terça-feira, 13 de fevereiro de 2024

Brejeiro

 

Brejeiro

 

Tirar a bunda da cadeira compara-se a tirar o corpo fora da zona de conforto quando a lucidez dá margem ao entendimento de que manter a ociosidade é tão trabalhoso quanto secar gelo com flanela pingando o suor do rosto de quem labuta por uma boa luta, mas acha apenas o que lhe racha a cuca em duas: a preguiçosa que não arregaça a manga para esconder-se como carta fora do baralho e a voluntariosa que não mede esforços pra descansar um instantezinho de nada.

Pra esquentar a chapa, o resumo da ópera: antes que a vaca vá pro brejo, que o brejo vá atrás da vaca.

Como a realidade não se resume à vaca-fria de quem joga conversa fora como quem joga a água da bacia sem ter lavado a criança, melhor enfiar o pé na jaca, chutar o pau da barraca e tirar o pai da forca.

Seu Rodrigues, uma vez que o senhor não é pai e nunca fez barraco por besteira, pague o mico de falar a verdade, somente a verdade. Sem papas na língua, desafine, toque de ouvido, mexa no vespeiro, não fuja da raia, caia de boca no trombone: como é o seu dia?

“Espírito da coisa, começo o dia lendo os jornais.”

Quanto tempo o senhor perde lendo os jornais?

“Porque trabalho como cronista, ler jornal é de ofício. Não determino as horas que fico lendo, pois depende do que eu ache interessante. Há edição com número menor de matérias instigantes, logo a leitura é feita num tempo menor. Há dias em que estou sonolento, tenho dificuldades pra ser um leitor focado, tento manter a atenção, brigo pra preservar a lucidez, mas largo o jornal, cochilo ou lavo o rosto. As horas passarem mais ou menos, isso não me preocupa de modo algum”.

O senhor lê a qualquer hora?

“Leio os jornais pela manhã. Como sou chato em relação à parada pro almoço, acabo o que falta na manhã seguinte”.

O senhor só lê jornal?

“Não sou tolo, não trabalho o tempo todo. Depois do jantar, vejo TV. Quando começo a mordiscar os lábios, ouço música. Quarenta e cinco minutos depois, já relaxado, pego um livro. Não pego um livro qualquer, geralmente retomo a leitura. Respeito o sono, assim que os olhos têm areia, vou dormir. Sempre haverá a noite seguinte pra outra rodada de leitura. Eu preciso estar bem para que a leitura dê prazer”.

Livro só vale a pena se lhe der prazer?

“Cuidado. Sinto prazer não só com obra que reforça o que acredito que encontrarei ao lê-la. Se o texto me desconforta, trato de vencer os meus preconceitos. Mas, há autor que consegue ser irritante o tempo todo, obra após obra. Não consigo superar o desassossego. Relaxo da verdade, invisto em texto que acorda em mim o censor”.

Ao censurar as chateações, o senhor se satisfaz?

“Há aborrecimento que não interrompo. Há livro mal escrito que me faz querer reescrevê-lo. É simples, busco escrevê-lo do meu jeito”.

Seu Rodrigues, o senhor valoriza a vida simples?

“Eu tento. Ver-me obrigado à pizza sem uma cervejinha, entretanto, isso é revoltante”.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 13 de fevereiro de 2024.

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