domingo, 4 de janeiro de 2026

Cumplicidade

 

Cumplicidade

 

Para se entender com os simples do mundo, é preciso aprender a improvisar. O senso dirá para segurar-se do riso, mas uma besteirinha espontaneamente amável pede para rir junto.

Se me permite glosá-lo, Montaigne: filosofar é aprender a rir.

Quando a mão que afaga é a que belisca... Meu bom filósofo, tudo bem. Não se faça de gracioso... Beba a garapa. Coma o pastel. Se for somente uma gentileza, pague a conta. Ora, a feira é livre.

Vá embora. Volte aos seus afazeres.

Quando estiver disposto, mesmo que nem esteja preparado, retome a crônica. Um dia, Seu Rodrigues, você não se deixou valsar ao sabor de arengas e milongas?

Hoje não. Baile ao sabor da cachola.

Deixe estar. Ainda que as formigas continuem na cadeira, sente-se e escreva o que o texto pede. Ouça as entrelinhas do texto. E antes de apagar, alterar ou confirmar a palavra seguinte, pense.

Vá em frente. Permaneça ao computador. Escute o que a razão diz, mesmo que a boca murmure. Aproxime-se da tela. Passe os dedos. O calorzinho é bom, ele indica que tudo funciona como deveria.

Sem a iminência de um desastre, respire.

Você se lembra da Páscoa de 77... Que jocosidade é essa?

O padre escalou-o para badalar os sinos. Você deitou cedo, dormiu o sono dos esperançosos e, às seis horas em ponto, achou divertido a confirmação daquela lei de Newton: ao puxar a corda pra baixo, a força contrária o puxava para cima.

E o padre e os paroquianos ouviram dos sinos que a Casa de Deus estava aberta. Viessem. A missa era comum e não era.

Nesse dia, o menino, em saia verde e na camisa de gola e punhos rendados, cuja beleza fora crochetada pelas mãos da sua mãe... Esse coroinha, cujo espírito moldava-se a cada evento em que se havia de intuir que corpo e alma são um...

Seu Rodrigues de agora, vamos lá... Dê razão a si quando afasta melancolias nostálgicas, pois aquele dia 10 de abril de 1977 escapa à areia do tempo... Ele é seu.

O coração bate, o sangue circula ꟷ recordar é filosofar com veias e artérias, em eterno fluxo.

A mão que digita é a mão que segura o copo de café.

Beberique. Sê inteiro enquanto beberica.

A tevê do quarto continua desligada. Ao se esquecer da insônia que o levou a encarar o fantasma na tela às três da matina, recorde-se: não tinha nenhum pernilongo.

Vá. Encha o copo novamente.

Concentre-se. Vem aí o momento de decidir-se pelo ponto final.

A crônica terá permitido que seja lida como mais um registro do que é transitório? Terá o cronista se permitido o tolerável num texto de sua lavra?

Deite a crônica para que descanse. Deixe o leitor se aproximar.

Respire. Relaxe. Revigore-se.

É domingo. Os sinos batem. Vem aí a missa das dez.

E o cronista sorri. Ele respira. Seu Rodrigues, está relaxado.

Diante do computador, sozinho frente ao texto: o conhecimento diz: o que não é espelho é reflexo.

O café, todavia, revigora?

Todavia, ele é revigorante.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de janeiro de 2026.


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