terça-feira, 3 de setembro de 2024

O candidato perfeito

 

O candidato perfeito

 

Engana-se quem acredita que o candidato perfeito é aquele que tira foto beijando criança de colo porque ela representa a inocência.

A ideia de que criança de colo é a inocência de quem não se sujeita a condicionamentos sociais e econômicos, como se os tutores legais fossem responsáveis pela ambivalência de conservar a pureza da alma desse ser que precisa aprender a sujar fraldas e não o colo de quem o carrega, principalmente quando estão fotografando.

Quem assim o crê, engana-se, uma vez que o beijo não implica em compromisso com a transformação da realidade, ou seja, beijar criança de colo não ajuda na redução das desigualdades socioeconômicas que submetem pais, avós e candidatos.

O beijo do candidato na criança de colo não será visto como um ato inocente, mesmo que a foto não registre um ato inocente, mas seja um flagrante do ato amoroso do candidato beijando o próprio filho de colo, apesar do santinho colado no lado esquerdo do peito.

A foto não é pai beijando filho; a imagem mostra que um candidato que beija uma criança de colo é um candidato beijando uma criança de colo, ainda que seja o candidato que beija o próprio filho carregado em seu colo de pai.

É preciso ampliar a leitura dessa foto de candidato beijando criança de colo: que o candidato é pai, a criança de colo é seu filho e a imagem precisa ser validada como registro autêntico do candidato perfeito.

Não se engane, candidato ideal não é candidato perfeito.

Esta confusão ocorre porque o leitor da foto quer se identificar com o pai que beija o filho, ainda que seja candidato e esteja em campanha, quando imagens precisam ser registradas e que tais registros revelem a verdade que há de ser compreendida na sua inteireza, de candidato que posa de pai porque é pai.

Por verdadeira, a imagem do candidato que é pai beijando a criança de colo que é seu filho pede ampliada a leitura, que o leitor da foto nem sinta que a foto é lida pelo viés do eleitor.

Todo eleitor tem ansiedades inegociáveis e precisa delas para que, ao notá-las defendidas em quem lhe pede o voto, produza a necessária identificação.

O eleitor identifica-se com um candidato que beija a criança de colo desde que seja imaginado como pai ideal, aquele que há de lutar pelo bem-estar da criança de colo que é mesmo o seu filho, pois isso há de acarretar a luta pelo bem-estar de toda criança de colo que nem seja o seu próprio filho.

O candidato perfeito, entretanto, não precisa ser chancelado como quem luta para garantir colo a seu filho e aos filhos de quem o eleja, já que cabe ao eleitor reconhecer a sua responsabilidade pelo espaço no colo de quem se dispõe a embalá-lo.

Este eleitor, no fundo, é quem sente que precisa votar, ainda que a sua infância ainda não lhe dê a figura do pai a beijá-lo feito o candidato a lhe beijar pela criança que é.

Vota consciente quem pede colo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 03 de setembro de 2024.

domingo, 1 de setembro de 2024

Agora vai

 

Agora vai

 

― Tudo na Santa Paz, irmão?

― Deus me perdoe, que é lastimável a toada de sempre.

― Com tanta gente querendo ter uma família boa como a sua, um emprego bom como o seu, você tem coragem de reclamar?

― É uma vida miserável, pois muito me entristece não ter realizado nenhum sonho que eu queria. Sabe Deus que eu não pedia muito, que meu maior desejo era conquistar uma condição melhor que a dos meus pais. Não queria palácio com carrão do ano na garagem, queria honrar o nome dos meus pais. Pensava em ter um destino melhor, mas a vida me derrotou naqueles meus sonhos.

― Mas os sonhos do jovem morrem com a maturidade, irmão. Com o dim-dim garantido em todo quinto dia útil, você não nasceu para que uma sirigaita safada te passe a perna da noite pro dia.

― Deus me perdoe, só que eu não creio ter nascido para tamanha felicidade que é comer mandiopã frio com tubaína quente na festinha de sobrinho sempre catarrento.

― Irmão, você ergueu esta casa, pagou pelos móveis que escolheu ter, põe arroz e ovo no prato da família. Caramba, será pedir muito que durma o sono dos justos por tudo que te faz um cara do bem?

― Deus me perdoe, que não sei o que anda me dando ultimamente, que ando dizendo palavras que não deveria dizer, que venho pensando o que não entendo que seja eu quem deveria estar pensando, que me pego acordado no meio da noite como se fosse uma outra pessoa que me acordasse pelos pensamentos que ando tendo de repente, sem ter razão para ter essas ideias, que isso parece coisa errada, pensamento de gente que não presta, que me envergonha de me fazer pensar isso que não queria ter pensado, mas eu sinto como se fosse coisa minha o errado que não é meu, que o Coisa Ruim me faz ruim.

― Irmão, olha esta parede. Amanhã eu venho, amanhã nós vamos pintar esta parede, irmão.

― O quê!? Pintar parede liberta do Cujo que parece entranhado nas vísceras? Estará o Tinhoso possuindo também a sua pessoa? Virá me ajudar com esta parede que não precisa de ser pintada que eu ontem a pintei pra festinha que a minha casa te oferece?

― Zoca, não se deixe folgar pelo Capiroto. Virei pintar de azul, que foi a cor escolhida por nossa mãe quando confiou a ela que escolhesse o que ficaria mais bonito para a sua casa nova.

― Mas a parede é azul, Zequinha.

― É verde, meu amado irmão.

― Zaqueu, meu filho, disse o mesmo, que pintei de verde, mas dei outra demão, vejo que está azul.

― Zoca, sei que você diz que é azul porque enxerga azul, mas não direi verde para não desagradar você.

― Meu primogênito viu verde, mas dei uma terceira demão.

― Por obséquio, você disse a Zacarias que usou o azul da mesma lata comprada azul?

― A Zacarias e Zaqueu mostrei a lata que paguei à vista.

― Chame que o caçula venha dizer o que veja.

Zeremias entrou, cheirou a parede seca, passou o dedo, lambeu-o, e, sem um quê de zombeteiro, disse:

― Eis a verdade, pai, que o azul que tu pintaste só está verde.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de setembro de 2024.


quinta-feira, 29 de agosto de 2024

Belo exemplo

 

Belo exemplo

 

Logo cedo, eu cedo logo.

Pelo que alcanço sentir, ao sangrar a língua ao morder o pãozinho, terei um dia em que os esforços para não decepcionar as pessoas, mal começada a manhã, doerão em mim como essa língua mordida.

Fecho a cara? Abro um sorriso.

Pondo em evidência a vanidade de não me apresentar pusilânime, posto que quero ir trabalhar convicto da necessidade de comportar-me equilibrado, pressinto que faltarei à impassibilidade que me confirmaria o quanto sou essa alma racional.

Cruzo os dedos? Franze-me a testa.

Tão excitado pela parte exitosa de meus atos, como sujeito que mal se disfarça em aparentar a inteligência que o leve a retroceder de todo dissenso, projetarei, sereno e cônscio da minha serenidade, a imagem que será lida como o melhor dessa pessoa que eu sou.

Pigarreio? Pigarreio.

Sendo quem pensa quem sou, telefono, aviso que, por força de uma enxaqueca de fundo insondavelmente obscuro, quedarei na cama pelo dia todo, assim indisponível a e-mails, torpedos e áudios do zap.

Faço figa? Desligo.

Na cama comigo, Marx lambe meu rosto. Ele olha, noto até que me encara. Ainda bem que tenho um cão, porque preciso trocar sua água, pôr ração na tigelinha, fazê-lo checar o muro do quintal.

Faz sol, mas o ar está frio. O app aponta, faz oito graus.

O joão-de-barro do abacateiro cantou quando ainda estava escuro, que ele cantou sim, que eu gostei de ouvi-lo.

Os bem-te-vis vieram conversando, passaram, foram conversando; como gostei de tê-los escutado, já o dia amanhecido.

E não faço mais nada? Faço.

Lavo roupa. Penduro as meias, cuecas e camisetas. A bermuda do corpo, mesmo encardida de tê-la no batidão da semana, quero usá-la por mais um dia. Por mais este dia, vou me sujar um pouco mais.

Ajoelho-me na terra.

No quintal atrás de casa, uso uma espátula para cavar um buraco. Cavo, que ele não fique raso. Nele eu jogo duas sementes de girassol. Cavo outro, outro e mais um, cavo uma fieirinha de buracos que sejam fundo o bastante pro que penso conveniente às sementes.

Sei o que faço? Faço.

Cuidarei que elas germinem, cresçam, floresçam, atraiam abelhas, joaninhas, tragam ao quintal todo e qualquer inseto que precise do que girassóis têm a oferecer.

Se eu sei o que girassóis têm? São bonitos. Quero vê-los crescidos, adultos, e belos, belíssimos.

Todavia... Ô vida!

Será que vai chover no sábado? Diz a previsão que o domingo será chuvoso. Porque choverá, choverei. Virarei coruja, piarei ao arrepio de ter que encarar sozinho o que houver para ser feito em casa.

Abrirei a porta? Apanharei os jornais.

E serei informado do próximo jogo, da próxima esperança, da futura assombração, e terei medo da fatura a ser paga.

Haverão de lembrar-me da carestia, do desemprego, dos sem-teto, dos sem-terra, das queimadas, e terei medo da fuligem no limoeiro.

Marx dá a pata? Dou-lhe a outra face.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 29 de agosto de 2024.

terça-feira, 27 de agosto de 2024

Sebastian

 

Sebastian

 

O guri tosse até expelir a lasquinha da casca de pão que arranhava a garganta e, sem ânimo pra rejeitar o café açucarado que é estimulado a beber, abocanha o pedaço da torta de banana que a senhora diz ter assado tão logo foi agraciada que passaria a tarde acompanhada por este sobrinho tão querido.

Raros são os dias que a Tia Carlota não receba visitas. A todos que a procuram, sejam parentes, vizinhos ou ambiciosos à vereança, muito a envaidece recebê-los à mesa.

― Cachorro não come farelos, garoto, come ração.

Mauro César não engoliu aquela enganação, porque os cachorros da sua casa comem arroz, feijão e torresminho. Embora não cheguem a brigar, voam sobre as almôndegas que atira no ar quando o domingo tem também macarronada. Como não é o bobo para ser engambelado, ele não lhe negaria, Sebastian, uma nesguinha que fosse daquela torta tão saborosa, tão irresistível.

― Seu pestinha, pare já! Pare de dar torta pro bebê!

Bebê, só que não! No mínimo, aquele collie tem oito anos; ou seja, o cão faz parte da família desde que ele, Mauro César, nasceu.

― Mas, Tia Carlota, a minha mãe ensinou que faz o bem quem trata todo mundo igual. Se a torta da senhora é excelente, por que não daria um pedaço que vai mostrar o quanto eu também sou excelente? Acho que o certo é dar um pedaço, porque o meu priminho de quatro patas, titia, gosta tanto de banana quanto eu.

Sebastian, o collie de oito anos que gosta de torta de banana tanto quanto o Mauro César gosta de joguinho no celular, nem mastiga o que lhe seja jogado a dois palmos do focinho.

Ele abocanha no ar o que seja ― almôndega, bolinha de queijo ou o teco, arrancado à sorrelfa, da torta de banana.

― Tia Carlota, por que o Sebastian deixou de ser chamado de Felpo pra ser chamado de Sebastian?

― Vem comigo, Mauro Sérgio.

Sim, a tia do menino sempre troca César por Sérgio, pois seu irmão, pai do garoto, chama-se Mauro Sérgio.

Tia Carlota procura na estante e coloca na vitrola um disco antigo, daqueles pretos, redondos e com um furo no centro.

Sim, sim, a Tia Carlota mantém-se fiel às boas modernidades como rádio FM e toca-discos estéreo. E se não houver imprevistos, ela está a fim de comprar um tocador de CD, porque o laser faz a música soar cristalina, segundo diz dona Etelvina, a vizinha da frente.

A música é alegre. Ela tira a criança para dançar. Por óbvio, dançar é modo de dizer, que o pirralho prefere saracotear e bambolear-se feito marionete cujos cordames são manipulados por epilético em crise.

Mas o espetáculo mais chistoso que ocorre diante daquele fedelho sapeca, espoleta e serelepe é o Sebastian uivar e rodopiar enquanto é tocado o allegro do Concerto para dois violinos.

― Você entendeu, Mauro Sérgio, ou preciso dizer o porquê do bebê fazer jus ao nome que eu prezo?

Tenha dó, Tia Carlota! Só a senhora para achar que o pimpolho já tenha ouvido falar em J. S. Bach.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 27 de agosto de 2024.


domingo, 25 de agosto de 2024

Corpo a corpo

 

Corpo a corpo

 

Balançando na cadeira de palhinha, não me chateio com a cidade. Mais, alegra-me esta versão domingueira: pelo vento gelado, está mais esvaziada.

As pouquíssimas pessoas que passam não latem, não rosnam nem dão o bote nem mordem, distribuem santinhos e agitam bandeiras. Não me intimidam falando alto, também não as amedronto, olhamo-nos.

Vendo-me na varanda, pedem que eu desça ao portão; mesmo que atirem santinhos no quintal, sigo na mesma ― tanto democrata quanto bonachão, balançando.

Ocorre-me que creem na democracia porque votam e recebem pela distribuição dos santinhos e agitação das bandeiras. Aliás, os genuínos democratas irão votar em quem houver de cativá-los, seja pelo número fácil de decorar, seja pelo apreço a pão com mortadela, seja, ora essa, pelo crédito de que distribuirão pastel e garapa, na faixa.

Por óbvio, não os exprobro que comam a céu aberto, pois, embora não me assegurem uma merreca sequer, não disfarço o quão deleitoso é receber santinho enquanto como pastel e bebo garapa na feira.

Posto que concordo com o Luisinho, eu como e bebo:

― O que me fortalece é de matar!

Aí vem. Vejo que vem numa boa. A covardia não o seduz. Atravessa a rua sem olhar que algum carro esteja vindo. Não o preocupa que me sobressalte, que ele possa realmente vir a ser atropelado.

Está certo que o covarde sou eu ou os covardes sejam outros ― os que freiam abruptamente por não prestar atenção no que está à frente ou os que desaceleram porque temem o que veem à frente.

Estou bem certo de que não temo aqueles que freiam bruscamente tanto quanto aqueles que diminuem a velocidade, temo pelo Luisinho, temo por sua fragilidade, Luisinho, por sua mortalidade.

Até vê-lo vindo na direção da minha varanda, sou tomado pela ideia de que a cidade tem o seu ritmo, o seu fluxo, independentemente que eu tenha medo ou a coragem infle-me.

Jogo o jornal; vou abrir o portão.

Venha a mim, meu amigo, mesmo que o repreenda por sua tolice, sua empáfia ou pela minha covardia, que o temo fortalecido na tolice, na empáfia, na minha cordialidade de pessoa que se zanga, que eu até gargalho nervoso enquanto o Luisinho sorri.

Então, covardes são os outros, os que freiam e não o atropelam na faixa ou fora dela, porque eles conhecem as leis que temem infringir e sequer imaginam como poderiam viver se as leis fossem usadas para benefício próprio.

Luisinho não vem acendendo um cigarro no outro, vem sem chapéu e senta na cadeira ao lado da minha como se passar o polegar de um lado pro outro dos lábios desse no tique de Belmondo fajuto.

No corpo a corpo com a realidade deste domingo nublado, acosso-me que compreenda as pessoas dizendo as suas verdades, ainda que nem me aprovem por achar graça do que deixam de falar.

Gracejo que a rua de casa não é aquela rua do Godard, todavia:

― Senhorita Franchini, o que significa ‘repugnante’?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de agosto de 2024.

quinta-feira, 22 de agosto de 2024

A força do querer

 

A força do querer

 

Talvez você queira dizer algumas palavras. Se quer mesmo, espere o momento em que seja anunciado que o bolo será cortado. Levante-se de pronto, comece a falar antes que passem à sala onde o bolo será cortado. Demonstre-se impaciente, mas sem a precipitação que o faça ser visto como alguém alucinado. Ao encher o copo e erguê-lo à vista de todos, principalmente neste instante de pedir o brinde, esteja seguro do que faz, essencialmente do que pensa que está fazendo. Quem não quer ser tomado por oportunista, brinda como quem corta o bolo.

Não relembre o dia em que lhe chutou a canela porque errou a bola, vá direto ao ponto que tanto o emociona. Embora esteja comovido que a lembrança tenha ocorrido de forma espontânea, abafe-a, porque sua expulsão era uma consequência lógica. O professor tinha que arbitrar a partida aplicando as regras. Apegue-se tão somente à verdade, que a torção do joelho e a subsequente operação do menisco teriam outro momento. Capriche na brevidade, não cutuque feridas que irão tornar amargo o brinde.

Aguarde que os copos sejam enchidos para que haja ao menos um gole ou a saudação resultará falsa, uma ação desabonadora a quem a propõe. Não se deixe atropelar pelos pensamentos, segure alto o copo até que todos também o façam.

Você sabe que as palavras são difíceis de dominar, que a enxurrada passa selvagem, furiosa, levando pedras e gravetos. E teme que seus tornozelos sejam atingidos por cacos de vidro, portanto feridos.

Quem menos há de querer ferir é quem toma a iniciativa de brindar, pois você quer tão somente brindar antes que o bolo seja cortado.

Se tivesse saído de casa com o discurso pronto, o brinde soaria tão sincero quanto os tapinhas nas costas em quem foi expulso por justa causa, outro ardoroso perna de pau que idolatra um craque.

Certo mesmo é que você acredita que, tendo pensado e pensado o discurso, tendo posto e retirado essa palavra que soa bem mas põe a perder o ritmo, tendo treinado os gestos, tendo falado e gesticulado na frente do espelho, você acredita que, embora siga sendo um perna de pau, poderá dar a impressão de atuar feito craque.

O gol de placa, a finta certeira, o lençol elegante, a enfiada precisa, a cabeçada no ângulo, o chute indefensável, a corrida pro abraço, em tudo seja honesto. Embora ensaiado, pense tão somente em afagar os melhores sentimentos de quem brindará consigo.

Observe as pessoas que terá que cativar. Elas também conhecem quem merece umas palavrinhas, então, não hesite nem se acanhe, fale tal qual o bom político.

Relate o dia em que se conheceram. Destaque um detalhe ou outro da circunstância em que se encontraram. Com empolgação exagerada ao circunscrevê-los quando houve a apresentação, aí, brinde!

Feito o brinde, e desejoso de refri gelado: mesmo que o melhor que lhe reste seja comer bolo, é bom comer o bolo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de agosto de 2024.

terça-feira, 20 de agosto de 2024

Cantiga do bom rapaz

 

Cantiga do bom rapaz

 

Se a brisa da nostalgia não estiver brincando comigo, naqueles dias de distanciamento obrigatório por conta da Covid-19, durante algumas semanas, de maio a agosto de 2020, uma mulher decidiu-se por cantar na sacada de algum apartamento na rua onde eu morava.

Não me equivoco que ela cantasse na sacada de um apê, porque eu vivia num logradouro predominantemente de prédios. Sem muitas casas ou sobrados, era uma rua de edifícios altos, sendo que os mais baixos subiam a sete andares, fora o térreo da entrada e o subsolo da garagem.

A memória está amolada, que o seu fio corta as inferências ilógicas, portanto deduzo que a mulher não queria ficar inteirada dos números da pandemia, que ela vinha cantar depois da janta, tão logo acabava a segunda novela da noite, às oito e meia.

Dando a correta ilação, mais saudável cantar do que se afligir com os escores diários que o telejornal era obrigado a informar, divulgando quantos infectados, quantos óbitos, quantos curados.

Não bastassem as aflições pela doença ser altamente contagiosa e ser fatal porque, à época, não havia vacina, a obrigação de alardearem os números, verdadeiros e alarmantes, dia após dia impunha-se como serviço de conscientização, sanitária e cívica.

Não bastava estar ciente do quadro escandaloso da contaminação, era preciso estar consciente de que os fundamentos estapafúrdios dos negacionistas não eram tão somente pseudocientíficos, manifestavam-se como ações criminosas.

Haja paciência? Justiça seja feita!

Quatro anos depois, os atos criminosos ainda seguem transitando, à espera de serem pronunciados pelo que são, atos fundamentalmente criminosos.

Apesar disso, por poder rememorá-la, à cantora não guardo mágoa, nojo ou raiva, alegro-me ao recordá-la, que ela tinha repertório eclético, que a ordem dada às canções era aleatória.

A mim que apenas cabia ouvi-la, preponderava o acaso.

Embora se apresentasse ao sabor dessas caraminholas de pessoa submetida a estresse e angústia, ela optava por cantar. E todos os dias ela cantava, mesmo aos domingos, mesmo que fizesse frio, chovesse ou que o calor noturno fosse infernal.

“E a seda azul do papel que envolve a maçã”, não ponho remorso de seguir no trem da vida.

“A fé vai onde quer que eu vá”, que ela cantasse por viver naqueles dias de mortos sem sepultura, compreendo-a.

“Cuidado com o disco voador”, não tenho vergonha de quem vê nos céus a vinda da salvação para o nosso éden.

“Vou partir a geleira azul da solidão”, escrevo no papel, escrevo com a festa fervendo na TV e, queimando de raiva, suspendo a mão.

“Uma gente que ri quando deve chorar”, sustento que posso mais.

Achava lógico associar o verso cristalino com o dia, nosso dia, o dia de todo mundo, relacionava-o a emoções que me induziam a associar-me a isso e àquilo.

Rapaz, sê mais impertinente.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 20 de agosto de 2024.


domingo, 18 de agosto de 2024

A tampa, a rolha e a garçonete descalça

 

A tampa, a rolha e a garçonete descalça

 

“Bom dia!” “Bom dia! Quatro pãezinhos, por gentileza.” “Mais algum produto?” “Não, obrigado. Tenha um bom dia.” “Bom dia.” Pego e pago, que a próxima parada é tomar um traguinho, bater um papinho.

O homem sem problemas não existe. De momento, creio acertado procurar na bebida o abrigo que me acolha sem cobranças, porque não estou a fim de me irritar com os certinhos e não consigo, pois o primeiro estranho que aparece veio pra chatear; no entanto, aceito o folheto que entrega, digo o nome quando me pede que o diga, ouço a oração com o nome que lhe dei; a comédia continua: quero sorrir e cantar?

“Bom dia!” “Bom dia!” “Cadê o meu corote?” “Sem corote, Taborda. Hoje só comeremos pão.” “Rarará. Pão a seco, nem morta!”

De momento, sem problemas que atazanem, ouço a canção que o sábado oferece. O coração vê que o sol está bom e a consciência sente que a grana está curta, ou seja, preciso beber; quero beber, no entanto, quero crer que consigo conversar com gente amiga, quem só precisa dar um tempo, gente desconfiada do que não tem solução, que não se satisfaz que a bebida acabe, a grana acabe; então, vou desistir e pirar, vou negar a alegria, vou correr do prazer? Vamos sorrir e cantar.

“Bom dia!” “Bom dia!” “Taborda, olha o frango a passarinho que eu trouxe? Que porção generosa, né?” “Generosa... Generosíssima! Mas cadê, diabos!, o mé?” “Nada de bebida, Taborda. A gente sabe do seu fígado.” “Pois é, meu chapa, quem está do seu lado quer o melhor pra você.” “Nada de cachaça? Não vou sobreviver sem um gole.” “Taborda, deixe de drama!” “Bons amigos, vão todos pro inferno!”

Por mais que me desconcentre, me distraia, me queira perdido dos problemas que este sábado sugere que não tenham importância, acho bom ficar onde estou. Permaneço onde estou, embora o melhor talvez seja ser mais adulto. Havendo tantas querelas, sorrio e canto.

Sorrindo, não me esforçarei pelo que dará errado. A princípio, estou consciente de que, por mais que me esforce, o sol não se porá ao meio-dia, as maritacas não imitarão canários, cabelos não voltarão a crescer no cocuruto, a minha amada Madalena não perdoará que o amor já ido cisme de brotar num sorrisinho que não engana ninguém.

Cantando, mudo de ideia ou outra ideia me transforma?

Como uma asa, mordo-a, mastigo-a: sou meus dentes mais o vinho que abro ainda que não o quisesse aberto.

Taborda bebe. A garçonete bebe. Eu bebo e sirvo-os. Eu bebo outro gole. A garçonete serve-se e enche o copo do Taborda. Bebemos sem cantar. Sorrindo, a garçonete enche o meu copo. Reclamando que logo o vinho acabará, Taborda não sorri. Sem cantar nem sorrir, digo que o dinheiro dará para outra garrafa, digo à garçonete que tem pés bonitos. A garçonete acha graça que eu tenha reparado nos seus pés e diz que vai voltar pro trabalho, precisa, mas sua hora do almoço foi boa.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de agosto de 2024.

quinta-feira, 15 de agosto de 2024

Saudável de mente

 

Saudável de mente

 

Sei trocar lâmpada, mas antever a escuridão após o crepúsculo não me persuade a subir na escada. Não tenho medo de cair, é que estou sem tempo. Até porque realizar a troca tem menos importância do que chegar na hora da consulta.

Preciso correr ao dentista porque nada me demove da ideia de que o dente começará a doer mesmo que a dor tente me convencer que é meu psicológico que se diverte aprontando, mas não saio de casa sem antes acabar de assistir à cena em que o mocinho, a mocinha e o vilão que não treme ao segurar a arma estão no momento decisivo.

Ultimamente tenho vivido mais momentos cruciais que rotineiros, e excesso de adrenalina vicia ou esgota. Ando viciado em esgotamento e isso, somado à urgência de dar conta do mundo, acaba acuando que o melhor a fazer nas atuais circunstâncias é dormir, é entretanto dormir profundamente.

Por pesar as consequências, não tomo sonífero. Ainda que o copo de leite com dois dedos a mais esteja quentinho, não me deitarei agora. Tenho que responder corretamente à senhora que me pediu as horas, o que me faz tirar o celular que eu trazia desligado.

Não é porque os assaltantes de antigamente batiam carteiras que os de hoje têm mania de celulares, é que poucos têm dinheiro de papel no bolso, então, julguei a mulher pelo coque, a saia seis palmos abaixo dos joelhos e as mãos garantindo que a Bíblia não caia no meio-fio, ou seja, o maior risco nessa ocasião é eu dizer alguma palavra machista, porque eu estou tocado por essa crente que ostenta maravilhosamente um relógio no pulso esquerdo.

Ela não precisa ocultar que o seu relógio está parado, que ele parou há pouco, assim que me viu, pois seu anjo da guarda teve a elegância de lhe sussurrar que sou a pessoa pundonorosa que aparento ser.

Embora aprove a visão que esse anjo, portanto todos os anjos, tem dessa alma que trago encalacrada nas carnes bem curtidas, à rapariga sinto-me na tentação de fazer graça, entretanto só falo as horas.

Não me lamento da escolha, que não revelei o sentimento de estar encantado, leve, a querer saber-lhe os gostos, de provar da textura dos lábios, de desejá-la acordando-me pro desjejum do domingo, para que houvesse outro desfecho, uma vez que neste, sem par de meias no dia dos pais, ela que siga, que vá, toque adiante.

Sem cismas de descaramento, eu pego outro rumo.

Se tivesse a possibilidade da admiração dos seus olhos, é provável que os achasse azulados ou, se não cedesse à vergonha pelo tanto do meu entusiasmo, descobri-los-ia esverdeados?

Se ousasse medi-la dos pés aos joelhos, haveria a precisão de que a saia está três palmos acima dos mocassins?

Mocassins, minha senhora? Terei visto a senhora em mocassins de camurça que eram ocre e não chumbo?

Sem meios de não me extraviar do possível ao provável, assim seja, pois sou gente penhorada à vida pela realidade proporcionada.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 15 de agosto de 2024.

terça-feira, 13 de agosto de 2024

Parada indigesta

 

Parada indigesta

 

Passando fio dental, vez ou outra forçando que passasse entre os dentes, eis que uma coroa soltou-se. Com o barulho do metal na pia, encarei o infeliz. Confrontado, inspecionei o estrago, listei as próximas ações. Critiquei-me, enfim desastrado.

Tentei ligar, em vão que atendessem. Apelei para o zap, embalde. Teria de ir à clínica, a urgência era latente. Relatei o que houvera, mas realcei a desventura de ter mordido a língua ao mastigar um pedacinho de bife, não um punhado de amendoim japonês.

O que omiti à secretária é que o ar escasseou na subida do morro, mesmo com este senhorzinho vindo lento, já desgostoso com os bem-te-vis e as maritacas, tão solares na tarde calorosamente soalheira.

De manhã, ao contrário, o frio bateu nas minhas fossas nasais e fez a sinusite insinuar-se, insultando o cérebro e fervilhando as sinapses com uns pensamentos de malquerer, com esses malquereres à carne, ao tempo, a essa velhice intransferivelmente tão minha.

De tanta malquerença, este velho imbecil até se revigora pelo que o apraz o próprio sangue, porque, já mordida a língua, este beócio de sempre desperta-se, outra vez vampiro.

Se bem não me alimenta nem o meu sangue, então o quê?

Uma vez que não tem nada que ver com isso, à funcionária que me agradece pela denúncia de que à meia dúzia de ovos da caixinha um teria sido surripiado, a ela desanimo de querer reclamar da friagem que apanhei na caminhada até o super, a latejante da fronte.

No entanto, ela nota o desconforto. Assim que a noto percebida do meu desassossego, vou-me num pé.

Vou-me ao pé de alface. Estabanado ao fechar a boca do saquinho, novamente o desastrado nem se dá conta de que a listinha de compras está novamente perdida.

Refaço meus passos pelo mercado, mas não a encontro. Optando por entrar na fila do pão, paro de procurá-la. Com a sabedoria de quem finge não pensar nisso, dou com a lista aos pés da banca de alface.

Ainda bem que eu não me debati querendo achá-la, porque, ainda sereno, tinha me esquecido de pegar o pacotão de amendoim japonês, guloseima que tanto gosto de beliscar enquanto faço o almoço.

Putz! Por que estou ranzinza?

Não se julgue o homem, julgue-se os atos ― satisfaz-me tal adágio pois: se perdi a lista, a encontrei; o telefone não me ajudou mas minhas pernas, sim; o ovo furtado faz-se em rastro de desvalidos.

O zombeteiro, que me põe encafifado, vejo que se escancara pelos olhos de quem passa, sinto que se diverte a indispor-me, percebo que preciso de um cafezinho, mas presumo que o mais recomendável é dar um pinote do passeio público.

Ao fim e ao cabo, a quem possa interessar, declaro que este idiota, bobo, imbecil, pacóvio, estúpido, ridículo, faz por bem, neste momento, ser energúmeno ventríloquo à Natalia Ginzburg, pois: “eu era eu, e me achava odiosa e não tinha como me separar daquele ser odioso”.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 13 de agosto de 2024.

domingo, 11 de agosto de 2024

À sombra do paredão

 

À sombra do paredão

 

Agradecimento espontâneo

Atendendo a pedidos, agradeço a quem tomou por bem gritar com o menino que parasse quando, entendendo ser coisa de rebelde, ele rasgava o cartaz à entrada da sala dos professores, cuja advertência, a todos, era o dever de economizar água na estiagem do inverno.

 

Epílogo no lugar certo

Para que não haja decepção, antecipa-se o fim da crônica em que o pai dá uma sova de cinto no filho, pois ele trouxe a justificativa para sua suspensão por três dias: para que haja o aprendizado de que todo ato precisa de ter responsabilização, aluno que retirar o badalo do sino só para fazer arte merece ser punido sem a misericórdia da expulsão, para que lhe seja, à cada nova infração, aplicado o castigo certo.

 

O forasteiro e a sua família

Embora tenha nascido nesta cidade, passou a maior parte dos seus treze anos em algum lugarejo, entre Ouro Preto e Tiradentes.

Muitos adultos não queriam os filhos andando com gente de fora, e ele tinha acabado de chegar. Mariana e Aristeu, embora paulistas e tão ibiunenses, não eram obedientes e menos ainda, aos quatorze anos.

 

O orgulho do vagabundo

― A gente vive mudando, Mariana, porque o trabalho do meu pai é tirar o sustento da sua família como gerente de banco.

― Não te falei, Aristeu, as pessoas mentem que é uma barbaridade porque a nossa grande cidadezinha quer testar quem vem para cá com essa ideia sórdida de ganhar a vida por suplicar a caridade delas.

― Mas a gente nunca foi de recusar bolo de graça, Mariana.


A lógica do sistema que não falha

1. Viver é andar de bicicleta. 2. Mesmo na garupa, andar de bicicleta é zelar pelo equilíbrio. 3. Uma vez que a vida não é nenhuma bicicleta com rodinhas pra enfrentar as curvas da realidade, pedalar é divino.

 

O bom foragido

A festa começou no horário, três da tarde. Nenhum convidado veio antes das quatro; foi a espera que deixou apreensivo o aniversariante.

Embora ninguém notasse que sabia que era senhor do seu destino, ele abandonou a própria festa, pois tinha quatorze anos.

 

Apelo dramático

Se ardia por um beijo, e os seus olhos mais brilhavam à luz daquela febre, ele vencesse o Paredão da Light para ir apanhar a rosa boiando na linha d’água da represa. Se queria a força mental para que os seus braços alongassem, que o polegar e o indicador fossem de bambu, que operassem feito pinça, beijaria as pétalas antes de entregá-las.

 

O vagamundo

Encontre o tom, e diga. Os dias não se repetem, você se repete. Os seus pensamentos iludem que haja repetição, mesmo não havendo em muito do que faz. Creia ser como a rosa atirada do alto da barragem. Recorde-se da mancha amarela flutuando na tarde. Não se perca do sentimento: queria pular, mas pensava que não queria; olhava e queria olhar aquela boca; sabia e não esquecia, sabia e o perturbava sabê-lo: quem dera a rosa à Mariana foi Aristeu, e você nunca quis ser ele.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de agosto de 2024.

quinta-feira, 8 de agosto de 2024

Duas vias

 

Duas vias

 

A estrepitosa queda de uma árvore lá onde nunca fui nem pretendo ir, dela o que tenho a dizer é que não me sobressalta sequer dá-la por considerável, algo (portanto) interessante, um ambiente a ser protegido das minhas tantas indiferenças.

Já a verruga removida do nariz do nenê recém parido, nisso o que impressiona é entrevê-la revivida nele, quando o mesmíssimo nariz for moço, porquanto penduricalho bruxo em noite de bruxas.

Há quem muito se satisfaça em espalhar lorotas como se houvesse para si um maior proveito que a pecha de futriqueiro, porém a mim, que me diverte replicá-las, há quem até se aborreça de apodar-me infantil, um babaquara pequeno burguês.

Sim, senhor, sou mesmo pequeno, um tampinha careca, um míope barrigudo, nem por isso sinto-me mais feliz ou mais desesperado, pois continuo abstêmio, eleitor contumaz, um bem consolidado democrata. Ou somente outro sujeito escondido numa (efêmera) identidade.

Ainda que tropece, mesmo machucado, pela rua eu vou.

Subitamente, paro. Sou pego pela necessidade de olhar em volta. Preciso reconhecer a esquina. Quero saber quem são as pessoas que passam. Entretanto, relativizo a minha condição: dessas que passam, poucas se importam quem seja essa pessoa parada.

Não me abate que muitas não me vejam, e apenas desviem. Ainda que olhem, não sabem por mim qual a pessoa que eu bem gostaria de ser notada. Não abala ser um estranho a muita gente, que sequer sabe o que ambiciono.

Parado na esquina, não fumo e não fuço o telefone.

Se ao menos ostentasse no pulso um relógio personalíssimo, todo cravejado de cristais, quiçá diamantes ― ou nem isso, camarada?

Nem nada que remeta ao farsante triste e cabisbaixo.

Assombrosamente, leio na fronte do estabelecimento: Rodrigues da Silveira, cronista. À testa da loja, sem que algo diferente apareça, releio e constato escrito: Rodrigues da Silveira, cronista.

Assombrosamente, encontrei a resposta; todas. Encontrei-as. E me assustei de tê-las todas amalgamadas numa pinta. Que o universo veio inteiro na pinta no rosto do moço, nesse ponto acima do lábio superior, nesse buraco negro a me constranger, que me reconheça desejoso de olhá-la (a pinta) de perto, a esquecer de mim pelas maravilhas que ele (o ponto) tem a oferecer-me, esteja à altura dessas oferendas, e esteja lúcido para me perder nessas descobertas, e me reencontre na criança atrás das pernas da mãe, que ali haja proteção.

O vidro da vitrine não conspurca o que há.

Lá, o moço que datilografa numa máquina de escrever tem rabo de cavalo e cavanhaque tingidos de loiro, e usa boina e uma camisetona com o companheiro Kruschev fumando cachimbo.

Aqui, o aperreado que se mordisca na boca torta não está ansioso pelo cachimbinho que nunca pitei.

Sem dar pinta de fantasista, de novo (e novamente) leio: Rodrigues da Silveira, clonista.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de agosto de 2024.

terça-feira, 6 de agosto de 2024

Um barulho desses

 

Um barulho desses

 

Aí está, como se deu a abordagem, eis que os dois tapinhas no meu ombro trouxeram-me à crônica.

Não chiei. De imediato, só preferi não sorrir.

Com a transparência de represar o meu contentamento por ter sido reconhecido, envaideceu-me ouvir traçada a linhagem a qual pertenço, de filho desta Terra Preta desde o século 18.

Sorriria com a mais sincera tolerância se conhecesse quem dera as batidinhas no ombro, posto que poderia chamá-lo pelo nome completo, tal qual mamãe quando me instituía em reizinho.

Não sendo a primeira vez que o luar não ilumina os meus caminhos, já que, amiúde, me desnorteio na escuridão das madrugadas, ele doía porque dei uma baita topada num batente.

Tirando mamãe do que virá, e para a alegria de quem gosta de ver o calhambeque explodindo no picadeiro, o narrador está muito a fim de palhaçada.

Maluco por detonações do que posso implodir sem as censuras de uma alma bem cultivada, fui paciente com os perdigotos, uma vez que, se não me desse ouvidos, o pavio resultaria molhado.

Bom ateu que sabe o quão afetuoso é desejar um domingo na paz do senhor, devolvendo os dois tapinhas no ombro amigo, disse-lhe que o mundo ainda pode revelar-se surpreendente.

A realidade esconde o tanto de gente valorosa, gente que não bate no peito a cada vez que paga uma conta em dia, gente solícita que não se furta ao pingado com pão na chapa a quem os esmole.

Poderia ter desejado que tivéssemos um belo domingo, o altruísta, todavia, se sobressaiu.

― O senhor aceita que lhe pague um cafezinho?

Antes que eu me tomasse por idiota, fomos bebê-lo.

Sem detença, mostrou-me a postagem que publicara. Não só, uma vez que, sentindo-me cordial, ele tomara para si a leitura.

O peixe não sabe o que sejam água, nadar e minhoca, ainda que o seu habitat seja a água, que bater as barbatanas ajude-o a circular pela água e que as minhocas são bichos que o alimentam.

Assim como Netuno, o peixe reina na água.

Ainda que ignore quais os determinismos da natureza que o tenham feito nascer peixe e o destinem a morrer um, o peixe não conhecerá a felicidade de saber-se nascido para morrer como peixe.

Assim como Dori, o peixe não precisa se lembrar de comer porque a sua boca não sabe ficar fechada.

Um jeito prático para um peixe parar quieto é entupi-lo de minhoca, fisgando-o. Porque Deus ensina a pescar a cada vez que pegamos da vara e damos linha à minhoca que enfiamos no ventre que nunca para de correr.

Assim como a vida é um rio que não para de passar, também nós, humanos e imortais, passaremos ao seio de Deus quando for o tempo de sermos passados.

E só pelas boas pescarias que daremos em bom pescado.

Assim Deus tudo ceva e fisga, que Sua palavra tanto é rio que não seca quanto o que afoga a ímpios e injustos; tanto Deus é a água que alimenta quanto é o Sena que tira do páreo quem zomba da resistência da nossa gente mais resiliente.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 06 de agosto de 2024.

domingo, 4 de agosto de 2024

O sistema

 

O sistema

 

Ligo o computador; cuido dos e-mails; leio os jornais; abro o WORD; escrevo, apago; escrevo novamente, mas não apago; se ocorrer de ter uma palavra menos certinha, reescrevo; estou disposto a escrever algo que aborreça, afaste o leitor que toma a página como espelho; escolho a palavra mais apropriada para desafinar comigo e com quem lê.

Encontrada a vereda pela qual ouvirei cantarem os meus canários, vem o bem-te-vi me desviar do propósito, pondo-me a dançar, já a mão dando apoio à cabeça, já os olhos espiando pela janela, que o bichinho canta alto, canta afinado, canta apesar da torre de celular que lhe serve de poleiro.

Como o computador não deu pau nem o WORD travou, caso o meu texto não avance, então, a quem poderei culpar?

Para sacar melhor a pergunta, um interlúdio.

Era sábado. Na manhã ensolarada, uma criança brincava sozinha. O menino brincava como se mais alguém houvesse com ele. Falando, o pequeno engenheiro trazia água na concha das mãos. Aprumando o barro, ergueram-se paredes. Eram quatro as paredes erguidas, e duas eram breves e duas, longas. Com breves e longas, sem janelas e sem portas, à forma calhava faltar o telhado.

Era sábado e a manhã tinha sol, mas o menino não fez andorinhas nem pardais, ele moldou o cômodo. Era um cubículo no qual faltavam estrado, jarro de água e o bispote para as regulares evacuações.

Para que a luz do sol impedisse qualquer fuga, o aposento foi feito sem telhado. Pra dentro daquela cela, no entanto, vieram os pardais e as andorinhas que o menino não almejara soprar-lhes os moldes.

Apesar do sol, andorinhas e pardais pipilaram em pleno sábado.

Dona Cremilda diz que a falta de fé não paralisa a montanha, cega para o milagre. Quer prodígio maior que a própria superação?

Considere-se: a) Deus está morto, apud Nietzsche; b) Se Deus está morto, tudo é permitido, apud Ivan Karamazov; c) pôr ketchup em quibe prova que Ele permite tudo, apud Cláudia Mara.

Cláudia Mara é filha de Claudiomiro Malaquias, aquele que vendera enciclopédias, de porta em porta, décadas antes de a Wikipédia tornar obsoletos catálogos impressos e estantes.

Não sei se Deus aprova, mas Cláudia Mara gosta de ir à missa com Dona Cremilda, uma vez que ambas disputam quem sustenta o Agnus Dei mais diáfano.

Como quero inventado que seja assim, sei que não há cristão que se furte à euforia de parabenizar, separadamente, esta ou aquela pelo canto afinado, pelo recato ao cantar, pelo requintado chapeuzinho com véu tão caro à madame Darcy Sarmanho.

Sem escamotear qual a minha posição no que narro, digo que Dona Cremilda e Cláudia Mara não sabem nada de nada dessa tal de Darcy Sarmanho.

Responsável por ser a pessoa que dita aonde vai o que é contado, tiro o chapéu pro Darcy Ribeiro:

"O Brasil é um enorme país de classes privilegiadas que não se dão conta de que a miséria é uma agressão."

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de agosto de 2024.

quinta-feira, 1 de agosto de 2024

Normalista

 

Normalista

 

É compreensível, portanto tolerável, que o homem em questão não se importe de ignorar que houve um tempo em que algumas damas da nossa gente eram conservadas internas em certas instituições, ilustres pelo famigerado ministério do bom uso de linhas e agulhas, que as bem habilitavam para bordados, crochês ou tricôs e, pela justiça à língua na felicidade de bem fazê-los, cosendo e chuleando.

Foi-se o tempo, bom homem, que tais senhoras distintas ganhavam em ser prendadas, domésticas, tão boas normalistas.

Entretanto, camarada, a sala da sua casa vive bagunçada.

O cinzeiro está no chão. As almofadas hão de ser repostas no sofá. As revistas têm que ser empilhadas na mesinha de centro. As bitucas carecem de ser catadas de cima do tapete. Pratos, copos e latinhas, o seu lugar é a pia. Barata morta e bolotas de poeira, clamem por lixeira, pá e vassoura. Escadinha já usada e lâmpada queimada, cada qual vá em frente.

Esta bagunça não pode continuar intocada, é preciso dar um basta. Faz-se mister barrar o seu alastramento, porque é preciso evitar que a daninha chegue ao quarto.

O corpo são na mente sã e vice-versa.

Uma vez que a espinha começa na nuca, a cabeça funciona melhor quando o pescoço fica assentado numa almofadinha já afofada. Melhor ainda, travesseiro, a coluna ereta mantém a cabeça erguida, o maxilar sereno e, saudável esperança, a saliva não entra em ebulição. Embora a pressão suba, os nervos ressintam-se de algum sossego, seja bom consigo. Não exija o mínimo. Seja capaz de pensar que pode o melhor, que sabe o que é bom para si. Faça-se melhor até para os outros, para esses que se importam com o seu desempenho. Sem afetar prostração como cansaço, promova a justiça de varrer a casa inteirinha. Por temer infecções bacterianas, não postergue, e passe pano no chão. Ponha-se todo nisso de ser útil: vá lavar o quintal, recolher as fezes dos cães, queimar as folhas e jogar os sacos na caçamba da esquina.

Depois desta jornada verdadeiramente produtiva, observe-se, não se julgue o pior dos homens de seu tempo, sussurre-se:

Feliz é o homem justo porque é bom.

Camarada da cidadania socialmente responsável, embora você não espere que o espelho lhe seja gentil, responda, sem fazer careta, o que entenda que deva ser levado a sério.

― Se não fosse eu pôr o cachecol, o pescoço seguiria exposto?

― Neste ano, o inverno está mais quente.

― Se não fosse eu calçar as luvas, as mãos congelariam?

― Para dar joinha, luva é cafona.

― Se não fosse eu lutar pelas botas, seu queixo bateria?

― Que horror! Dentes rangendo é bruxismo.

― Se não fosse eu picar a mula da montanha, você ainda sonharia com caipirinha, frescobol e bicho geográfico.

Ao fim e ao cabo, ponha-se na ata que é perfeitamente normal que o camarada aspire ao cargo de cidadão prudente e antenado, até para não viralizar feito papagaio de pirata.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de agosto de 2024.