quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Válvula de escape

 

Válvula de escape

 

Sem chorumelas: o circo está na cidade.

É o que anuncia o ramerrão gravado do monomotor circunvoando a cidade desde cedo. Aliás, o chatonildo me acordou. Eram oito horas quando a gritaria me fez escancarar a janela. Desde então, dou-lhe o dedo do meio.

Não falo da boca pra fora: interrompo o que estou fazendo, posto-me na frente de casa, ergo os dois braços, agito-os; só que não emito o S.O.S. dos náufragos.

Claro que sei que a pantomima é um soco no ar.

O que não gostaria de saber é que não controlo o desejo. A minha vontade é de mandar o aviãozinho de volta pro hangar onde dormia o sono das máquinas voadoras. E fico no patético. Sei bem que o corpo fala pra quem não ouve nem atenderia se me escutasse.

Aceito o convite: sou espantalho a atrair corvos.

Nem assim eu recuo ― vindo o motor: vou pro quintal.

A irritação com o piloto não passa disso; já a minha angústia sabe muito bem: palhaços pipocam no picadeiro.

Suo frio. Bato a borda do copo no lábio superior. Tenho medo de o gole de café me engasgar.

Bebo assim mesmo. Bato assim mesmo. E mais e mais, eu suo.

Acho graça de ser um corvo a sorver o suor que não intoxica nem um pouco.

Com o calhambeque dos palhaços na vanguarda, a trupe circense vem mostrar que está realmente na cidade.

Pra que correr pra dentro se a alegria está na rua?

Com meneios graciosos, a assistente do mágico tira da cartola um folder. Nele estão o nome do circo, o local onde se encontra instalado e os horários das apresentações.

Graças ao Bom Deus!

O calhambeque dos palhaços não se desmilingui. Não me afogam as papas de suor. Já a assistente do mágico faz o truque mais sutil: o buraco da cartola... Nem ela vê.

Que espanto! O coelho corre atrás do corvo.

Se o nome da graciosa for Alice, sou Charles Dodgson.

Se o nome do mágico for Chapeleiro, sou Lewis Carroll.

Se o meu nome for Alice, estou aprendendo como se joga.

Uma vez que jogo pode bem ser palhaçada: bato palmas, juro que vou, juro que eu mesmo é que vou.

Indo: eu juro que não se jura em vão.

Quando a trupe está a dobrar a esquina, saio à rua, e, louco para que a moça das magias me veja atrapalhando o trânsito, solto o mais belo dos berros:

Minha Alice da Cartola, mostre-me todas as suas cartas!

Mas... Porém... Todavia...

Como este bobo sem corte não cativa a realidade, o inconveniente do monomotor não sai de cena.

Ainda bem! Excelente! Maravilha!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 29 de janeiro de 2026.

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Moto aérea

 

Moto aérea

 

Houve uma era em que o esquecimento podia ser remediado com o número do telefone, a ficha e o equipamento na esquina ― dava pra ligar para casa pedindo que tirassem a lasanha do forno.

Naqueles dias, o telefone público parecia uma orelha humana. Por isso, o apelido pegou, e foi uma justiça poética: orelhão.

Dizer “vou usar aquele troço” soaria antipático.

Como fui garoto carente de respostas às minhas perturbações, o mundo era estranho. E essa estranheza ganhava corpo com aquelas aberrações: com uma orelha daquele tamanho, já pensou o tamanho do umbigo do gigante?

Ao juntar orelha gigante, bocarra e fome monstruosa, o resultado não podia ser outro que não este: Gargântua.

Entende por que eu achava espetacular o umbigo?

Mesmo Gargântua sendo tão assombroso, pra eu ficar empolgado de verdade, ele tinha que ter braços, pernas e uma barrigona sempre a exigir mais e mais pizzas.

Com uma gruta colossal na pança, seria extraordinário o tanto de pizzas que ali eu assaria.

Eu ficaria extraordinariamente rico; tanto que as pessoas saberiam de cor o número do telefone do meu quarto.

Nessa minha infância, rico para valer tinha que ter telefone ao lado da cama. Para, imediatamente, atender quem fosse.

Claro! Rico tinha que cobrar pelo atendimento. E o preço era alto: quanto mais pizzas, melhor a atenção dispensada. Naturalmente.

Hoje, a ordem é outra: os fregueses trazem o orelhão no celular, e a maior qualidade da pizza está no baixo custo.

Todo mundo sabe: ainda que o forno arda a bairros da sua boca, mande um zap quando quiser, e os nossos motoboys a entregarão, o mais tardar, em quinze minutos.

Pelo que sei, já que eu aprendi a ser honesto com a realidade do mundo: ninguém perdoa atraso maior do que cinco minutos.

Some cinco aos quinze, noves fora: adeus, pizzaria.

Este tempo é pra cair no esquecimento: a pizza fria, como ontem, é a próxima pizza. Agorinha mesmo.

Como sugeri há pouco, a ordem do dia é esta: vem um áudio.

Por ser mensagem gravada, o futuro não sabe esperar. Responda no ato. Prometa celeridade. Prove ser célere.

Ou seja: você pede pizza, ela chega quente.

Já os entregadores...

Sempre haverá motoqueiro pra cavar corredor aéreo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 27 de janeiro de 2026.

domingo, 25 de janeiro de 2026

O futuro, agora

 

O futuro, agora

 

Chega um momento na vida que a dúvida se dissipa, e a cachola pergunta: será que o melhor remédio é caminhar?

Agora...

A convite da carne, levará sua noite tomar sol. Lava o rosto. Larga a latinha. Põe pressa: cerra a janela. Dará tempo. Contará que o sol dure por mais umas latinhas.

Seguindo lá uns desígnios naturais, a alvorada pariu um bem-te-vi. Coube a ela não ouvi-lo no esplendor da cantoria.

No ônibus, indo pra casa. Pessoas falavam... E falavam. Nem que fossem bem-te-vis ― os ouvidos não estavam aptos a escutá-las.

Precisava jogar uma água na cara.

Já voltou. Já lavou o rosto. Renovada pro dia, já!

Agora, ela anda. Para que a farra sue um tanto, ela andará.

Nos fones, O bêbado e a equilibrista da Maria João.

Nos pés, a areia do Canto do Forte.

Aporta à beira da realidade, que, gaiata, pisca: os banhistas estão satisfeitos com as marolinhas; contentes com a temperatura da água; muito felizes com a urbanidade de uma praia sem funks no talo.

No ar, a felicidade que não precisa ser anunciada.

No passo seguinte, há que se reportar: o mundo é real.

― Sabe dizer as horas?

― Sei.

― Então, que hora é?

― Ah! Me desculpe. É que a música...

― Custa falar que horas são?

― É dez e quinze, senhora.

É hora de dizer umas verdades.

Sobre o que a tem deixado mais leve? Sobre o amor que pode dar certo? Sobre os beijos de ontem à noite?

Valeu a pena ter ido à festa.

Decente foi ter beijado aquele carinha. O passado tem este poder: ela esqueceu o porre que foi escutar o moço falar que era anarquista e convencê-lo que era bem bobinha, já que lhe disse:

Sofro de uma felicidadezinha patogênica, que transmito pelo beijo, já que a saliva é boa indutora de delícias revolucionárias.

Ela anda. Não vai esquentar a cabeça.

Se o novo namorado gosta de ovo: ele que frite.

Ela sente o mar. Geladinho assim... Até arrepia.

Do meio de crianças brincando de pega-pega, alguém acena.

Bem que a vida podia ter mais sábados na semana.

― Oi, Marinês.

Ela tira os fones.

― Como é?!

― Achei que fosse outra pessoa.

 

Já que não quer ser rude...

― Aceita uma casquinha?

...não se apresenta rude:

― Olha, estranho... A Sílvia aqui topa uma cerveja.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de janeiro de 2026.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Um quarto atrasado

 

Um quarto atrasado

 

Ele não se preocupa com bobagens. Sabe que os amigos seguem ocupadíssimos com a vacina dos cães. Ele e os amigos guardam um intervalo para suas pulgas metafísicas: a feijoada de quarta.

Sem falta, toda quarta-feira: estão à mesa.

Dispostos a mordidas distraídas, abrem a boca. Pelo prazer dos pequenos discursos, divertem-se naturalmente.

Este papo dificilmente sensibilizaria oradores bem calibrados, pois profissionais da palavra bem-posta têm o dever da prudência.

Ao achar o fiapinho que roçará o ouvido de outrem, calam-se. Já a diversão coçando a própria língua, pigarreiam.

Na feijoada de quarta, os confrades riem.

Como parece que à feijoada desta quarta ele chegará atrasado, rir seria a maior evidência de que está comprometido.

Ora, nós é que queremos mostrá-lo cauteloso...

Pouco antes das onze foi à casa de Dona Cremilda. Levara o livro prometido. A sua permanência não podia ser maior que os minutinhos que calculara. Houve, entretanto, o cafezinho.

Dona Cremilda...

Mares Interiores, a obra entregue assim que o sorriso da amiga o fez ver-se sentado para aquela broazinha recém-saída do forno, traz a correspondência trocada por dois autores que muito preza.

Otto Lara Resende e Murilo Rubião em cartas? Excelente!

Já que não traz no pulso nenhum relógio, ele achou desrespeitoso morder a broa a pensar em paio e língua.

Uma vez explícita a tendência de minimizá-lo como ser humano a trotar feito pangaré, voltemos ao compromisso anterior.

Naturalmente, entre dez e dez e dez e quarenta e cinco, mostrou tão somente a parte externa da sua casa. Ele ainda era prudente.

O pintor e ele eram conhecidos. Estudaram juntos.

A vida era simples: para cada aula de religião, uma pelada.

Os dois até se lembraram das aulas de ginástica. Entre as flexões e os polichinelos, não se esquivaram daquele nome: Maria Emília.

Por conta da Mãe de Deus, Maria.

Pelo Sítio do Picapau Amarelo, Emília.

Valia a pena esperar pela educação física das meninas?

Ele teve que correr.

Já que a farmácia fica aberta as 24 horas de cada dia, achou bom ir cedo pegar os trinta comprimidos do seu ansiolítico.

Antes das oito já estava livre para fazer o supermercado.

E ele foi num pé.

Pôde examinar a banana e cheirar a couve. Pediu moído um quilo de patinho, que passou duzentos gramas e tralalá ― e tudo bem.

O que haveria de querer quando acordou?

Com o ânimo para não peitar o mundo, acordou que nem precisou calcular o quanto era positivo o tanto que dormira.

Espreguiçou-se. Bocejou. Espreguiçou-se.

Ainda que fossem cinco para as sete de quarta-feira?

Tudo nos conformes. Tudo merece uma bela espreguiçada.

Aliás, Dona Cremilda, coisa boba é achar que cinco pras sete seja um bom momento de ir deitar-se na própria cama.

Ele não correu.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de janeiro de 2026.

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

A autobiografia do fim

 

A autobiografia do fim

 

Senhores, agradeço-lhes pelo diploma a mim outorgado.

Em primeira mão, adianto que a minha vida está avisada: somente quando a quarta parte estiver completa, precipite-me no obscuro.

Oxalá, eu consiga preservar-me até o último suspiro.

Buscar prazeres que não custem mais que uns trocados não pesa. A promissória de maior valor está nas mãos da eternidade.

Sem arabescos, é vero, este fogo que vai pela luz dos meus vasos não me chamusca. Em nada me percebo chamuscado.

Conhece-me quem não se avexa desta carne grelhada. Asseguro-lhes, não negaceio a minha alma imortal.

Permaneço ileso. Vivo pro dia. Somo ontem com amanhã. Hoje eu tenho a cabeça boa ― para aritméticas a meu favor.

Não vivo de olho na eternidade.

Desculpem-me pela franqueza. Juro que pouco tem de intencional exibir-me calculista. As noites passadas ao sereno dão febre, fazem tremer. Diverte-me alucinar.

Alucino, bem o sabem quem me dá um copo d’água. Alucino, não me deixo fustigar pela estagnação.

Permitam esclarecê-los: posto que são leves, as minhas paralisias são momentâneas, não me arrastam pro fundo. Assentam-me.

Quando especulo, o poço faz água.

Pelas mãos de quem negocia, bebo-a. Para obter vantagem, trata-me bem. Não há regalia nesta sonhada barganha. O copo d’água não azedará a sede da minha saliva.

Senhores, não os aborrecerei.

Não havia febre quando o teto sobre a minha cama apresentou-se o mais visível que a ele pareceu necessário.

Eu almoçara.

É detalhe a não ser desprezado quando a inteligência artificial der de mim o seu depoimento.

Ratifico. Não os melindrarei com informações conhecidas. Já que os senhores sabem: a grande revolução desta quadra é a IA.

Instruí a máquina que produzisse um pequeno texto sobre mim.

E ela assim o fez:

Era uma tarde como outra qualquer. Uma segunda-feira de vento frio em pleno verão.

Claudiomiro Malaquias acabara de almoçar. Viera deitar-se. Tinha a pestana para tirar. Começara a perdê-la quando o teto revelou-se já mais baixo que o habitual.

Um teto é uma parede horizontal.

Claudiomiro Malaquias cruzou os braços sobre o peito. Tinha clara a missão maior daquele instante:

Teto, ao desabar sobre mim, terei de defender-me de ti!

De todo parede branca, o teto não esboçou esgar de nojo. Soltou, porém, grânulos de pó. E Claudiomiro Malaquias lacrimejou.

Teto, quando vier a desabar, estarei fortalecido, que meu ódio põe sua figura no alvo. E não dispararei à toa. Alvo, precisão é tudo.

Como qualquer, o homem tinha direito a um cochilo.

Já não chegasse a presença do teto alvo, uma aranha veio andar no seu nariz. Claudiomiro espirrou.

Para que tal momento não passe batido, registre-se: o epílogo da autobiografia escrita pela IA ignorará o espirro.

Sim! Já o compreendem, já me acompanham...

Qual há de ser o fim da picada?

A aranha espirrada da cena sou eu.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 20 de janeiro de 2026.

domingo, 18 de janeiro de 2026

Até babando

 

Até babando

 

O domingo amanhece com nuvens tímidas a salpicar o horizonte. Na veia aberta ao sentimental, a combinação do azul com a leveza do rio, é razoável admitir que o mundo segue encantador.

Nem só de encantamentos vive uma pessoa sensível.

Em certas ocasiões, não é natural querer matar um desejo.

Pense: lamber sorvete ao assobiar La Vie En Rose?

Não dá.

Sem as finuras de meio-tom, não há abafa que silencie nos olhos o grito de quem já está à beira da desventura.

De tanto se achar em uma pintura de Munch, a restrição se impõe: ou vai preparar o almoço ou vai a um restaurante.

Faz bem encontrar gente. Trocar umas palavras sobre o tempo.

É obvio: xingar o governo tem que entrar na pauta.

A este brasileiro não falta humor. Como bom imaculado que ele é, os seus erros não passam de enganos.

Em sã consciência, ninguém se vê como digno disso que o mundo vive impondo: dor, sofrimento, um futuro de indefinições.

O presente já não é uma página que, nos dias de internet discada, rodava aquele: CARREGANDO.

Ficasse nisso, a manhã travaria. Contudo, as maritacas gracejam, os amigos papeiam.

Para ouvir o disco Até Sangrar, dispenso o almoço.

No banco de sempre, vejo os fiéis que terão macarronada e frango assado. Sim, eles oraram para tomar só dois copos de refri.

Áurea Martins canta: “o mundo inteiro fez-se tão tristonho”.

Já os mendigos... Não temo que carreguem o meu telefone.

E aí: “fica às vezes tão sisudo, porque não compreende tudo”.

Sem pedir autorização, o ar circula da cabeça aos pés.

A mulher amada “ficou para impedir que a loucura fizesse de mim um molambo qualquer”.

Ciclistas vêm, circundam a praça e vão por onde vieram.

E você “há de ver cheio de horror que no fundo do seu peito existe um sonho desfeito”, que a gente “vive uma vida de louca, de sorriso na boca e uma lágrima no olhar”.

Tudo está ligado. A sua mente não solta do nada:

Tire o pijama!

Como não tem nenhum, comprará um.

Ele será 100% algodão. Terá estampa floral que seja calmante. O tamanho precisa levar em consideração o físico desta criatura.

“Acho engraçado quando um certo alguém se aproxima de mim”, a Áurea está falando comigo?

Ninguém está vindo...

Só a minha cara baterá no assento do banco.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de janeiro de 2026.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

O balde

 

O balde

 

Tenho coisas para resolver. Como todo mundo, aliás. Mas sábado e domingo, tiro-os para pescar, me divertir, ficar na rede só espiando a rua. Como a maior parte da gente, também trato de não fazer nada que desabone.

Falar dos desastres da vida requer o cuidado: chover no molhado é carimbar-se um chato.

Neste final de semana, entretanto, a paz entre as pessoas de boa vontade fugiu. Por onde a graciosa escapuliu, eu vi.

Pela fresta da veneziana, enquanto consegui me segurar, eu fiquei observando o que acontecia.

Fui o chato que não pode perder-se dos detalhes.

Só que as pessoas precisam de vizinhos, tanto quanto este aqui. E lá fui eu. No entrevero alheio, meti a colher.

Quando me viram na cozinha deles, não foram frontalmente hostis nem me deixaram longe do fogão.

Tenho polegares opositores, afinal.

Com a churrasqueira pra limpar, o Epaminondas pediu minha ajuda: deu-me uma latinha. E fomos tirar da grelha o sebo, justo do churrasco a que não fui convidado.

Como vizinho que fará aniversário no mês que vem, Magali e o meu amigo já são os primeiros a encabeçar a lista de espera. Para mim, é ululante: fazer festa sai caro.

Encarecidamente, Epaminondas queria que eu opinasse.

Ontem, ele acordou aflito. Como a sua bexiga não é mais um relógio suíço, foi desesperador não ter o banheiro à disposição.

Magali tem destes hábitos: tomar banho ouvindo música em volume alto, cantar junto e não se ouvir. E chaveia a porta.

Magali, minha amiga, você não devia trancá-lo fora.

Ele choraminga. Não age como um companheiro sensato.

Agora estou numa sinuca de bico.

Para que minha opinião sincera não saia pela boca, seu esposo me oferece outra latinha. Embriago-me. Feito bêbado que tem a desculpa de não ser senhor da própria língua, fecho o bico.

E o que eu faço?

Para que pule o muro, sorrio. Na lavanderia de casa, urino no balde. Falo grosso, eu quero que ele faça o mesmo.

Urinamos.

Homem que pega rápido o sentido da coisa, Epaminondas não pula de volta. Ele vai até a frente da sua casa, toca a campainha.

Magali não acha engraçada a brincadeira.

Ela e ele se encaram.

Eu coço a cabeça de um vira-lata.

Casal que estraga até macarrão instantâneo, quem acha a solução é o Epaminondas.

Não era para ter graça, era para chamá-la ao ponto: se ele não pode usar o banheiro quando precisa, vão ter que comprar um balde só para ele urinar.

O vira-lata foi-se embora. Eu sorri.

Qual é o problema?

Magali olhou para mim.


Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 15 de janeiro de 2026.

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Reaçãozinha

 

Reaçãozinha

 

De copo em punho, quis ver a vida além das vidraças do jardim de inverno. Nesta quadra do verão, com o sol cantando de galo, sorvendo o meu cafezinho frio, fiquei passado com tanta gente batendo perna.

Olhei as horas no celular. Passava das cinco.

Das cinco!

Curioso o que ocorre com a gente. Basta ficar ouvindo o jogral dos bem-te-vis, e pronto: serão seis horas.

Depois do almoço, deitei. Não abro mão da soneca no sofá, só que eu ronquei pesado. Quase na hora da janta, acordei babado.

Se corresse, recuperaria a tarde perdida. O tapetinho do banheiro cortou a ilusão. Dei com o peito no batente da porta.

Para não produzir maiores estragos, tomei os meus remédios.

Lavei o rosto. O cara no espelho sequer me fez sorrir.

O mais engraçado é que ontem, no escuro, vim leve pelo corredor. Não temi os fantasmas que dirigem os meus sonhos. Tendo pesadelo, acordo suado. Sem o horror de estar sozinho, fui ao banheiro.

Ébrio dessa felicidade ꟷ de viver para manter-me atento aos entes passados ꟷ, urinei no chão.

Fui relapso, mas não hesitei de limpá-lo, porque mamãe me educou para a higidez das minhas decisões.

Não sendo galinha pra cacarejar diante da ração do dia, penso que sou um sujeito que preza as lições no milho.

Nunca me obrigaram a ajoelhar no milho, nem na igreja. Já que fui coroinha porque achava bonitas as roupas. E tinha a chance de servir ao padre o cálice de vinho.

Não negarei: eu bebia escondido na sacristia.

Numa das vezes que estive bem alegrinho, fiquei olhando o Cristo na cruz. Pisei na bola. Não teve a sineta do Santo! Santo! Santo!

Mas isso são águas que não quero que retornem. Aliás, eu nem sou moinho para remoer os meus descuidos. Mesmo nos meus momentos menos felizes, não mordo os dedos. Gosto mais de pão.

Azar? Que azar?

O meu juízo diz que pata de coelho traz outras prerrogativas.

Salvar o mundo da próxima enchente. Trazer escada para gatinho na árvore. Dar de beber a quem pede pinga.

Prioridades que urgem ser atendidas, coelhinho.

Sem que meus cochilos pudessem impedi-los, os sinos decretaram o começo da noite.

Sim! São seis horas! Sim!

Para enovelar mais ainda meu dia aziago, começou a chover assim que pisei a calçada.

Tocado pelo amor ao próximo, o vizinho da direita deu-me lugar sob o seu guarda-chuva.

Simpático, ele é da direita na rua e de direita na vida.

O barulho da enxurrada. A minha camiseta molhada. Os perdigotos do camarada. Eu não estava preparado para achar que nada haveria de me apatetar. Nem os elogios ao Big Bear.

Hein!?! Cerveja numa hora dessa?

Voltei correndo. Não deu tempo. A urina derrotou-me.

Santa coerência!

O quentinho desceu por minha perna esquerda.


Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 13 de janeiro de 2026.

domingo, 11 de janeiro de 2026

O candidato perfeito

 

O candidato perfeito

 

Com as eleições em outubro, janeiro chegou. Eu mal esperava mais quente. Já que os céus nada têm que ver com a prosa de cada dia, e sabendo que o bafo da entranha de um pastel mais esquentará o meu rosto: mordo-o com gosto.

Na feira de domingo, a comoção não tem mistério: fazendo a sua política, tem candidato beijando toda criança que apareça.

Engana-se quem acredita que o candidato perfeito é aquele que tira foto beijando criança de colo porque ela representa a inocência.

Sem se sujeitar às condições socioeconômicas, o beijo vira ideia.

Os tutores têm que ser responsáveis pela ambivalência: conservar a pureza da alma desse ser que precisa aprender a sujar fraldas e fazê-la ver que o terno só vira fralda quando o candidato não faz jus à pureza daquela alminha sem pudor.

Quem assim o crê, engana-se.

O beijo não é ato inocente. Com o santinho colado no lado esquerdo do peito, nem mesmo sendo beijo no próprio filho. No fundo, ao beijar o filho, o candidato está no colo do pai.

Amplie-se a leitura: o candidato ideal nunca é perfeito.

A confusão ocorre porque o leitor da foto quer se identificar com o pai que beija o filho. Como candidato, faz campanha. Usa as imagens. Vende-as. E esta exploração é política.

Para que a foto não seja revelada por inteiro, o candidato que posa de pai precisa do beijo em público. Com a audácia de sentir que a foto tem que ser lida pelo seu viés, já no papel de eleitor, ressalte-se: o voto vire beijo que eleja. E todo eleitor tem ansiedades.

O eleitor identifica: aquele que há de lutar pelo bem-estar da criança de colo há de tomar para si a luta pelo bem-estar de qualquer criança de colo que nem seja o seu próprio filho.

O candidato perfeito, entretanto, não precisa ser chancelado como quem luta para garantir colo ao seu filho e aos filhos de quem o eleja.

Já ao eleitor cabe reconhecer sua responsabilidade pelo espaço no colo de quem se dispõe a embalá-lo. O jeito, então, é sorrir quando o seu bebê é fotografado por um desconhecido.

Este eleitor, no fundo, é quem sente que precisa votar, ainda que a sua infância não lhe dê a figura do pai a beijá-lo feito o candidato a lhe beijar pela criança que é.

Quem pede colo, é consciente.

Já no colo, é direito do eleitor beijar o candidato.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de janeiro de 2026.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Renascimento

 

Renascimento

 

Se ainda desconfia, dou prova de que existo. Como dragão, quero dizer. É que estou cuspindo fogo. E não é de hoje. Há uma semana.

Tirar o mundo pelo mal, isso é comigo. Com pitadas de ceticismo e temperadinhas de ironia, faço por mim o que desejo que me façam.

Sou ético. E transparente.

Não uso o riso para debochar, uso-o no ataque. Não defendo. Os meus ataques que me protejam! Não sou patético, faço uso moderado da obscuridade. Flerto com o controle das pragas ― toco fogo no mato se a pilha de gravetos e folhas lambe a bunda da casa da árvore.

Casa da árvore, por sinal, que está a cinco metros do chão.

Se assim não fosse, eu seria outro exemplar dessa espécie rasteira, que medra satisfeito ali onde a brasa está extinta.

Ressentido dessa extinção, o fogo, em vez de fagulhas, dá patadas, passa o pé. Péssimo exemplo, faz cama de gato. E o inocente útil, tão ingênuo, vira bucha de canhão.

Para melhor atingir o meu alvo, que é falar sem agravar a situação, disparo silêncios de quando em quando.

Mais apurado, calo a matraca para só tagarelar quando as minhas palavras não chamusquem. Enfim, não flambo o bocó que me derruba quando estou calculando o quanto preciso medir a mecha para que eu não detone tudo ao meu redor.

Ser ético, portanto, é avisar: cuidado com o dragão, ele cospe fogo como quem serve Crepe Suzette. É delícia que sai caro.

Tudo isto posto: aos fatos!

Tudo acabou às 15h30 de um sábado, dia 20 de janeiro de 1996, lá em Minas Gerais, naquela cidade chamada Varginha.

Debaixo de chuva e ventania, três mulheres pararam subitamente. Ainda que chovesse e ventasse, elas perderam a pressa.

As mineiras viram o que viram porque tinham olhos para, mais bem, divisar o que a realidade queria que não percebessem o que era real, e não ilusão de alucinado que enxerga o que não quer pelo que não vê e acha graça onde não tem.

As três mineiras viram uma pessoa agachada.

Quando a pessoa agachada junto ao muro do terreno baldio virou-se, quem sabe para pedir um cigarrinho ou um isqueiro, os seus olhos avermelhados não tinham lágrima.

Que furdunço!

As três mineiras correram. Contaram que viram o diabo em pessoa. Que ele estava fazendo as suas necessidades como cão que faz o que faz sem atinar para o instituto que o ato tem...

Defecar em público é ato obsceno.

Houve na cidade um tal burburinho que o rastilho não apagou nem com os perdigotos da gente a fofocar o que a verdade pedia que fosse fofocada.

A verdade dita como a verdade que é: ninguém fofoca.

Já que o diabo em pessoa cagava no mato, as três mulheres viram o que a chuva e o vento não conseguiram camuflar, eis que o evento é ainda lembrado como o acontecimento que ele é.

Depois que toma conhecimento do fato, ninguém é mais o mesmo.

Todo mundo ganha alguma coisa.

Uma vez que não alcancei a fé que me daria vaga na astronave pra Kappa Ceti, admito: esta crônica não exorciza.


Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de janeiro de 2026.


terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Adeus às ilusões

 

Adeus às ilusões

 

Corro. Enfrento-me, e não paro. O mundo melhor depende de mim. A vida nova foge. A realidade menos injusta aguarda que o idealista vá ao banheiro. De madrugada, o copo d’água não vira sopa. O espelho está limpo. O romântico passa que nem olha para trás.

O poeta conta moedas debaixo da cama. Vamos, pensador, durma de vez. A autoestima do lírico anda tão soberba que as baratas fazem cafuné. Já que o seu amor-próprio não descerá de cima do carrinho de pastel, a Utopia clama que pule. Distante a uma piscadela, a Ilha dos Amores envia garrafas vazias. Não as recolha nem mande ao mar os poemas que escreveu aos vinte anos.

Posso pôr em ordem crescente os boletos que tocam a campainha de casa. Nenhuma dúvida apaga a luz do quarto.

Não há pulga que me faça cócegas na barriga. Ouço quieto quem passa sermão. Sei com quem estou lidando.

De agora em diante, meu orgulho vai mancar. Pisei a latinha que fiz questão de pisar. Subirei a escada, me forçarei.

A vítima da rede ganha mais força a cada joinha. E eu não carrego página alguma. O meu celular dorme ao lado da cama.

Vivo para comer pelas beiradas o que somente é beirada. A razão precisa de um antiácido.

Uma vez que o sangue não esquece julho de 2013, o meu coração, pleito de 2018, precisa de outro turno. Na boca, a língua serve de isca a fantasmas surdos, que nem votam.

As ansiedades estão latindo no peito. As contradições denunciam os garranchos ainda sem garrafa. O perfume noctívago do olíbano se apega a desejos indômitos. Estou sublimando.

Miragens de shopping abarrotado assombram o cartão já abatido pelo crédito. Nem me imagino engolindo a porção de fritas que recende a óleo rançoso. Finjo que não invejo a tulipa balançando por mais um chope. Há garçons, e o ar-condicionado engole meus gestos.

Os becos sem saída da calada da noite geram um apagão na Itaipu das sinapses tão lerdinhas. O sofá que me acolhe é o que me entorta o sono. Viajo deitado. Nem a sala rodopia nem as mãos atiram garrafas na porta.

Ó poodle a unhar o cercado que o barra, pule, vá para a sacada do apartamento. Lá na rua o mato cresce. Há paralelepípedos.

Ó gatinho que mantém a curiosidade, entre no guarda-roupa. Veja que o quarto é o mundo. E o mundo precisa de naftalina.

Ó frenética serra elétrica que corta o ferro para fundear a nave que trará Valhalla ao outro lado da rua, toque outra canção. Não peça que o coro das crianças esgoele o Hino Nacional.

A rua, esta rua, ela leva o nome de gente de carne e osso. A placa é tributo a quem é dado como exemplar. Mas este preito à pessoa que devia ter as finanças em dia... Cadê vacina a perdulário?

Não paro para pensar nem penso em parar para pensar.

Sei que o mosquitinho miserável que inocula os labirintos da febre está na sala, quer dar sua picadinha. Sei, é preciso mais médicos, mais professores, e bem mais arroz com frango sem picadinho. Sei, o arroz com feijão que seja servido com purê de mandioquinha.

Sim, o Quincas Borba vive latindo da estante. Sim, lato de volta.

Dou a letra: os aviões que pousam em Congonhas decolam; vou a Congonhas, lá a pedra-sabão traduz o engenho do Aleijadinho.

Pelo que sei, até onde sei ou acho que sim, faço questão ― a saber: corro. E não chego. E isso não chega, não basta, não evolui.

Caramba! Por que tudo isso?

Uma vez que agosto está vindo, eis o porquê.


Rodrigues da Silveira

Praia Grande, dia 30 de julho de 2019.

  

 

PS – Neste Dia de Reis, agora você compreende o que eu quero dizer com: FELIZ 2026!

domingo, 4 de janeiro de 2026

Cumplicidade

 

Cumplicidade

 

Para se entender com os simples do mundo, é preciso aprender a improvisar. O senso dirá para segurar-se do riso, mas uma besteirinha espontaneamente amável pede para rir junto.

Se me permite glosá-lo, Montaigne: filosofar é aprender a rir.

Quando a mão que afaga é a que belisca... Meu bom filósofo, tudo bem. Não se faça de gracioso... Beba a garapa. Coma o pastel. Se for somente uma gentileza, pague a conta. Ora, a feira é livre.

Vá embora. Volte aos seus afazeres.

Quando estiver disposto, mesmo que nem esteja preparado, retome a crônica. Um dia, Seu Rodrigues, você não se deixou valsar ao sabor de arengas e milongas?

Hoje não. Baile ao sabor da cachola.

Deixe estar. Ainda que as formigas continuem na cadeira, sente-se e escreva o que o texto pede. Ouça as entrelinhas do texto. E antes de apagar, alterar ou confirmar a palavra seguinte, pense.

Vá em frente. Permaneça ao computador. Escute o que a razão diz, mesmo que a boca murmure. Aproxime-se da tela. Passe os dedos. O calorzinho é bom, ele indica que tudo funciona como deveria.

Sem a iminência de um desastre, respire.

Você se lembra da Páscoa de 77... Que jocosidade é essa?

O padre escalou-o para badalar os sinos. Você deitou cedo, dormiu o sono dos esperançosos e, às seis horas em ponto, achou divertido a confirmação daquela lei de Newton: ao puxar a corda pra baixo, a força contrária o puxava para cima.

E o padre e os paroquianos ouviram dos sinos que a Casa de Deus estava aberta. Viessem. A missa era comum e não era.

Nesse dia, o menino, em saia verde e na camisa de gola e punhos rendados, cuja beleza fora crochetada pelas mãos da sua mãe... Esse coroinha, cujo espírito moldava-se a cada evento em que se havia de intuir que corpo e alma são um...

Seu Rodrigues de agora, vamos lá... Dê razão a si quando afasta melancolias nostálgicas, pois aquele dia 10 de abril de 1977 escapa à areia do tempo... Ele é seu.

O coração bate, o sangue circula ꟷ recordar é filosofar com veias e artérias, em eterno fluxo.

A mão que digita é a mão que segura o copo de café.

Beberique. Sê inteiro enquanto beberica.

A tevê do quarto continua desligada. Ao se esquecer da insônia que o levou a encarar o fantasma na tela às três da matina, recorde-se: não tinha nenhum pernilongo.

Vá. Encha o copo novamente.

Concentre-se. Vem aí o momento de decidir-se pelo ponto final.

A crônica terá permitido que seja lida como mais um registro do que é transitório? Terá o cronista se permitido o tolerável num texto de sua lavra?

Deite a crônica para que descanse. Deixe o leitor se aproximar.

Respire. Relaxe. Revigore-se.

É domingo. Os sinos batem. Vem aí a missa das dez.

E o cronista sorri. Ele respira. Seu Rodrigues, está relaxado.

Diante do computador, sozinho frente ao texto: o conhecimento diz: o que não é espelho é reflexo.

O café, todavia, revigora?

Todavia, ele é revigorante.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de janeiro de 2026.


quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Bingo!

 

Bingo!

 

O primeiro dia do ano veio. Depois que tomei banho, o dia começou para valer. Estou pronto para enfrentar o que o momento põe na mesa: vou ver TV ou recolher as folhas do jardim?

Olho pela janela, os ipês continuam altaneiros.

Vou à varanda, constato que terei muito trabalho.

Ato contínuo: fecho o saco, tiro os joelhos do chão.

Seria o momento para um cigarro. A minha boca enche d’água. Mas há pessoas passando, e a fumaça iria incomodá-las.

Viver a dar razão a quem não tem é aprendizado difícil?

Mais que fazer balanços e promessas, a dificuldade para aprender é bem maior quando chega o tempo de eu usar uma vassoura.

Nem o suor me detém: jogo o lixo na caçamba.

O morador que cuida do beco não está. Mas há caixas com garrafas de espumante e vinho, conforme eu próprio confiro.

O morador que mora ao lado da caçamba chega. Ele me repreende: deixar o beco limpo não é serviço meu.

Se a janela do meu quarto capta as energias da virada?

Não é porque o ano está começando que optei pela boa ação. Um impulso tomou-me pelas mãos. Resolvi lavar o beco sem nada que ver com o cheiro de urina seca ou o aumento do vaivém dos ratos.

Para dar fim ao jogo, volto para casa.

O sorteio da Mega da Virada não foi feito. Aí tem coisa... Já que as seis dezenas nem seriam sorteadas ao vivo...

Quantas vassouras dá pra comprar com um bilhão de reais?

Esta manhã poderia ser outra, só não apostei.

A repórter está na rua. Aos aparecidos que a rodeiam, ela pergunta sobre os sentimentos pelo adiamento do sorteio.

Adiaram?

Vou tomar café. Antes, tomo outro banho.

Preciso dar uma olhada no quintal atrás da casa. Preciso realmente confiar em mim, que conseguirei tomar mais um banho.

Como quem empunha Excalibur...

Não pego a vassoura pra subjugar os inimigos da Távola Redonda. Sou apenas um homem que se dispõe a erguer um montinho de folhas, e depois, só depois, é que meterei fogo no bicho.

Pingue: a fumaça se espalha.

Pongue: o morador do beco grita comigo.

O terceiro banho desta manhã confirma que o primeiro dia do ano é prenúncio de que a boa sorte tem este recadinho: azar de quem não trabalha pelo mundo melhor.

Conhecendo o poder do vento, fecho as janelas de casa.

O morador do beco bate palmas. Vou ver o que ele quer. Ele entra, senta-se na cadeira de balanço, pede uma cerveja.

Como bom vizinho que eu sou, não rateio de ir pegá-la.

ꟷ Trouxe uma só? Tá me estranhando?

Para que não comecemos um bate-boca sem noção, evito a história do adiamento do sorteio do Bilhão da Virada...

Falamos do aguaceiro que caiu tão logo escureceu. Falamos ainda da ventania que nem durou dois minutos.

Sabendo que eu não conseguiria me segurar... Já que é preciso ter muita bufunfa para viajar para o outro lado do planeta...

ꟷ Você soube da maior? Que este ano o Réveillon chegou primeiro na Austrália?

ꟷ Isso é balela. Eu vi na tevê que o primeiro foguetório da virada foi em Sidney.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de janeiro de 2026.