terça-feira, 20 de janeiro de 2026

A autobiografia do fim

 

A autobiografia do fim

 

Senhores, agradeço-lhes pelo diploma a mim outorgado.

Em primeira mão, adianto que a minha vida está avisada: somente quando a quarta parte estiver completa, precipite-me no obscuro.

Oxalá, eu consiga preservar-me até o último suspiro.

Buscar prazeres que não custem mais que uns trocados não pesa. A promissória de maior valor está nas mãos da eternidade.

Sem arabescos, é vero, este fogo que vai pela luz dos meus vasos não me chamusca. Em nada me percebo chamuscado.

Conhece-me quem não se avexa desta carne grelhada. Asseguro-lhes, não negaceio a minha alma imortal.

Permaneço ileso. Vivo pro dia. Somo ontem com amanhã. Hoje eu tenho a cabeça boa ― para aritméticas a meu favor.

Não vivo de olho na eternidade.

Desculpem-me pela franqueza. Juro que pouco tem de intencional exibir-me calculista. As noites passadas ao sereno dão febre, fazem tremer. Diverte-me alucinar.

Alucino, bem o sabem quem me dá um copo d’água. Alucino, não me deixo fustigar pela estagnação.

Permitam esclarecê-los: posto que são leves, as minhas paralisias são momentâneas, não me arrastam pro fundo. Assentam-me.

Quando especulo, o poço faz água.

Pelas mãos de quem negocia, bebo-a. Para obter vantagem, trata-me bem. Não há regalia nesta sonhada barganha. O copo d’água não azedará a sede da minha saliva.

Senhores, não os aborrecerei.

Não havia febre quando o teto sobre a minha cama apresentou-se o mais visível que a ele pareceu necessário.

Eu almoçara.

É detalhe a não ser desprezado quando a inteligência artificial der de mim o seu depoimento.

Ratifico. Não os melindrarei com informações conhecidas. Já que os senhores sabem: a grande revolução desta quadra é a IA.

Instruí a máquina que produzisse um pequeno texto sobre mim.

E ela assim o fez:

Era uma tarde como outra qualquer. Uma segunda-feira de vento frio em pleno verão.

Claudiomiro Malaquias acabara de almoçar. Viera deitar-se. Tinha a pestana para tirar. Começara a perdê-la quando o teto revelou-se já mais baixo que o habitual.

Um teto é uma parede horizontal.

Claudiomiro Malaquias cruzou os braços sobre o peito. Tinha clara a missão maior daquele instante:

Teto, ao desabar sobre mim, terei de defender-me de ti!

De todo parede branca, o teto não esboçou esgar de nojo. Soltou, porém, grânulos de pó. E Claudiomiro Malaquias lacrimejou.

Teto, quando vier a desabar, estarei fortalecido, que meu ódio põe sua figura no alvo. E não dispararei à toa. Alvo, precisão é tudo.

Como qualquer, o homem tinha direito a um cochilo.

Já não chegasse a presença do teto alvo, uma aranha veio andar no seu nariz. Claudiomiro espirrou.

Para que tal momento não passe batido, registre-se: o epílogo da autobiografia escrita pela IA ignorará o espirro.

Sim! Já o compreendem, já me acompanham...

Qual há de ser o fim da picada?

A aranha espirrada da cena sou eu.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 20 de janeiro de 2026.

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