A
autobiografia do fim
Senhores, agradeço-lhes pelo diploma a
mim outorgado.
Em primeira mão, adianto que a minha vida
está avisada: somente quando a quarta parte estiver completa, precipite-me no
obscuro.
Oxalá, eu consiga preservar-me até o último
suspiro.
Buscar prazeres que não custem mais que uns
trocados não pesa. A promissória de maior valor está nas mãos da eternidade.
Sem arabescos, é vero, este fogo que vai
pela luz dos meus vasos não me chamusca. Em nada me percebo chamuscado.
Conhece-me quem não se avexa desta carne
grelhada. Asseguro-lhes, não negaceio a minha alma imortal.
Permaneço ileso. Vivo pro dia. Somo ontem com amanhã. Hoje eu tenho a cabeça boa ― para aritméticas a meu favor.
Não vivo de olho na eternidade.
Desculpem-me pela franqueza. Juro que
pouco tem de intencional exibir-me calculista. As noites passadas ao sereno dão
febre, fazem tremer. Diverte-me alucinar.
Alucino, bem o sabem quem me dá um copo
d’água. Alucino, não me deixo fustigar pela estagnação.
Permitam esclarecê-los: posto que são
leves, as minhas paralisias são momentâneas, não me arrastam pro fundo.
Assentam-me.
Quando especulo, o poço faz água.
Pelas mãos de quem negocia, bebo-a. Para
obter vantagem, trata-me bem. Não há regalia nesta sonhada barganha. O copo
d’água não azedará a sede da minha saliva.
Senhores, não os aborrecerei.
Não havia febre quando o teto sobre a
minha cama apresentou-se o mais visível que a ele pareceu necessário.
Eu almoçara.
É detalhe a não ser desprezado quando a
inteligência artificial der de mim o seu depoimento.
Ratifico. Não os melindrarei com
informações conhecidas. Já que os senhores sabem: a grande revolução desta
quadra é a IA.
Instruí a máquina que produzisse um
pequeno texto sobre mim.
E ela assim o fez:
Era uma tarde como outra qualquer. Uma
segunda-feira de vento frio em pleno verão.
Claudiomiro Malaquias acabara de
almoçar. Viera deitar-se. Tinha a pestana para tirar. Começara a perdê-la
quando o teto revelou-se já mais baixo que o habitual.
Um teto é uma parede horizontal.
Claudiomiro Malaquias cruzou os braços
sobre o peito. Tinha clara a missão maior daquele instante:
Teto, ao desabar sobre mim, terei de
defender-me de ti!
De todo parede branca, o teto não
esboçou esgar de nojo. Soltou, porém, grânulos de pó. E Claudiomiro Malaquias
lacrimejou.
Teto, quando vier a desabar, estarei
fortalecido, que meu ódio põe sua figura no alvo. E não dispararei à toa. Alvo,
precisão é tudo.
Como qualquer, o homem tinha direito a
um cochilo.
Já não chegasse a presença do teto alvo,
uma aranha veio andar no seu nariz. Claudiomiro espirrou.
Para que tal momento não passe batido,
registre-se: o epílogo da autobiografia escrita pela IA ignorará o espirro.
Sim! Já o compreendem, já me
acompanham...
Qual há de ser o fim da picada?
A aranha espirrada da cena sou eu.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 20 de janeiro de 2026.
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