quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

O balde

 

O balde

 

Tenho coisas para resolver. Como todo mundo, aliás. Mas sábado e domingo, tiro-os para pescar, me divertir, ficar na rede só espiando a rua. Como a maior parte da gente, também trato de não fazer nada que desabone.

Falar dos desastres da vida requer o cuidado: chover no molhado é carimbar-se um chato.

Neste final de semana, entretanto, a paz entre as pessoas de boa vontade fugiu. Por onde a graciosa escapuliu, eu vi.

Pela fresta da veneziana, enquanto consegui me segurar, eu fiquei observando o que acontecia.

Fui o chato que não pode perder-se dos detalhes.

Só que as pessoas precisam de vizinhos, tanto quanto este aqui. E lá fui eu. No entrevero alheio, meti a colher.

Quando me viram na cozinha deles, não foram frontalmente hostis nem me deixaram longe do fogão.

Tenho polegares opositores, afinal.

Com a churrasqueira pra limpar, o Epaminondas pediu minha ajuda: deu-me uma latinha. E fomos tirar da grelha o sebo, justo do churrasco a que não fui convidado.

Como vizinho que fará aniversário no mês que vem, Magali e o meu amigo já são os primeiros a encabeçar a lista de espera. Para mim, é ululante: fazer festa sai caro.

Encarecidamente, Epaminondas queria que eu opinasse.

Ontem, ele acordou aflito. Como a sua bexiga não é mais um relógio suíço, foi desesperador não ter o banheiro à disposição.

Magali tem destes hábitos: tomar banho ouvindo música em volume alto, cantar junto e não se ouvir. E chaveia a porta.

Magali, minha amiga, você não devia trancá-lo fora.

Ele choraminga. Não age como um companheiro sensato.

Agora estou numa sinuca de bico.

Para que minha opinião sincera não saia pela boca, seu esposo me oferece outra latinha. Embriago-me. Feito bêbado que tem a desculpa de não ser senhor da própria língua, fecho o bico.

E o que eu faço?

Para que pule o muro, sorrio. Na lavanderia de casa, urino no balde. Falo grosso, eu quero que ele faça o mesmo.

Urinamos.

Homem que pega rápido o sentido da coisa, Epaminondas não pula de volta. Ele vai até a frente da sua casa, toca a campainha.

Magali não acha engraçada a brincadeira.

Ela e ele se encaram.

Eu coço a cabeça de um vira-lata.

Casal que estraga até macarrão instantâneo, quem acha a solução é o Epaminondas.

Não era para ter graça, era para chamá-la ao ponto: se ele não pode usar o banheiro quando precisa, vão ter que comprar um balde só para ele urinar.

O vira-lata foi-se embora. Eu sorri.

Qual é o problema?

Magali olhou para mim.


Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 15 de janeiro de 2026.

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