domingo, 11 de janeiro de 2026

O candidato perfeito

 

O candidato perfeito

 

Com as eleições em outubro, janeiro chegou. Eu mal esperava mais quente. Já que os céus nada têm que ver com a prosa de cada dia, e sabendo que o bafo da entranha de um pastel mais esquentará o meu rosto: mordo-o com gosto.

Na feira de domingo, a comoção não tem mistério: fazendo a sua política, tem candidato beijando toda criança que apareça.

Engana-se quem acredita que o candidato perfeito é aquele que tira foto beijando criança de colo porque ela representa a inocência.

Sem se sujeitar às condições socioeconômicas, o beijo vira ideia.

Os tutores têm que ser responsáveis pela ambivalência: conservar a pureza da alma desse ser que precisa aprender a sujar fraldas e fazê-la ver que o terno só vira fralda quando o candidato não faz jus à pureza daquela alminha sem pudor.

Quem assim o crê, engana-se.

O beijo não é ato inocente. Com o santinho colado no lado esquerdo do peito, nem mesmo sendo beijo no próprio filho. No fundo, ao beijar o filho, o candidato está no colo do pai.

Amplie-se a leitura: o candidato ideal nunca é perfeito.

A confusão ocorre porque o leitor da foto quer se identificar com o pai que beija o filho. Como candidato, faz campanha. Usa as imagens. Vende-as. E esta exploração é política.

Para que a foto não seja revelada por inteiro, o candidato que posa de pai precisa do beijo em público. Com a audácia de sentir que a foto tem que ser lida pelo seu viés, já no papel de eleitor, ressalte-se: o voto vire beijo que eleja. E todo eleitor tem ansiedades.

O eleitor identifica: aquele que há de lutar pelo bem-estar da criança de colo há de tomar para si a luta pelo bem-estar de qualquer criança de colo que nem seja o seu próprio filho.

O candidato perfeito, entretanto, não precisa ser chancelado como quem luta para garantir colo ao seu filho e aos filhos de quem o eleja.

Já ao eleitor cabe reconhecer sua responsabilidade pelo espaço no colo de quem se dispõe a embalá-lo. O jeito, então, é sorrir quando o seu bebê é fotografado por um desconhecido.

Este eleitor, no fundo, é quem sente que precisa votar, ainda que a sua infância não lhe dê a figura do pai a beijá-lo feito o candidato a lhe beijar pela criança que é.

Quem pede colo, é consciente.

Já no colo, é direito do eleitor beijar o candidato.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de janeiro de 2026.

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