Válvula de escape
Sem chorumelas: o circo está
na cidade.
É o que anuncia o ramerrão
gravado do monomotor circunvoando a cidade desde cedo. Aliás, o chatonildo me
acordou. Eram oito horas quando a gritaria me fez escancarar a janela. Desde
então, dou-lhe o dedo do meio.
Não falo da boca pra fora: interrompo
o que estou fazendo, posto-me na frente de casa, ergo os dois braços, agito-os;
só que não emito o S.O.S. dos náufragos.
Claro que sei que a pantomima
é um soco no ar.
O que não gostaria de saber
é que não controlo o desejo. A minha vontade é de mandar o aviãozinho de volta
pro hangar onde dormia o sono das máquinas voadoras. E fico no patético. Sei
bem que o corpo fala pra quem não ouve nem atenderia se me escutasse.
Aceito o convite: sou
espantalho a atrair corvos.
Nem assim eu recuo ― vindo o
motor: vou pro quintal.
A irritação com o piloto não
passa disso; já a minha angústia sabe muito bem: palhaços pipocam no picadeiro.
Suo frio. Bato a borda do
copo no lábio superior. Tenho medo de o gole de café me engasgar.
Bebo assim mesmo. Bato assim
mesmo. E mais e mais, eu suo.
Acho graça de ser um corvo a
sorver o suor que não intoxica nem um pouco.
Com o calhambeque dos
palhaços na vanguarda, a trupe circense vem mostrar que está realmente na
cidade.
Pra que correr pra dentro se
a alegria está na rua?
Com meneios graciosos, a assistente
do mágico tira da cartola um folder. Nele estão o nome do circo, o local onde
se encontra instalado e os horários das apresentações.
Graças ao Bom Deus!
O calhambeque dos palhaços
não se desmilingui. Não me afogam as papas de suor. Já a assistente do mágico
faz o truque mais sutil: o buraco da cartola... Nem ela vê.
Que espanto! O coelho corre
atrás do corvo.
Se o nome da graciosa for
Alice, sou Charles Dodgson.
Se o nome do mágico for
Chapeleiro, sou Lewis Carroll.
Se o meu nome for Alice,
estou aprendendo como se joga.
Uma vez que jogo pode bem
ser palhaçada: bato palmas, juro que vou, juro que eu mesmo é que vou.
Indo: eu juro que não se
jura em vão.
Quando a trupe está a dobrar
a esquina, saio à rua, e, louco para que a moça das magias me veja atrapalhando
o trânsito, solto o mais belo dos berros:
Minha Alice da Cartola, mostre-me
todas as suas cartas!
Mas... Porém... Todavia...
Como este bobo sem corte não
cativa a realidade, o inconveniente do monomotor não sai de cena.
Ainda bem! Excelente!
Maravilha!
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 29 de janeiro de 2026.