Coração
alado
É humano ter apreensões; sondá-las,
também.
Não as compreendo inteiramente. Sofro apagões
desconcertantes. Ainda que me resguarde ou tente resguardar-me o tanto que eu
possa, atormentam-me miasmas animais, vegetais, minerais e artificiais.
Ainda há pouco, na escuridão da
madrugada, uma quentura veio de repente. Percebi que havia algo a direcionar
meu interesse. Senti esse espectro no escuro do quarto, no íntimo muito escuro
de mim.
Em subterfúgio tão silencioso, restava morta
uma barata.
Quis ajuda e fui ajudado. Fiz a leitura
até que os olhos informaram: baratas que não se sabem mortas seguem mordendo
papéis, plásticos e neurônios.
Diante desse diagnóstico, estou corroído
por dentro.
Perturbado em meu ceticismo pelas manifestações,
provavelmente, anímicas, me sujeito aos remordimentos morais e meu cérebro
aponta como veneno às minhas excitações, o celular.
Há sinapses que indicam a trilha a ser evitada.
Farto das teimosias, espero escutar as canções que ontem escutei; ao ouvi-las,
darei saída ao cansaço de querer evitado o caminho, outra vez percorrido.
O quarto continua silencioso. O asco é
maior do que as ansiedades. Não penso na chinelada. Como devia ter tirado o
bicho, não me exulto. Pego o cadáver, jogo-o na lixeira e levo-a ao pé do poste.
Mesmo sem varrê-lo, abro o quarto.
Cotovia pousada no espelho, a alma inquieta-me.
Tenho cansaços camerísticos, sem arroubos sinfônicos, pois o que orquestra em
mim a percepção do momento é a sanha lírica das pedras.
Embora os meus olhos brilhem feito
esmeraldas acinzentadas, não diviso o caminho sob as folhas mortas. Ninguém me
conduz pela mão.
No espelho não há dúvida nem problema, pressinto
a eternidade.
Desde que optei pelo tempo, parei de ocupar-me
com rugas.
Não parei de envelhecer a partir do
instante em que parei de cultivar rugas. Não desnorteie, envelhecimento. Atrás
de mim, o rastro mostra coisas interessantes. Não encaro o mundo apenas pelas ansiedades.
Pés de galinha, achei de envelhecer passo a passo.
Por outro lado, gentes angustiadíssimas
têm grave envelhecimento, pois não conseguem parar de criticar carros-bomba,
drones de ataque e memes de nenês nas redes.
Também há grandes homens que não se restringem
a analgésicos, anti-inflamatórios e soníferos. Eles não vacilam, pisam barata
mortinha da silva.
Pessoas interessantes sabem que miolos
são lentes, aumentam ou diminuem. Quando repreendidas e avacalhadas, é bem chato.
Ainda que nem sempre a realidade chateie
com náuseas em quem mata barata, é para, instante a instante, ir sumindo o
cheiro dessa coisa seca que tantas casas são escancaradas.
Tocado pelo horror à ideia de ter no
mundo mais barata que gente, minha pessoa beira o pânico quando preciso ir confirmar
que, na lixeira posta ao pé do poste, a barata permanece morta.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 14 de novembro de 2023.