O
caminho das pedras
Quando batem à porta, sou tomado de euforia.
Não ligo que batam na porta errada, que estejam procurando outra pessoa. Vou
ligeiro abrir a porta, para que aceitem o convite e sentem-se um instante, nem
que seja apenas o bastante para um café.
Tornam a bater, nem tinha percebido que
fiquei sentado. Acho bom que estejam enganados. Quero que desistam e não batam
mais. Quero muito ser deixado em paz.
Não quero acabar nervoso. Vão embora. Vão
bater na casa ao lado, pode ser que lá esteja quem procuram. Façam a gentileza,
esqueçam que estou em casa.
Resolvo escarafunchar os subterrâneos de
certas escolhas que fiz. Não cobro de mim explicações. Quero entender por quais
razões tenho certo pânico quando ouço batidas na porta.
Basta-me a prudência de confiar no que
vejo, que as câmeras que monitoram o quintal não são traiçoeiras, pois elas
estão operando bem, mostrando a realidade sem manipulações de algoritmos
pirados.
Se máquinas não alucinam, também não me
quero alucinado.
Uso-as fiando de que funcionam
normalmente, dentro do esperado, até porque não penso ser surpreendido por
anomalias. Quero usá-las sem temer que eu morra usando-as.
Eu me amo e quero viver bem assistido
por máquinas, seja por ar-condicionado, celular ou câmera de monitoramento.
Morrer de amores por máquinas, não
morro. Assim como o oposto, viver de amores por elas, isso também é um exagero.
Pode ser que haja quem viva de amores
por seu Opala 79, mas não conheço quem leve uma vida tão extremada. Não é
porque não sei de gente assim que não exista quem se importe com polimento e
lavagem de um automóvel que sequer tenha motor.
Pode ser que eu não passe de um mané,
cuja existência é avaliada medíocre pelos vícios que gosto de tê-los, pois vícios
dão alegrias.
Sei que não faço boa figura quando não
atendo a porta. Mesmo que me procurem durante o horário comercial, não às seis
da matina, gosto de acompanhar as reações de quem bate à porta.
Esse jogo é viciante, pois o que
pressinto me arrebata.
Haverá sorriso amarelo? Puxa vida, eu
tinha saído.
Irá franzir a testa? Caraca, o Mengão
ganhou.
Baterá até cansar? Nessa hora, eu tomava
banho.
Nem moro no Rio nem torço por outro
clube que não seja o amado clube brasileiro, o meu Tricolor Paulista, mas
sempre torço pela vitória do Flamengo. E fico tiririca quando o Urubu perde.
Longe dos olhos de terceiros, vibro junto
com o goleiro que defende um pênalti. Mesmo treinado, o goleiro que pretende
deixar o seu nome na história precisa fazer o melhor, não apenas tentar
fazê-lo.
Diante desse momento único, ridícula é a
pessoa que nunca larga o celular. Gravando a partida, a idiota só vê o que passa
pela lente de uma bugiganga.
Como hoje é o Dia da Saudade, recordo-me
da final que ouvi pelo rádio. E peço vênia a você, flamenguista que me lê:
Salve, Mazarópi! Bingo! Salve o campeão
de 77!
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 30 de janeiro de 2024.
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