quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

Lábia de passarinho

 

Lábia de passarinho

 

Acredite, a decisão de parar de fumar nunca foi um problema. Ainda que eu fosse um fumante, a abstinência é que causaria problema. Isso porque sempre fui de decisões intempestivas, lidando com as sequelas no momento certo.

Mesmo que isso pareça um capricho, acredito que fumar continuará constante da lista do que pretendo realizar, até quando a cachola deixe de lembrar-se da referida relação de desejos. Fumarei, então, sem dar à experiência a relevância metafísica que hoje eu dou.

Como nunca me importaram as aflições futuras, preocupante era a chuva que estragasse o meu topete nas noites de discoteca.

Fui um sujeito bem topetudo para desfilar a minha sensualidade nos bailes de sábado. Inteligente, nos meus quinze anos, era investir vinte porcento da mesada numa dose de Campari, assim como, por um gole, nunca cobrar uma pataca à gente da minha patota.

Como jamais me importo com as predições pretéritas, inclino-me à naturalidade de observar uma história, da qual inexoravelmente advirá um final auspicioso.

Confesso, há pouco foi testada minha fidelidade ao princípio de não meter o bedelho em assunto alheio, uma vez que sempre há vigilantes que não dormem direito caso permitam que a natureza humana revele-se realmente boa.

Por óbvio, é notável tomar a realidade como sonífero; todavia, tenho sono profundo após um dia sem me contradizer.

Pessoa confiável que não se deixa moldar pelos eventos, só uni os pontos quando a situação já estava bem encaminhada para o referido louvável desemboque.

Quando o cadeirante veio ao balcão, notei-o, que vinha empurrado por um falastrão que também era açougueiro, que sabia atender bem os fregueses, que meteria o louco, que pularia o balcão se tivesse que provar que a sua bondade não era pra aparecer, era-lhe natural.

Felizmente para o andamento do causo, quando o vi empurrado por um rapaz tão prestimoso, a minha memória lembrou-me de que o tinha situado à fila do banco em dia de pagamento de aposentadoria.

Nesse aglomerado de gente à porta da agência, não lhe comprei os chicletes mas desejei sorte com as vendas. Com o bolso realimentado pelo caixa eletrônico, mantive o foco.

Se fosse mais esperto, teria compreendido que o cadeirante na fila de aposentados precisava vender gomas de mascar para ter condições de sustentar-se.

Sustentar-se por si, o que não acarreta a desqualificação da ajuda evidentemente caridosa dessa boca que exalava caninha, que o moço era outro bravo sobrevivente das madrugadas.

Cuidei de pensar que o melhor há de ser feito, pois sempre há quem proclame indispensável a segurança do mercado.

Contudo, comprovando que o mundo dá mesmo lugar a remissões, lá fora estavam outras duas almas renascidas, que trocaram pedra por água que passarinho refuta como cachaça.

Aliás, dono de bar adora papo furado.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de fevereiro de 2024.

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