Cumplicidade
Para se entender com os simples do mundo,
é preciso aprender a improvisar. O senso dirá para segurar-se do riso, mas uma
besteirinha espontaneamente amável pede para rir junto.
Se me permite glosá-lo, Montaigne:
filosofar é aprender a rir.
Quando a mão que afaga é a que belisca...
Meu bom filósofo, tudo bem. Não se faça de gracioso... Beba a garapa. Coma o
pastel. Se for somente uma gentileza, pague a conta. Ora, a feira é livre.
Vá embora. Volte aos seus afazeres.
Quando estiver disposto, mesmo que nem
esteja preparado, retome a crônica. Um dia, Seu Rodrigues, você não se deixou
valsar ao sabor de arengas e milongas?
Hoje não. Baile ao sabor da cachola.
Deixe estar. Ainda que as formigas
continuem na cadeira, sente-se e escreva o que o texto pede. Ouça as
entrelinhas do texto. E antes de apagar, alterar ou confirmar a palavra
seguinte, pense.
Vá em frente. Permaneça ao computador.
Escute o que a razão diz, mesmo que a boca murmure. Aproxime-se da tela. Passe
os dedos. O calorzinho é bom, ele indica que tudo funciona como deveria.
Sem a iminência de um desastre, respire.
Você se lembra da Páscoa de 77... Que
jocosidade é essa?
O padre escalou-o para badalar os sinos.
Você deitou cedo, dormiu o sono dos esperançosos e, às seis horas em ponto,
achou divertido a confirmação daquela lei de Newton: ao puxar a corda pra
baixo, a força contrária o puxava para cima.
E o padre e os paroquianos ouviram dos
sinos que a Casa de Deus estava aberta. Viessem. A missa era comum e não era.
Nesse dia, o menino, em saia verde e na
camisa de gola e punhos rendados, cuja beleza fora crochetada pelas mãos da sua
mãe... Esse coroinha, cujo espírito moldava-se a cada evento em que se havia de
intuir que corpo e alma são um...
Seu Rodrigues de agora, vamos lá... Dê
razão a si quando afasta melancolias nostálgicas, pois aquele dia 10 de abril
de 1977 escapa à areia do tempo... Ele é seu.
O coração bate, o sangue circula ꟷ
recordar é filosofar com veias e artérias, em eterno fluxo.
A mão que digita é a mão que segura o
copo de café.
Beberique. Sê inteiro enquanto beberica.
A tevê do quarto continua desligada. Ao
se esquecer da insônia que o levou a encarar o fantasma na tela às três da
matina, recorde-se: não tinha nenhum pernilongo.
Vá. Encha o copo novamente.
Concentre-se. Vem aí o momento de
decidir-se pelo ponto final.
A crônica terá permitido que seja lida
como mais um registro do que é transitório? Terá o cronista se permitido o
tolerável num texto de sua lavra?
Deite a crônica para que descanse. Deixe
o leitor se aproximar.
Respire. Relaxe. Revigore-se.
É domingo. Os sinos batem. Vem aí a
missa das dez.
E o cronista sorri. Ele respira. Seu
Rodrigues, está relaxado.
Diante do computador, sozinho frente ao
texto: o conhecimento diz: o que não é espelho é reflexo.
O café, todavia, revigora?
Todavia, ele é revigorante.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 04 de janeiro de 2026.
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