Brejeiro
Tirar a bunda da cadeira compara-se a
tirar o corpo fora da zona de conforto quando a lucidez dá margem ao
entendimento de que manter a ociosidade é tão trabalhoso quanto secar gelo com
flanela pingando o suor do rosto de quem labuta por uma boa luta, mas acha
apenas o que lhe racha a cuca em duas: a preguiçosa que não arregaça a manga para
esconder-se como carta fora do baralho e a voluntariosa que não mede esforços
pra descansar um instantezinho de nada.
Pra esquentar a chapa, o resumo da ópera:
antes que a vaca vá pro brejo, que o brejo vá atrás da vaca.
Como a realidade não se resume à vaca-fria de quem joga conversa fora como quem joga a água da bacia sem ter lavado a
criança, melhor enfiar o pé na jaca, chutar o pau da barraca e tirar o pai da
forca.
Seu Rodrigues, uma vez que o senhor não
é pai e nunca fez barraco por besteira, pague o mico de falar a verdade,
somente a verdade. Sem papas na língua, desafine, toque de ouvido, mexa no
vespeiro, não fuja da raia, caia de boca no trombone: como é o seu dia?
“Espírito da coisa, começo o dia lendo
os jornais.”
Quanto tempo o senhor perde lendo os
jornais?
“Porque trabalho como cronista, ler
jornal é de ofício. Não determino as horas que fico lendo, pois depende do que
eu ache interessante. Há edição com número menor de matérias instigantes, logo
a leitura é feita num tempo menor. Há dias em que estou sonolento, tenho
dificuldades pra ser um leitor focado, tento manter a atenção, brigo pra
preservar a lucidez, mas largo o jornal, cochilo ou lavo o rosto. As horas
passarem mais ou menos, isso não me preocupa de modo algum”.
O senhor lê a qualquer hora?
“Leio os jornais pela manhã. Como sou
chato em relação à parada pro almoço, acabo o que falta na manhã seguinte”.
O senhor só lê jornal?
“Não sou tolo, não trabalho o tempo
todo. Depois do jantar, vejo TV. Quando começo a mordiscar os lábios, ouço
música. Quarenta e cinco minutos depois, já relaxado, pego um livro. Não pego
um livro qualquer, geralmente retomo a leitura. Respeito o sono, assim que os
olhos têm areia, vou dormir. Sempre haverá a noite seguinte pra outra rodada de
leitura. Eu preciso estar bem para que a leitura dê prazer”.
Livro só vale a pena se lhe der prazer?
“Cuidado. Sinto prazer não só com obra
que reforça o que acredito que encontrarei ao lê-la. Se o texto me desconforta,
trato de vencer os meus preconceitos. Mas, há autor que consegue ser irritante
o tempo todo, obra após obra. Não consigo superar o desassossego. Relaxo da
verdade, invisto em texto que acorda em mim o censor”.
Ao censurar as chateações, o senhor se satisfaz?
“Há aborrecimento que não interrompo. Há
livro mal escrito que me faz querer reescrevê-lo. É simples, busco escrevê-lo
do meu jeito”.
Seu Rodrigues, o senhor valoriza a vida
simples?
“Eu tento. Ver-me obrigado à pizza sem
uma cervejinha, entretanto, isso é revoltante”.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 13 de fevereiro de 2024.