As
intrusas
Se eu sei o que desejo?
Como nem avalio se controlo o que os
desejos produzem em mim, a resposta surja quando houver de vir à tona.
Não tergiverso por fraqueza, sigo na
labuta. Para hoje, preciso pôr a minha casa em ordem.
Começo pelo quarto. Limpo os móveis. Pra
tirar a poeira, arrasto a cama. Sem tirá-las do varão, bato as cortinas. Varro
o quarto todo. O agradinho final: passo lustra-móveis na guarda da cama e o
pano faz o chão exalar a lavanda do cheirosinho.
Desejo número um, atendido.
Pelo visto, diz minha cachola que encontrei
o momento de fazer o certo. O corpo não diz que o cansaço será grande. Sem
almejar nada grandioso, sustento: não sou homem pra trabalhar acreditando que o
suor sossega o cidadão preocupado com o “bem”.
Agora vou dar um jeito na cozinha.
Sem visão utilitarista, sem pragmatismo
do útil, o dever me induz a esvaziar a geladeira. Como entendo que cidadania só
é “exemplar” em ato, tiro tudo. Passo o pano úmido, passo o pano seco.
A necessidade de alimentar-me com comida
saudável orienta-me: checo as datas de vencimento de bacon, linguiça, iogurte, lasanha
de micro-ondas. Verifico as datas e cheiro item por item: sou do bem!
Permita-se este esclarecimento: não sou
babaca pra insinuar uma relação simplória: gente exemplar necessariamente faz o
“bem”, mas tem gente do “bem” que muitas vezes é taxada de “pobre-diabo que não
faz mal sequer a uma barata”.
Sem complacência nem cumplicidade:
barata fica tonta com tantas minúcias. E isso não é bom. Para ela, não mesmo.
Outro desejo ticado: ideia cristalina é ralo
fechado.
Como barata morre de medo de acabar
afogada em encanamento de esgoto, o seu último recurso é escapar quintal acima.
E a pessoa que não é estúpida sabe por
experiência: as águas da chuva precisam de escoamento.
O dilema não revolta quem traz a
rebeldia na moringa: gato deixa as patinhas da barata ficarem se agitando até
que o chinelo apareça para a misericórdia.
Se a calha, o rufo e o ralo formam um sistema, o gato, o chinelo e a pessoa ― tão segura dos seus procedimentos ― fazem funcionar o melhor dos mundos: barata boa é barata na lixeira.
E a lixeira será posta ao pé do poste quando
for a hora de passar o caminhão da coleta.
Para todos da casa, chega de ficar na
chuva.
Já que desespero não é desejo
ansiosamente objetado: a mão da chinelada vai atrás do gato com uma toalha,
cuja figurinha estampada é o famigerado “camundongo” de desenho animado que meio
mundo cisma de alcunhá-lo “rato”.
Que seja.
Como não é bonito negar um último desejo
à pessoa que se acha bacanérrima, ela, cidadã de chinelinho, é toda Tico e Teco:
1.
O fim
do barato é dizer que o resto é estória.
2.
O
barato do fim é dizer que o rosto tem história.
Minuciosa, a leitura pede a terceira
perna que falta ao tripé:
3.
Formigas
pra barata morta: quer festa?
Rodrigues da Silveira
Ibiúna, dia 03 de fevereiro de 2026.
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