Corro. Enfrento-me, e não paro. O mundo
melhor depende de mim. A vida nova foge. A realidade menos injusta aguarda que o
idealista vá ao banheiro. De madrugada, o copo d’água não vira sopa. O espelho
está limpo. O romântico passa que nem olha para trás.
O poeta conta moedas debaixo da cama. Vamos,
pensador, durma de vez. A autoestima do lírico anda tão soberba que as baratas
fazem cafuné. Já que o seu amor-próprio não descerá de cima do carrinho de
pastel, a Utopia clama que pule. Distante a uma piscadela, a Ilha dos Amores
envia garrafas vazias. Não as recolha nem mande ao mar os poemas que escreveu
aos vinte anos.
Posso pôr em ordem crescente os boletos que
tocam a campainha de casa. Nenhuma dúvida apaga a luz do quarto.
Não há pulga que me faça cócegas na
barriga. Ouço quieto quem passa sermão. Sei com quem estou lidando.
De agora em diante, meu orgulho vai
mancar. Pisei a latinha que fiz questão de pisar. Subirei a escada, me forçarei.
A vítima da rede ganha mais força a cada
joinha. E eu não carrego página alguma. O meu celular dorme ao lado da cama.
Vivo para comer pelas beiradas o que somente
é beirada. A razão precisa de um antiácido.
Uma vez que o sangue não esquece julho
de 2013, o meu coração, pleito de 2018, precisa de outro turno. Na boca, a
língua serve de isca a fantasmas surdos, que nem votam.
As ansiedades estão latindo no peito. As
contradições denunciam os garranchos ainda sem garrafa. O perfume noctívago do
olíbano se apega a desejos indômitos. Estou sublimando.
Miragens de shopping abarrotado
assombram o cartão já abatido pelo crédito. Nem me imagino engolindo a porção
de fritas que recende a óleo rançoso. Finjo que não invejo a tulipa balançando
por mais um chope. Há garçons, e o ar-condicionado engole meus gestos.
Os becos sem saída da calada da noite geram
um apagão na Itaipu das sinapses tão lerdinhas. O sofá que me acolhe é o que me
entorta o sono. Viajo deitado. Nem a sala rodopia nem as mãos atiram garrafas
na porta.
Ó poodle a unhar o cercado que o barra,
pule, vá para a sacada do apartamento. Lá na rua o mato cresce. Há
paralelepípedos.
Ó gatinho que mantém a curiosidade,
entre no guarda-roupa. Veja que o quarto é o mundo. E o mundo precisa de
naftalina.
Ó frenética serra elétrica que corta o
ferro para fundear a nave que trará Valhalla ao outro lado da rua, toque outra
canção. Não peça que o coro das crianças esgoele o Hino Nacional.
A rua, esta rua, ela leva o nome de gente
de carne e osso. A placa é tributo a quem é dado como exemplar. Mas este preito
à pessoa que devia ter as finanças em dia... Cadê vacina a perdulário?
Não paro para pensar nem penso em parar
para pensar.
Sei que o mosquitinho miserável que
inocula os labirintos da febre está na sala, quer dar sua picadinha. Sei, é
preciso mais médicos, mais professores, e bem mais arroz com frango sem picadinho.
Sei, o arroz com feijão que seja servido com purê de mandioquinha.
Sim, o Quincas Borba vive latindo da
estante. Sim, lato de volta.
Dou a letra: os aviões que pousam em
Congonhas decolam; vou a Congonhas, lá a pedra-sabão traduz o engenho do
Aleijadinho.
Pelo que sei, até onde sei ou acho que sim, faço questão ― a saber: corro. E não chego. E isso não chega, não basta, não evolui.
Caramba! Por que tudo isso?
Uma vez que agosto está vindo, eis o
porquê.
Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 30 de julho de 2019.
PS
– Neste Dia de Reis, agora você compreende o que eu quero dizer com: FELIZ 2026!
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