terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

As intrusas

 

As intrusas

 

Se eu sei o que desejo?

Como nem avalio se controlo o que os desejos produzem em mim, a resposta surja quando houver de vir à tona.

Não tergiverso por fraqueza, sigo na labuta. Para hoje, preciso pôr a minha casa em ordem.

Começo pelo quarto. Limpo os móveis. Pra tirar a poeira, arrasto a cama. Sem tirá-las do varão, bato as cortinas. Varro o quarto todo. O agradinho final: passo lustra-móveis na guarda da cama e o pano faz o chão exalar a lavanda do cheirosinho.

Desejo número um, atendido.

Pelo visto, diz minha cachola que encontrei o momento de fazer o certo. O corpo não diz que o cansaço será grande. Sem almejar nada grandioso, sustento: não sou homem pra trabalhar acreditando que o suor sossega o cidadão preocupado com o “bem”.

Agora vou dar um jeito na cozinha.

Sem visão utilitarista, sem pragmatismo do útil, o dever me induz a esvaziar a geladeira. Como entendo que cidadania só é “exemplar” em ato, tiro tudo. Passo o pano úmido, passo o pano seco.

A necessidade de alimentar-me com comida saudável orienta-me: checo as datas de vencimento de bacon, linguiça, iogurte, lasanha de micro-ondas. Verifico as datas e cheiro item por item: sou do bem!

Permita-se este esclarecimento: não sou babaca pra insinuar uma relação simplória: gente exemplar necessariamente faz o “bem”, mas tem gente do “bem” que muitas vezes é taxada de “pobre-diabo que não faz mal sequer a uma barata”.

Sem complacência nem cumplicidade: barata fica tonta com tantas minúcias. E isso não é bom. Para ela, não mesmo.

Outro desejo ticado: ideia cristalina é ralo fechado.

Como barata morre de medo de acabar afogada em encanamento de esgoto, o seu último recurso é escapar quintal acima.

E a pessoa que não é estúpida sabe por experiência: as águas da chuva precisam de escoamento.

O dilema não revolta quem traz a rebeldia na moringa: gato deixa as patinhas da barata ficarem se agitando até que o chinelo apareça para a misericórdia.

Se a calha, o rufo e o ralo formam um sistema, o gato, o chinelo e a pessoa ― tão segura dos seus procedimentos ― fazem funcionar o melhor dos mundos: barata boa é barata na lixeira.

E a lixeira será posta ao pé do poste quando for a hora de passar o caminhão da coleta.

Para todos da casa, chega de ficar na chuva.

Já que desespero não é desejo ansiosamente objetado: a mão da chinelada vai atrás do gato com uma toalha, cuja figurinha estampada é o famigerado “camundongo” de desenho animado que meio mundo cisma de alcunhá-lo “rato”.

Que seja.

Como não é bonito negar um último desejo à pessoa que se acha bacanérrima, ela, cidadã de chinelinho, é toda Tico e Teco:

1.     O fim do barato é dizer que o resto é estória.

2.     O barato do fim é dizer que o rosto tem história.

Minuciosa, a leitura pede a terceira perna que falta ao tripé:

3.     Formigas pra barata morta: quer festa?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 03 de fevereiro de 2026.


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