domingo, 18 de janeiro de 2026

Até babando

 

Até babando

 

O domingo amanhece com nuvens tímidas a salpicar o horizonte. Na veia aberta ao sentimental, a combinação do azul com a leveza do rio, é razoável admitir que o mundo segue encantador.

Nem só de encantamentos vive uma pessoa sensível.

Em certas ocasiões, não é natural querer matar um desejo.

Pense: lamber sorvete ao assobiar La Vie En Rose?

Não dá.

Sem as finuras de meio-tom, não há abafa que silencie nos olhos o grito de quem já está à beira da desventura.

De tanto se achar em uma pintura de Munch, a restrição se impõe: ou vai preparar o almoço ou vai a um restaurante.

Faz bem encontrar gente. Trocar umas palavras sobre o tempo.

É obvio: xingar o governo tem que entrar na pauta.

A este brasileiro não falta humor. Como bom imaculado que ele é, os seus erros não passam de enganos.

Em sã consciência, ninguém se vê como digno disso que o mundo vive impondo: dor, sofrimento, um futuro de indefinições.

O presente já não é uma página que, nos dias de internet discada, rodava aquele: CARREGANDO.

Ficasse nisso, a manhã travaria. Contudo, as maritacas gracejam, os amigos papeiam.

Para ouvir o disco Até Sangrar, dispenso o almoço.

No banco de sempre, vejo os fiéis que terão macarronada e frango assado. Sim, eles oraram para tomar só dois copos de refri.

Áurea Martins canta: “o mundo inteiro fez-se tão tristonho”.

Já os mendigos... Não temo que carreguem o meu telefone.

E aí: “fica às vezes tão sisudo, porque não compreende tudo”.

Sem pedir autorização, o ar circula da cabeça aos pés.

A mulher amada “ficou para impedir que a loucura fizesse de mim um molambo qualquer”.

Ciclistas vêm, circundam a praça e vão por onde vieram.

E você “há de ver cheio de horror que no fundo do seu peito existe um sonho desfeito”, que a gente “vive uma vida de louca, de sorriso na boca e uma lágrima no olhar”.

Tudo está ligado. A sua mente não solta do nada:

Tire o pijama!

Como não tem nenhum, comprará um.

Ele será 100% algodão. Terá estampa floral que seja calmante. O tamanho precisa levar em consideração o físico desta criatura.

“Acho engraçado quando um certo alguém se aproxima de mim”, a Áurea está falando comigo?

Ninguém está vindo...

Só a minha cara baterá no assento do banco.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de janeiro de 2026.

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