domingo, 4 de fevereiro de 2024

O xis da questão

 

O xis da questão

 

Atravessei a rua porque precisava comprar a folhinha que uma rede de farmácias sempre põe à venda em dezembro.

Mostrando o produto que vendiam, o funcionário disse que tinham apenas aquele tipo de calendário, cujo furo em todas as páginas, notei, permitiria pendurá-lo.

Embora não fosse necessário arrancar a página do mês decorrido, aquilo, sim, era uma folhinha.

Como não aporrinho quando estou enganado, e habituado a ajudar a memória mantendo visível o que tenho compromissado, mesmo que vendida como calendário de parede, eu, sem delongas, comprei aquela folhinha.

Determinadas datas estão destacadas, além dos feriados, também estão designados os dias da Gratidão (06/01), da Amizade (30/07), da Solidariedade (20/12), do Riso (18/01) e o 24 de junho para celebrar o São João, anarriê!

Como há de ser o de sempre, não tem que haver indiferença. A vida é neste momento, comemore-se. Porque o radicalismo é salutar por ir fundo, por avançar às raízes, sejam enaltecidos os extremistas que vão aonde os fracos temem chegar.

Cavadores de abismo, ação!

Embora os dedos sangrem, cavam. Embora a agonia de lutar nunca diminua, obram. Obra em construção, o desespero é abissal enquanto houver dedos para a escavação.

Essa gente de face sombria nem repara que espelho e poça d’água ecoam que o assombroso do rosto é seguir indo fundo, mais pro fundo, é avançar, e é aprofundar-se sem se deixar afundar.

Gente, solte os monstros, pense-se capaz disso. Pense como eles, solte-se. Deixe as desgraças grassarem, aceite-se. Pela falta de graça, perdoe-se. Pelo mau humor, sorria. Desculpe quem se engana que não se engana, e erre junto.

Note que os desgraçados monstruosos têm o poder de queimar o chão, limpá-lo de ervas mortas, justamente pelo fogo. Pela emergência do que brote, os monstros sem graça disseminam a alegria, dobram os dias ditosos, tornam muito menos asfixiantes os instantes.

Gente triste que ri da própria desgrama, não enlouqueça à toa, é do mundo haver monstros que não querem ser mas acabam sendo.

Gente triste que sorri quando não consegue rir do próprio infortúnio, seja esquisita, não desdenhe do que não se recorda, de que é preciso aparar arestas. Tome cuidado pra não ficar alisando as protuberâncias, não as elimine, uma vez que arestas atritam, impedem a inércia. Gente querida, fique lembrada de que a Terra não é bolinha de gude pra rolar suave, em velocidade constante pelos confins do cosmo.

Gente, quando é nulo o atrito, esteja certa de que isso só existe na realidade ideal, experimental, planejada e construída cientificamente.

Gente boa, minha crônica é bem pouco platônica, risco um xis sobre o dia vivido: embora tenha sido um dia a menos de vida, todavia estou vivo; sim, ontem foi um dia a mais, é certo que ontem foi um dia a mais de vida porque foi um dia a mais no ano.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de fevereiro de 2024.

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