieta
dos faquires, ele poderia rolar até o riachinho que corre nos fundos de casa. Se ventasse, até.
Rolaria. Tão manso... Fosse rolando.
Se o copo d’água estava com ele, tudo
bem. Ele se sentou. Tinha o streaming. Não se deu ao trabalho de escolher, pois
o riachinho de sereias as mais diversas já cantava algo narcotizante.
E o volume baixinho da tevê o fez
cochilar.
Seduzido por Morfeu, a história foi se
desenrolando de tal jeito que ele nem descascou a maçã. Babando, ele a
mordiscava.
Deitado sem nem se dar conta: o episódio
contou que uma criança foi sequestrada e uma babá foi acusada.
E veio o segundo episódio, a babá tinha
seus motivos. Não estava com a razão, mas o roteiro trazia relances do passado.
Sem prestar conta: a segunda banana foi comida.
A tarde não fez marola... A hora da
janta chegou...
No meio da jornada, o policial astuto
tinha que alterar o conteúdo de um frasco. Sai oxicodona, entra paracetamol.
São as regras do jogo: o filho com
necessidades especiais ganhou a vaga numa escola melhor equipada, com
profissionais de finíssimas habilidades e mensalidade para quem possa pagar.
Disseram que vagas nunca caem do céu ꟷ a
tal bolsa, sim.
A barriga voltou a roncar. A tevê foi
pausada. Pelo que a geladeira lhe oferecia: o sanduíche foi de muçarela e presunto.
Como ao streaming não importa a higiene
pessoal de quem segue assistindo, ele não lavou as mãos.
Os episódios avançaram sem que botão
algum do controle remoto tivesse sido pressionado.
Mesmo a quem emenda um seriado no outro sem
nem guardar os nomes, terem tantas pontas soltas era um final arriscado.
Para ter feito o que fez, a babá tinhas
razões incontornáveis.
Na mansão da bilionária, o investigador destrama:
não há enigma. A tal leoa proteger suas contas bancárias, isso nem é notável.
E veio o capítulo em que tudo fica
esclarecido. Veio a morte que a história pedia. Veio o velório daquela
personagem que nem precisava ter morrido. Veio ainda a cena na adega.
Fatal seria redimensioná-la.
O fundamental é que a cabeça no
travesseiro nem perdeu tempo com a dúvida. Sim, ele pode ter emagrecido por
inércia.
O sono foi pegando. O corpo foi cedendo.
De manhã, o despertador tocou: era o dia
seguinte.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 05 de fevereiro de 2026.
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