terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

A velha roupa de rei

 

A velha roupa de rei

 

Quando telefonam para pedir licença que o visitem, Aristeu diz estar de saída, que irá às compras.

Como quem telefona não oculta a decepção, Aristeu assegura que retornará a ligação assim que esteja de volta da farmácia.

No dia seguinte, ligam outra vez, pedem que receba quem precisa lhe falar. Não há urgência, mas pode ser interessante ouvir a proposta que lhe querem apresentar.

ꟷ Tem que ser pessoalmente?

O assunto envolve dinheiro. Então, sim, é o caso de ser conversado pessoalmente. Pra que as vantagens fiquem claras, é bem melhor que o papo ocorra olho no olho.

Aristeu lamenta que esteja sem tempo, pois passará o dia pagando conta em caixa eletrônico, pegará fila pra pagar certos boletos que têm que ser pagos em boca de caixa.

Lamenta-se, ainda, de que nem possa estimar a que horas voltará, pois ficará à mercê de agente público que obviamente o enredará, para que desista da sua demanda, que é a alteração da data de vencimento da multa, cujo valor reputa incorreto.

Novamente, tornam a telefonar. E ligam logo cedo, às oito horas, já que precisam lhe falar.

Quem liga não é agente público, mas tem a perseverança de gente preparada a ouvir as escusas, por mais risíveis que sejam.

As desculpas não constrangem, pois quem liga sabe que é razoável dizer que ele, Aristeu, é pessoa que não precisa ser persuadida a optar pelo que é bom para si.

Bom é sentar quinze minutinhos para conhecer a oportunidade que é oferecida a ele, que tem a reputação de ser um cidadão responsável, que, apesar das dificuldades, dá jeito de pagar o que deve.

Quem telefona reconhece os esforços dele para manter-se correto, honrado. Porque a pessoa que pena para pagar tudo o que lhe cobram é gente que merece o privilégio de ter sido escolhida para ouvir aquela proposta.

Além de ser realmente lucrativa, a oportunidade demanda poucas horas por dia, por isso não causa esgotamento físico nem embaraços mentais. Em suma, é negócio que não deve ser desperdiçado sem nem ser conhecido na íntegra.

Se Aristeu concede-lhe uma indiscriçãozinha, a pessoa que insiste ao telefone não se envergonha de ter nascido brasileira, porque, ainda que a realidade atrapalhe pra valer, brasileiro nasceu pra ser rico.

Embora ele ache que rico é quem tem grana para visitar Graceland, Aristeu sente que ficará muito feliz quando tiver dinheiro para importar o figurino completo do último show do Rei. Milionário, ele duplicará as roupas de Elvis, assim, contra sol, chuva e o assanhamento de saúva, ele poderá guardar o figurino legítimo num cofre.

Puxa vida, Aristeu vai visitar a irmã acamada.

ꟷ Foi justamente seu cunhado que insistiu bastante que ligássemos pro senhor para darmos início ao corrente negócio.

Não é pela alegria de saber de onde vem tamanha graça, é urgente que vá ao banheiro porque o n° 2 tem potência avassaladora.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 06 de fevereiro de 2024.

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