Contas
soltas
Mesmo neste meu dia a dia sem desgraças
apocalípticas, sou lento. Quando ocorre algo súbito, levo um tempo para
perceber o quanto isso me afeta. Até quando afetado, digiro lentamente o fato.
Amargamente magoa-me esta digestão bovina. E não sou tão somente pachorrento,
sou frágil. Vulnerável à acidez que destilo em mim, perco o tempo que preciso para
entender o que se passa comigo. Nauseado e vagaroso, procuro conter-me, não quero
afetar os outros com o que nem sei bem o que sinto. Pelo que sinto, não
compreendo como eu próprio me afeto. Retraio-me. Embora isso incentive que me
chancelem procrastinador, tergiversador ou sei lá o que mais, mereço ser
chamado pelo que seja. Embora não concorde que zoem, tirem sarro, gozem de mim,
rio, pois não sou banana.
Se é para descascar o abacaxi, eu me descasco.
Acordei inspirado. Tanto me alegrei que
vou contar a ideia que tive sem medo de que a achem uma coisa boba. Quero
opiniões. Embora avacalhem, ainda assim vou compartilhá-la. Mesmo que não seja
algo novo, vou avaliar as contribuições, pesá-las, atribuir-lhes pesos.
Como as pessoas têm visões diferentes
sobre qualquer coisa, serei o árbitro, afinal fui eu que tive a ideia. Por meu
livre e soberano desejo, tomarei para mim a função de juiz. Quando houver de
bater o martelo, baterei. Quanto a perseverar ou a desistir, cabe a mim dizer
que sim e que não, afinal eu fio que a cabeça é minha.
A primeira casca... Retiro-a e jogo-a no
caminho. Se nela eu patinar, será descartável por verde, só me conterei um
instante, a aprumar-me. Quando ao topá-la eu cair às cambalhotas, vou mastigá-la
e saboreá-la pelo sumo que tenha a ofertar-me, como fruto apetecível.
― Viver é aprender a morrer.
― Sim! Segundo Montaigne, viver é
aprender a morrer.
Depois de hoje, 03/12/2024, não farei
contas de cabeça, buscarei na rede os números exatos.
Sem ter o que ocultar, emendo que, desde
o 01/11/1963, houve 16 anos bissextos, vivi 61 anos, um mês e três dias. Ou
seja, não tenho a menor ideia de quantas vezes respirei nos meus 22.314 dias de
vida. Ou seja, sei que, somando choro e riso, não guardei a maior parte dos
32.132.160 minutos computados. Ou seja, a cachola apagou muito lixo de um bilhão,
novecentos e vinte e sete milhões e novecentos e vinte e nove mil e seiscentos
segundos.
Em outras palavras, percebo o que minha
cachola sente, pressente e, bem pouco, antevê: ou o mundo vaga no cosmo como um
submarino boia no espelho do mar ou alambrados cercam quadras, asfalto leva a
haras e, no churrasco só de picanha, os convivas oram de boca cheia.
Quando sobra desespero, sigo a nadar, nadar
e nadar.
― Viver é aprender a nadar.
― Não! Viver é lutar para não se afogar.
E não inventarei de enfiar a fuça na
água do vaso sanitário. Não me testarei. Prefiro saber o quanto eu aguento; só
não pretendo aprender a respirar na luz do rio.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 03 de dezembro de 2024.