Tchau, Moça Bonita ― disse a balconista
ao sessentão de cabeleira grisalha arranjada em rabo de cavalo, jardineira
jeans respingada de tinta, óculos redondinhos de aro de tartaruga, sandália
franciscana de couro e uma afabilidade de corpo inteiro.
A moça também soube ser afável.
Havia sugerido objetos pelo que captou do
que o senhor lhe dissera; tendo-o convencido com algo que a ele pareceu ter o
preço satisfatório; embrulhado a blusinha de crochê não que fosse que nem uma tiara
de diamantes numa debutante; entregue-lhe o mimo com os seus olhinhos de quem
amaria recebê-lo de alguém feito o Moça Bonita.
Quando, na mocidade, ele passou a chamar
toda e qualquer mulher de moça bonita, aquilo não pegou bem.
Irritavam-se as bonitas com o agrado
desse cabeludo que só podia ter fumado um fino a mais. As maduras riam-se desse
pobre-diabo que devia ter-se desencaminhado no regresso de Águas Claras. Por
serem bem-casadas damas, às senhoras a investida era coisa divertida, uma
ingenuidade de galante.
A namorados, noivos e maridos menos
tolerantes, aquilo não tinha nada de gracejo, era desrespeito, afronta, um
troço inaceitável.
Apesar de muitas rusgas, alguns
entreveros e raros sopapos terem acontecido, ele persistiu, uma vez que o seu
“moça bonita” era dito por educação, como sinal de carinho, jamais por
desfeita.
Depois de tantos anos, já não riem, já
não puxam briga, a ninguém ocorre de tratá-lo de modo diferente, ele é o Moça
Bonita, uma pessoa de gestos suaves, é cidadão que vaga pelas ruas com mãos às
costas, é gente que ainda põe gosto em cumprimentar quem lhe cruza a frente, mas,
ai caramba!, que velhinho tão amável ele é.
E o crochê da blusinha faz Miranda sorrir.
― Moça Bonita, que peça caprichada! O
ponto é de gente de mãos firmes, olho bom e verdadeiro carinho pelo que faz.
Miranda.
Quando a conheceu, Moça Bonita
estranhou-lhe o nome.
Esbarraram-se entre as gôndolas do
supermercado.
Ele se desculpou pelo inconveniente da
distração, pois se agachara para ler o preço das pastilhas de repelente
elétrico.
― Pernilongo é bicho insuportável, Moço
Simpático.
O moço simpático foi o mesmo de sempre:
não reclamou do preço, não discordou da gentileza recebida e não deixou de
sorrir ao desejar que o dia fosse bom àquela moça bonita, que era de uma
boniteza tão simpática.
Nesse mesmo dia, viram-se outra vez.
― Boa noite, Moço Simpático.
― Gosta de pizza, moça bonita?
― A moça bonita é Miranda, viu?
― Miranda! Que nem o zagueiro do São
Paulo?
― Moço Simpático, não é sobrenome. O meu
pai gostava de teatro, sobretudo do Shakespeare. Miranda vem da peça A
Tempestade.
― Moça Bonita que se chama Miranda por conta
do Shakespeare, eu nunca vi peça que passa em teatro.
Neste primeiro de janeiro de muita
alegria, e pelo nono ano seguido, o Moça Bonita está na festa de aniversário da
amiga Miranda.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 02 de janeiro de 2025.