Se ainda desconfia, dou prova de que
existo. Como dragão, quero dizer. É que estou cuspindo fogo. E não é de hoje.
Há uma semana.
Tirar o mundo pelo mal, isso é comigo.
Com pitadas de ceticismo e temperadinhas de ironia, faço por mim o que desejo
que me façam.
Sou ético. E transparente.
Não uso o riso para debochar, uso-o no ataque. Não defendo. Os meus ataques que me protejam! Não sou patético, faço uso moderado da obscuridade. Flerto com o controle das pragas ― toco fogo no mato se a pilha de gravetos e folhas lambe a bunda da casa da árvore.
Casa da árvore, por sinal, que está a
cinco metros do chão.
Se assim não fosse, eu seria outro
exemplar dessa espécie rasteira, que medra satisfeito ali onde a brasa está
extinta.
Ressentido dessa extinção, o fogo, em
vez de fagulhas, dá patadas, passa o pé. Péssimo exemplo, faz cama de gato. E o
inocente útil, tão ingênuo, vira bucha de canhão.
Para melhor atingir o meu alvo, que é
falar sem agravar a situação, disparo silêncios de quando em quando.
Mais apurado, calo a matraca para só
tagarelar quando as minhas palavras não chamusquem. Enfim, não flambo o bocó
que me derruba quando estou calculando o quanto preciso medir a mecha para que
eu não detone tudo ao meu redor.
Ser ético, portanto, é avisar: cuidado
com o dragão, ele cospe fogo como quem serve Crepe Suzette. É delícia que sai
caro.
Tudo isto posto: aos fatos!
Tudo acabou às 15h30 de um sábado, dia
20 de janeiro de 1996, lá em Minas Gerais, naquela cidade chamada Varginha.
Debaixo de chuva e ventania, três mulheres
pararam subitamente. Ainda que chovesse e ventasse, elas perderam a pressa.
As mineiras viram o que viram porque
tinham olhos para, mais bem, divisar o que a realidade queria que não
percebessem o que era real, e não ilusão de alucinado que enxerga o que não
quer pelo que não vê e acha graça onde não tem.
As três mineiras viram uma pessoa
agachada.
Quando a pessoa agachada junto ao muro
do terreno baldio virou-se, quem sabe para pedir um cigarrinho ou um isqueiro,
os seus olhos avermelhados não tinham lágrima.
Que furdunço!
As três mineiras correram. Contaram que
viram o diabo em pessoa. Que ele estava fazendo as suas necessidades como cão
que faz o que faz sem atinar para o instituto que o ato tem...
Defecar em público é ato obsceno.
Houve na cidade um tal burburinho que o
rastilho não apagou nem com os perdigotos da gente a fofocar o que a verdade
pedia que fosse fofocada.
A verdade dita como a verdade que é:
ninguém fofoca.
Já que o diabo em pessoa cagava no mato,
as três mulheres viram o que a chuva e o vento não conseguiram camuflar, eis
que o evento é ainda lembrado como o acontecimento que ele é.
Depois que toma conhecimento do fato, ninguém
é mais o mesmo.
Todo mundo ganha alguma coisa.
Uma vez que não alcancei a fé que me daria
vaga na astronave pra Kappa Ceti, admito: esta crônica não exorciza.
Ibiúna, dia 08 de janeiro de 2026.
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