De copo em punho, quis ver a vida além
das vidraças do jardim de inverno. Nesta quadra do verão, com o sol cantando de
galo, sorvendo o meu cafezinho frio, fiquei passado com tanta gente batendo
perna.
Olhei as horas no celular. Passava das
cinco.
Das cinco!
Curioso o que ocorre com a gente. Basta
ficar ouvindo o jogral dos bem-te-vis, e pronto: serão seis horas.
Depois do almoço, deitei. Não abro mão da
soneca no sofá, só que eu ronquei pesado. Quase na hora da janta, acordei
babado.
Se corresse, recuperaria a tarde perdida.
O tapetinho do banheiro cortou a ilusão. Dei com o peito no batente da porta.
Para não produzir maiores estragos,
tomei os meus remédios.
Lavei o rosto. O cara no espelho sequer
me fez sorrir.
O mais engraçado é que ontem, no escuro,
vim leve pelo corredor. Não temi os fantasmas que dirigem os meus sonhos. Tendo
pesadelo, acordo suado. Sem o horror de estar sozinho, fui ao banheiro.
Ébrio dessa felicidade ꟷ de viver para
manter-me atento aos entes passados ꟷ, urinei no chão.
Fui relapso, mas não hesitei de limpá-lo,
porque mamãe me educou para a higidez das minhas decisões.
Não sendo galinha pra cacarejar diante
da ração do dia, penso que sou um sujeito que preza as lições no milho.
Nunca me obrigaram a ajoelhar no milho,
nem na igreja. Já que fui coroinha porque achava bonitas as roupas. E tinha a
chance de servir ao padre o cálice de vinho.
Não negarei: eu bebia escondido na
sacristia.
Numa das vezes que estive bem alegrinho,
fiquei olhando o Cristo na cruz. Pisei na bola. Não teve a sineta do Santo!
Santo! Santo!
Mas isso são águas que não quero que retornem.
Aliás, eu nem sou moinho para remoer os meus descuidos. Mesmo nos meus momentos
menos felizes, não mordo os dedos. Gosto mais de pão.
Azar? Que azar?
O meu juízo diz que pata de coelho traz outras
prerrogativas.
Salvar o mundo da próxima enchente.
Trazer escada para gatinho na árvore. Dar de beber a quem pede pinga.
Prioridades que urgem ser atendidas,
coelhinho.
Sem que meus cochilos pudessem
impedi-los, os sinos decretaram o começo da noite.
Sim! São seis horas! Sim!
Para enovelar mais ainda meu dia aziago,
começou a chover assim que pisei a calçada.
Tocado pelo amor ao próximo, o vizinho
da direita deu-me lugar sob o seu guarda-chuva.
Simpático, ele é da direita na rua e de
direita na vida.
O barulho da enxurrada. A minha camiseta
molhada. Os perdigotos do camarada. Eu não estava preparado para achar que nada
haveria de me apatetar. Nem os elogios ao Big Bear.
Hein!?! Cerveja numa hora dessa?
Voltei correndo. Não deu tempo. A urina derrotou-me.
Santa coerência!
O quentinho desceu por minha perna
esquerda.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna, dia 13 de janeiro de 2026.
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