quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Válvula de escape

 

Válvula de escape

 

Sem chorumelas: o circo está na cidade.

É o que anuncia o ramerrão gravado do monomotor circunvoando a cidade desde cedo. Aliás, o chatonildo me acordou. Eram oito horas quando a gritaria me fez escancarar a janela. Desde então, dou-lhe o dedo do meio.

Não falo da boca pra fora: interrompo o que estou fazendo, posto-me na frente de casa, ergo os dois braços, agito-os; só que não emito o S.O.S. dos náufragos.

Claro que sei que a pantomima é um soco no ar.

O que não gostaria de saber é que não controlo o desejo. A minha vontade é de mandar o aviãozinho de volta pro hangar onde dormia o sono das máquinas voadoras. E fico no patético. Sei bem que o corpo fala pra quem não ouve nem atenderia se me escutasse.

Aceito o convite: sou espantalho a atrair corvos.

Nem assim eu recuo ― vindo o motor: vou pro quintal.

A irritação com o piloto não passa disso; já a minha angústia sabe muito bem: palhaços pipocam no picadeiro.

Suo frio. Bato a borda do copo no lábio superior. Tenho medo de o gole de café me engasgar.

Bebo assim mesmo. Bato assim mesmo. E mais e mais, eu suo.

Acho graça de ser um corvo a sorver o suor que não intoxica nem um pouco.

Com o calhambeque dos palhaços na vanguarda, a trupe circense vem mostrar que está realmente na cidade.

Pra que correr pra dentro se a alegria está na rua?

Com meneios graciosos, a assistente do mágico tira da cartola um folder. Nele estão o nome do circo, o local onde se encontra instalado e os horários das apresentações.

Graças ao Bom Deus!

O calhambeque dos palhaços não se desmilingui. Não me afogam as papas de suor. Já a assistente do mágico faz o truque mais sutil: o buraco da cartola... Nem ela vê.

Que espanto! O coelho corre atrás do corvo.

Se o nome da graciosa for Alice, sou Charles Dodgson.

Se o nome do mágico for Chapeleiro, sou Lewis Carroll.

Se o meu nome for Alice, estou aprendendo como se joga.

Uma vez que jogo pode bem ser palhaçada: bato palmas, juro que vou, juro que eu mesmo é que vou.

Indo: eu juro que não se jura em vão.

Quando a trupe está a dobrar a esquina, saio à rua, e, louco para que a moça das magias me veja atrapalhando o trânsito, solto o mais belo dos berros:

Minha Alice da Cartola, mostre-me todas as suas cartas!

Mas... Porém... Todavia...

Como este bobo sem corte não cativa a realidade, o inconveniente do monomotor não sai de cena.

Ainda bem! Excelente! Maravilha!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 29 de janeiro de 2026.

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