A
velha roupa de rei
Quando telefonam para pedir licença que
o visitem, Aristeu diz estar de saída, que irá às compras.
Como quem telefona não oculta a
decepção, Aristeu assegura que retornará a ligação assim que esteja de volta da
farmácia.
No dia seguinte, ligam outra vez, pedem
que receba quem precisa lhe falar. Não há urgência, mas pode ser interessante
ouvir a proposta que lhe querem apresentar.
ꟷ Tem que ser pessoalmente?
O assunto envolve dinheiro. Então, sim,
é o caso de ser conversado pessoalmente. Pra que as vantagens fiquem claras, é bem
melhor que o papo ocorra olho no olho.
Aristeu lamenta que esteja sem tempo, pois
passará o dia pagando conta em caixa eletrônico, pegará fila pra pagar certos boletos
que têm que ser pagos em boca de caixa.
Lamenta-se, ainda, de que nem possa
estimar a que horas voltará, pois ficará à mercê de agente público que
obviamente o enredará, para que desista da sua demanda, que é a alteração da
data de vencimento da multa, cujo valor reputa incorreto.
Novamente, tornam a telefonar. E ligam logo
cedo, às oito horas, já que precisam lhe falar.
Quem liga não é agente público, mas tem
a perseverança de gente preparada a ouvir as escusas, por mais risíveis que
sejam.
As desculpas não constrangem, pois quem liga
sabe que é razoável dizer que ele, Aristeu, é pessoa que não precisa ser
persuadida a optar pelo que é bom para si.
Bom é sentar quinze minutinhos para conhecer
a oportunidade que é oferecida a ele, que tem a reputação de ser um cidadão
responsável, que, apesar das dificuldades, dá jeito de pagar o que deve.
Quem telefona reconhece os esforços dele
para manter-se correto, honrado. Porque a pessoa que pena para pagar tudo o que
lhe cobram é gente que merece o privilégio de ter sido escolhida para ouvir
aquela proposta.
Além de ser realmente lucrativa, a
oportunidade demanda poucas horas por dia, por isso não causa esgotamento
físico nem embaraços mentais. Em suma, é negócio que não deve ser desperdiçado
sem nem ser conhecido na íntegra.
Se Aristeu concede-lhe uma indiscriçãozinha,
a pessoa que insiste ao telefone não se envergonha de ter nascido brasileira,
porque, ainda que a realidade atrapalhe pra valer, brasileiro nasceu pra ser
rico.
Embora ele ache que rico é quem tem
grana para visitar Graceland, Aristeu sente que ficará muito feliz quando tiver
dinheiro para importar o figurino completo do último show do Rei. Milionário, ele
duplicará as roupas de Elvis, assim, contra sol, chuva e o assanhamento de
saúva, ele poderá guardar o figurino legítimo num cofre.
Puxa vida, Aristeu vai visitar a irmã
acamada.
ꟷ Foi justamente seu cunhado que insistiu
bastante que ligássemos pro senhor para darmos início ao corrente negócio.
Não é pela alegria de saber de onde vem tamanha
graça, é urgente que vá ao banheiro porque o n° 2 tem potência avassaladora.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 06 de fevereiro de 2024.
Nenhum comentário:
Postar um comentário