quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Renascimento

 

Renascimento

 

Se ainda desconfia, dou prova de que existo. Como dragão, quero dizer. É que estou cuspindo fogo. E não é de hoje. Há uma semana.

Tirar o mundo pelo mal, isso é comigo. Com pitadas de ceticismo e temperadinhas de ironia, faço por mim o que desejo que me façam.

Sou ético. E transparente.

Não uso o riso para debochar, uso-o no ataque. Não defendo. Os meus ataques que me protejam! Não sou patético, faço uso moderado da obscuridade. Flerto com o controle das pragas ― toco fogo no mato se a pilha de gravetos e folhas lambe a bunda da casa da árvore.

Casa da árvore, por sinal, que está a cinco metros do chão.

Se assim não fosse, eu seria outro exemplar dessa espécie rasteira, que medra satisfeito ali onde a brasa está extinta.

Ressentido dessa extinção, o fogo, em vez de fagulhas, dá patadas, passa o pé. Péssimo exemplo, faz cama de gato. E o inocente útil, tão ingênuo, vira bucha de canhão.

Para melhor atingir o meu alvo, que é falar sem agravar a situação, disparo silêncios de quando em quando.

Mais apurado, calo a matraca para só tagarelar quando as minhas palavras não chamusquem. Enfim, não flambo o bocó que me derruba quando estou calculando o quanto preciso medir a mecha para que eu não detone tudo ao meu redor.

Ser ético, portanto, é avisar: cuidado com o dragão, ele cospe fogo como quem serve Crepe Suzette. É delícia que sai caro.

Tudo isto posto: aos fatos!

Tudo acabou às 15h30 de um sábado, dia 20 de janeiro de 1996, lá em Minas Gerais, naquela cidade chamada Varginha.

Debaixo de chuva e ventania, três mulheres pararam subitamente. Ainda que chovesse e ventasse, elas perderam a pressa.

As mineiras viram o que viram porque tinham olhos para, mais bem, divisar o que a realidade queria que não percebessem o que era real, e não ilusão de alucinado que enxerga o que não quer pelo que não vê e acha graça onde não tem.

As três mineiras viram uma pessoa agachada.

Quando a pessoa agachada junto ao muro do terreno baldio virou-se, quem sabe para pedir um cigarrinho ou um isqueiro, os seus olhos avermelhados não tinham lágrima.

Que furdunço!

As três mineiras correram. Contaram que viram o diabo em pessoa. Que ele estava fazendo as suas necessidades como cão que faz o que faz sem atinar para o instituto que o ato tem...

Defecar em público é ato obsceno.

Houve na cidade um tal burburinho que o rastilho não apagou nem com os perdigotos da gente a fofocar o que a verdade pedia que fosse fofocada.

A verdade dita como a verdade que é: ninguém fofoca.

Já que o diabo em pessoa cagava no mato, as três mulheres viram o que a chuva e o vento não conseguiram camuflar, eis que o evento é ainda lembrado como o acontecimento que ele é.

Depois que toma conhecimento do fato, ninguém é mais o mesmo.

Todo mundo ganha alguma coisa.

Uma vez que não alcancei a fé que me daria vaga na astronave pra Kappa Ceti, admito: esta crônica não exorciza.


Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de janeiro de 2026.


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