Momo
Alegre,
Nesse tempinho atrás, antes da Covid-19,
o carnaval começava na sexta e terminava na quinta. À quarta-feira de cinzas eu
atinava de me revelar esse folião que não aceitava ser intimidado nem pela
quaresma nem pelos quaresmeiros.
Ao farrear por um dia a mais eu dava
evidência de que a carraspana que me embalava era fruto do consumo de outras substâncias
que não somente cerveja.
Não desqualifico como adivinho perspicaz
quem fareja as toneladas de anfetaminas que, ainda hoje, circunvagam em mim.
Em outras palavras, os dias de
embriaguez desnorteada ensinaram que posso falar o que um sujeito cordato pode calar.
No mais, desatino se me impelem a murmurar o que esperam, seja por um dólar,
seja por um barril de rum.
Ouço o que é dito porque aprendi a ser espirituoso,
embora nunca tenha querido encarar, numa barrica, as Sete Quedas.
Podem rir da prudência. Riam o tanto que
têm pra rir. Vou debochar de quem só me escuta quando a minha sobriedade me faz
dizer o que acreditam que precisa ser dito.
Embora o carnaval seja uma festa de baixíssimo
custo, cobram que me cubra com panos patrocinados, que não repise velhas
marchinhas, que eu reconheça o “não” dito a ser ouvido como “não”.
Nem tudo tem clareza. Havendo furo,
mergulho. Faço mais fundo o buraco porque gosto de especular. Sempre há
entrelinhas pelas quais navegar. Quando o silêncio é quietude, trato de preencher
as lacunas. E sondo o que não está vazio. Sondo o que se apresenta como estando
esvaziado. Contudo, as ironias cavam brechas no cinismo.
Eu frevo porque não sei frevar. Não fico
de bico calado pra apreciar sereia que canta em oceano coreográfico, eu também
canto junto; saio em blocos que atravessam a marcha; na cozinha de casa, batuco
como batuqueiro fazendo da faca uma baqueta e do prato, um prato.
Sem sentimentalismo, aproveito a festa
pra escutar o coração: bate esse amor por trens. Para que sejam exaradas minhas
más intenções, mormente pelo trem da alegria, basta-me rir, em riso líquido.
Por picardia, inalo gás hélio. Por óxido
nitroso, vou a dentista.
Agora lacrimejante, transpiro alegria por
1999. Arrumo meus óculos escuros, pois é deslumbrante a luz da Serra da
Graciosa. Estupendo é viajar à janela, rumo ao barreado bem cozido que Morretes
oferece ao desfrute. Na Ilha do Mel, bebo dedos e dedos desse néctar que abelha
não destila. Zureta, nesse carnaval que ainda posso experimentar, me pego
transitivo.
De momento, todavia, o que vivo, o que
está vivo em mim, é essa lembrança de ter apagado na Barra Funda, de ter varado
a madrugada desse domingo do Carnaval 2000.
Apesar de estar sentado sozinho,
chumbado de tanta garapa, ainda assim acordei com a carteira no bolso, os
óculos na cara, a passagem pra Pasárgada na mão; com o ônibus na hora.
Não correm, fluem. Flutuam, meus icebergs
calientes.
Cordialmente folião,
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 11 de fevereiro de 2024.
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