Tenho coisas para resolver. Como todo
mundo, aliás. Mas sábado e domingo, tiro-os para pescar, me divertir, ficar na
rede só espiando a rua. Como a maior parte da gente, também trato de não fazer
nada que desabone.
Falar dos desastres da vida requer o
cuidado: chover no molhado é carimbar-se um chato.
Neste final de semana, entretanto, a paz
entre as pessoas de boa vontade fugiu. Por onde a graciosa escapuliu, eu vi.
Pela fresta da veneziana, enquanto
consegui me segurar, eu fiquei observando o que acontecia.
Fui o chato que não pode perder-se dos
detalhes.
Só que as pessoas precisam de vizinhos,
tanto quanto este aqui. E lá fui eu. No entrevero alheio, meti a colher.
Quando me viram na cozinha deles, não
foram frontalmente hostis nem me deixaram longe do fogão.
Tenho polegares opositores, afinal.
Com a churrasqueira pra limpar, o
Epaminondas pediu minha ajuda: deu-me uma latinha. E fomos tirar da grelha o
sebo, justo do churrasco a que não fui convidado.
Como vizinho que fará aniversário no mês
que vem, Magali e o meu amigo já são os primeiros a encabeçar a lista de
espera. Para mim, é ululante: fazer festa sai caro.
Encarecidamente, Epaminondas queria que
eu opinasse.
Ontem, ele acordou aflito. Como a sua
bexiga não é mais um relógio suíço, foi desesperador não ter o banheiro à
disposição.
Magali tem destes hábitos: tomar banho
ouvindo música em volume alto, cantar junto e não se ouvir. E chaveia a porta.
Magali, minha amiga, você não devia
trancá-lo fora.
Ele choraminga. Não age como um
companheiro sensato.
Agora estou numa sinuca de bico.
Para que minha opinião sincera não saia pela
boca, seu esposo me oferece outra latinha. Embriago-me. Feito bêbado que tem a
desculpa de não ser senhor da própria língua, fecho o bico.
E o que eu faço?
Para que pule o muro, sorrio. Na
lavanderia de casa, urino no balde. Falo grosso, eu quero que ele faça o mesmo.
Urinamos.
Homem que pega rápido o sentido da
coisa, Epaminondas não pula de volta. Ele vai até a frente da sua casa, toca a
campainha.
Magali não acha engraçada a brincadeira.
Ela e ele se encaram.
Eu coço a cabeça de um vira-lata.
Casal que estraga até macarrão
instantâneo, quem acha a solução é o Epaminondas.
Não era para ter graça, era para
chamá-la ao ponto: se ele não pode usar o banheiro quando precisa, vão ter que
comprar um balde só para ele urinar.
O vira-lata foi-se embora. Eu sorri.
Qual é o problema?
Magali olhou para mim.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna, dia 15 de janeiro de 2026.
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