O
xis da questão
Atravessei a rua porque precisava
comprar a folhinha que uma rede de farmácias sempre põe à venda em dezembro.
Mostrando o produto que vendiam, o
funcionário disse que tinham apenas aquele tipo de calendário, cujo furo em
todas as páginas, notei, permitiria pendurá-lo.
Embora não fosse necessário arrancar a
página do mês decorrido, aquilo, sim, era uma folhinha.
Como não aporrinho quando estou enganado,
e habituado a ajudar a memória mantendo visível o que tenho compromissado, mesmo
que vendida como calendário de parede, eu, sem delongas, comprei aquela
folhinha.
Determinadas datas estão destacadas, além
dos feriados, também estão designados os dias da Gratidão (06/01), da Amizade
(30/07), da Solidariedade (20/12), do Riso (18/01) e o 24 de junho para
celebrar o São João, anarriê!
Como há de ser o de sempre, não tem que
haver indiferença. A vida é neste momento, comemore-se. Porque o radicalismo é
salutar por ir fundo, por avançar às raízes, sejam enaltecidos os extremistas
que vão aonde os fracos temem chegar.
Cavadores de abismo, ação!
Embora os dedos sangrem, cavam. Embora a
agonia de lutar nunca diminua, obram. Obra em construção, o desespero é abissal
enquanto houver dedos para a escavação.
Essa gente de face sombria nem repara
que espelho e poça d’água ecoam que o assombroso do rosto é seguir indo fundo,
mais pro fundo, é avançar, e é aprofundar-se sem se deixar afundar.
Gente, solte os monstros, pense-se capaz
disso. Pense como eles, solte-se. Deixe as desgraças grassarem, aceite-se. Pela
falta de graça, perdoe-se. Pelo mau humor, sorria. Desculpe quem se engana que
não se engana, e erre junto.
Note que os desgraçados monstruosos têm
o poder de queimar o chão, limpá-lo de ervas mortas, justamente pelo fogo. Pela
emergência do que brote, os monstros sem graça disseminam a alegria, dobram os
dias ditosos, tornam muito menos asfixiantes os instantes.
Gente triste que ri da própria desgrama,
não enlouqueça à toa, é do mundo haver monstros que não querem ser mas acabam
sendo.
Gente triste que sorri quando não
consegue rir do próprio infortúnio, seja esquisita, não desdenhe do que não se
recorda, de que é preciso aparar arestas. Tome cuidado pra não ficar alisando
as protuberâncias, não as elimine, uma vez que arestas atritam, impedem a
inércia. Gente querida, fique lembrada de que a Terra não é bolinha de gude pra
rolar suave, em velocidade constante pelos confins do cosmo.
Gente, quando é nulo o atrito, esteja
certa de que isso só existe na realidade ideal, experimental, planejada e
construída cientificamente.
Gente boa, minha crônica é bem pouco
platônica, risco um xis sobre o dia vivido: embora tenha sido um dia a menos de
vida, todavia estou vivo; sim, ontem foi um dia a mais, é certo que ontem foi
um dia a mais de vida porque foi um dia a mais no ano.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 04 de fevereiro de 2024.
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