Lábia
de passarinho
Acredite, a decisão de parar de fumar
nunca foi um problema. Ainda que eu fosse um fumante, a abstinência é que
causaria problema. Isso porque sempre fui de decisões intempestivas, lidando
com as sequelas no momento certo.
Mesmo que isso pareça um capricho,
acredito que fumar continuará constante da lista do que pretendo realizar, até
quando a cachola deixe de lembrar-se da referida relação de desejos. Fumarei,
então, sem dar à experiência a relevância metafísica que hoje eu dou.
Como nunca me importaram as aflições
futuras, preocupante era a chuva que estragasse o meu topete nas noites de
discoteca.
Fui um sujeito bem topetudo para
desfilar a minha sensualidade nos bailes de sábado. Inteligente, nos meus quinze
anos, era investir vinte porcento da mesada numa dose de Campari, assim como, por
um gole, nunca cobrar uma pataca à gente da minha patota.
Como jamais me importo com as predições
pretéritas, inclino-me à naturalidade de observar uma história, da qual inexoravelmente
advirá um final auspicioso.
Confesso, há pouco foi testada minha
fidelidade ao princípio de não meter o bedelho em assunto alheio, uma vez que
sempre há vigilantes que não dormem direito caso permitam que a natureza humana
revele-se realmente boa.
Por óbvio, é notável tomar a realidade
como sonífero; todavia, tenho sono profundo após um dia sem me contradizer.
Pessoa confiável que não se deixa moldar
pelos eventos, só uni os pontos quando a situação já estava bem encaminhada
para o referido louvável desemboque.
Quando o cadeirante veio ao balcão,
notei-o, que vinha empurrado por um falastrão que também era açougueiro, que
sabia atender bem os fregueses, que meteria o louco, que pularia o balcão se
tivesse que provar que a sua bondade não era pra aparecer, era-lhe natural.
Felizmente para o andamento do causo,
quando o vi empurrado por um rapaz tão prestimoso, a minha memória lembrou-me
de que o tinha situado à fila do banco em dia de pagamento de aposentadoria.
Nesse aglomerado de gente à porta da
agência, não lhe comprei os chicletes mas desejei sorte com as vendas. Com o
bolso realimentado pelo caixa eletrônico, mantive o foco.
Se fosse mais esperto, teria compreendido
que o cadeirante na fila de aposentados precisava vender gomas de mascar para
ter condições de sustentar-se.
Sustentar-se por si, o que não acarreta
a desqualificação da ajuda evidentemente caridosa dessa boca que exalava
caninha, que o moço era outro bravo sobrevivente das madrugadas.
Cuidei de pensar que o melhor há de ser
feito, pois sempre há quem proclame indispensável a segurança do mercado.
Contudo, comprovando que o mundo dá
mesmo lugar a remissões, lá fora estavam outras duas almas renascidas, que
trocaram pedra por água que passarinho refuta como cachaça.
Aliás, dono de bar adora papo furado.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 01 de fevereiro de 2024.
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