Com
as eleições em outubro, janeiro chegou. Eu mal esperava mais quente. Já que os
céus nada têm que ver com a prosa de cada dia, e sabendo que o bafo da entranha de um
pastel mais esquentará o meu rosto: mordo-o com gosto.
Na
feira de domingo, a comoção não tem mistério: fazendo a sua política, tem
candidato beijando toda criança que apareça.
Engana-se
quem acredita que o candidato perfeito é aquele que tira foto beijando criança
de colo porque ela representa a inocência.
Sem
se sujeitar às condições socioeconômicas, o beijo vira ideia.
Os
tutores têm que ser responsáveis pela ambivalência: conservar a pureza da alma desse
ser que precisa aprender a sujar fraldas e fazê-la ver que o terno só vira
fralda quando o candidato não faz jus à pureza daquela alminha sem pudor.
Quem
assim o crê, engana-se.
O
beijo não é ato inocente. Com o santinho colado no lado esquerdo do peito, nem mesmo
sendo beijo no próprio filho. No fundo, ao beijar o filho, o candidato está no
colo do pai.
Amplie-se
a leitura: o candidato ideal nunca é perfeito.
A
confusão ocorre porque o leitor da foto quer se identificar com o pai que beija
o filho. Como candidato, faz campanha. Usa as imagens. Vende-as. E esta
exploração é política.
Para
que a foto não seja revelada por inteiro, o candidato que posa de pai precisa do
beijo em público. Com a audácia de sentir que a foto tem que ser lida pelo seu viés,
já no papel de eleitor, ressalte-se: o voto vire beijo que eleja. E todo
eleitor tem ansiedades.
O
eleitor identifica: aquele que há de lutar pelo bem-estar da criança de colo há
de tomar para si a luta pelo bem-estar de qualquer criança de colo que nem seja
o seu próprio filho.
O
candidato perfeito, entretanto, não precisa ser chancelado como quem luta para
garantir colo ao seu filho e aos filhos de quem o eleja.
Já
ao eleitor cabe reconhecer sua responsabilidade pelo espaço no colo de quem se
dispõe a embalá-lo. O jeito, então, é sorrir quando o seu bebê é fotografado
por um desconhecido.
Este
eleitor, no fundo, é quem sente que precisa votar, ainda que a sua infância não
lhe dê a figura do pai a beijá-lo feito o candidato a lhe beijar pela criança que
é.
Quem
pede colo, é consciente.
Já
no colo, é direito do eleitor beijar o candidato.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 11 de janeiro de 2026.
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