terça-feira, 14 de novembro de 2023

Coração alado

 

Coração alado

 

É humano ter apreensões; sondá-las, também.

Não as compreendo inteiramente. Sofro apagões desconcertantes. Ainda que me resguarde ou tente resguardar-me o tanto que eu possa, atormentam-me miasmas animais, vegetais, minerais e artificiais.

Ainda há pouco, na escuridão da madrugada, uma quentura veio de repente. Percebi que havia algo a direcionar meu interesse. Senti esse espectro no escuro do quarto, no íntimo muito escuro de mim.

Em subterfúgio tão silencioso, restava morta uma barata.

Quis ajuda e fui ajudado. Fiz a leitura até que os olhos informaram: baratas que não se sabem mortas seguem mordendo papéis, plásticos e neurônios.

Diante desse diagnóstico, estou corroído por dentro.

Perturbado em meu ceticismo pelas manifestações, provavelmente, anímicas, me sujeito aos remordimentos morais e meu cérebro aponta como veneno às minhas excitações, o celular.

Há sinapses que indicam a trilha a ser evitada. Farto das teimosias, espero escutar as canções que ontem escutei; ao ouvi-las, darei saída ao cansaço de querer evitado o caminho, outra vez percorrido.

O quarto continua silencioso. O asco é maior do que as ansiedades. Não penso na chinelada. Como devia ter tirado o bicho, não me exulto. Pego o cadáver, jogo-o na lixeira e levo-a ao pé do poste.

Mesmo sem varrê-lo, abro o quarto.

Cotovia pousada no espelho, a alma inquieta-me. Tenho cansaços camerísticos, sem arroubos sinfônicos, pois o que orquestra em mim a percepção do momento é a sanha lírica das pedras.

Embora os meus olhos brilhem feito esmeraldas acinzentadas, não diviso o caminho sob as folhas mortas. Ninguém me conduz pela mão.

No espelho não há dúvida nem problema, pressinto a eternidade.

Desde que optei pelo tempo, parei de ocupar-me com rugas.

Não parei de envelhecer a partir do instante em que parei de cultivar rugas. Não desnorteie, envelhecimento. Atrás de mim, o rastro mostra coisas interessantes. Não encaro o mundo apenas pelas ansiedades. Pés de galinha, achei de envelhecer passo a passo.

Por outro lado, gentes angustiadíssimas têm grave envelhecimento, pois não conseguem parar de criticar carros-bomba, drones de ataque e memes de nenês nas redes.

Também há grandes homens que não se restringem a analgésicos, anti-inflamatórios e soníferos. Eles não vacilam, pisam barata mortinha da silva.

Pessoas interessantes sabem que miolos são lentes, aumentam ou diminuem. Quando repreendidas e avacalhadas, é bem chato.

Ainda que nem sempre a realidade chateie com náuseas em quem mata barata, é para, instante a instante, ir sumindo o cheiro dessa coisa seca que tantas casas são escancaradas.

Tocado pelo horror à ideia de ter no mundo mais barata que gente, minha pessoa beira o pânico quando preciso ir confirmar que, na lixeira posta ao pé do poste, a barata permanece morta.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de novembro de 2023.

domingo, 12 de novembro de 2023

Carinha de quero mais

 

Carinha de quero mais

 

Basta que eu facilite, que ceda um instante ao disparate de não me contrariar enquanto sonho que eu estou sonhando.

Se fosse simples, seria simples, mas não ando sonhando que estou sendo simples enquanto caminho na direção desejada.

Quando não sei por que estou indo em frente, é aí que não paro.

Se não me viesse a vontade de urinar, continuaria dormindo com o pescoço forçado no desvio da vértebra. Ou seja, seguiria estimulando o desconforto, continuaria aumentando a sensação de desconforto, eu seguiria sendo o agente do sofrimento que a mim me fustigará quando eu for urinar.

Deixe-me ir, ô diabo, que preciso mesmo dar uma mijadinha.

O diabo põe-me dengoso quando estou tentado a falar do que não gosto, então, seu danado, não falo do que não gosto porque aceito sua influência, seu magnetismo.

Deixo-me ir por onde queira que eu vá; ele fica aperreado.

Comigo ao seu comando, quem sofre é ele, porque quem gosta de sofrimento não sou eu. Ele tenta não sentir o tanto que gosta de sentir-se sensível à dor que poderia afetar-me. O danadinho dengoso adora tudinho que o desgosta a ponto de gostar-se tão sofredor.

Ô diabo que não gosta de mim quando o acato, eu deveria recusar as suas ofertas, deveria contestá-lo, contrapor-me a suas demandas?

O aperreado desconversa, diz que não o entendo, não estou sendo correto quando digo que o compreendo e aprovo. Ele me assegura que distorço o meu papel apenas pra espicaçá-lo.

Demônio contrariado, diga que minha frivolidade me faz beber água usando as mãos em vez dos pés. Sombra que vocifera, seja racional, mefistofélico, radicalmente calculista, pois minha porção de gente feliz quer deixá-lo feliz na sua rebeldia.

Acordo com a nuca dura. Estou obrigado a ir ao banheiro sem girar o pescoço. Estou ciente do que fiz: deitei-me incomodado mas não fiz o certo, que seria ter deitado de costas.

Acordo agastado comigo.

Não volto pro quarto. O sono me pega na poltrona.

Contemplo-me, sonhando. De olhos abertos, ando. Contemplo-me que estou sonhando que caminho. Dormindo de olhos abertos no meio da rua, dou-me conta das tarefas, trabalho o sonho.

Sou esse sujeito que trabalha sem sentir cansaço.

Canseira dá essa contemplação, que posso acreditar-me um cara de sorte, um camarada forte, uma pessoa obcecada.

Observo-me: parado na esquina, parado um instante, não consigo influenciar-me à fortaleza.

E a realidade percebe: trabalho para não me cansar.

De fato, que soe a campainha para acordar-me.

Recebo visita. Ela chega dizendo que a lasanha de berinjela foi feita especialmente pra mim. Como não gosto de berinjela, faço questão de comer um pedacinho bem na sua frente.

Feliz comigo por ter aprovado seu quitute com a carranca de quem gostou pra caramba, como um emoji simpático, eu arremato:

ꟷ Ô mão abençoada pra trazer uma iguaria tão divina.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 12 de novembro de 2023.

quinta-feira, 9 de novembro de 2023

O fio da meada

 

O fio da meada

 

Percebo um certo desprezo, mas atravessei a rua. Embora estejam rindo às minhas costas, vim pra cá sem pressa ꟷ uma vez que há uma lombada, a velocidade dos automóveis está baixa.

Depois de cruzada a rua, entendo-me com esta percepção; tanto a entendo desprezível que nem encaro as pessoas do lado de lá. Porque dei com a fuça num fio esticado barrigudamente entre um poste e outro, elas têm motivo para rir.

Deste fio, protegeram-me os óculos. É da minha indiscrição que não estou protegido: dou uma olhadinha envergonhada, aquela espiadinha de curioso, de rabo de olho: como a vida sabe ser decepcionante, vejo que ninguém mais está rindo.

Com mais ninguém interessado em mim, pensaroso como sempre, vou de olho no que piso. Sem temer por minha vida, volto pra casa.

Já que a ventania não é ardilosa, não a culpo pelos ciscos nos meus olhos ꟷ como a poeira é do mundo, acerte-se consigo, mundo.

A culpa é dos meus olhos. Se estivessem olhando além, certamente eu enxergaria o que uma árvore esconde.

E não falo das folhas secas derrubadas dos galhos, porque o vento enfrenta os obstáculos, suplanta-os. O vento não teme desafios porque sabe aonde quer chegar: às pás do moinho; às pás à beira-mar.

Precisamos pavimentar, asfaltar. Precisamos de calçadas. Pra que os fios bailem no ar sem que os acusem de ceifadores, os postes sejam mais altos. Para que prédios não sejam humilhados pelos postes cada vez mais altos, edifícios sejam construídos sem medo, eles sejam mais e mais encorpados. Porque o reino do grandioso tem que ser glorioso, precisamos de monstrengos que não temam a própria monstruosidade. Pra que porquinho convide porquinho pro cafezinho, não abjuremos o vidro, o aço e o concreto. Planejemos o que havemos de planejar.

Todavia ꟷ com problema pra associar nome a rosto conhecido?

É neste ínterim que me revelo essa pessoa amável, sociável, capaz de dar atenção a quem me chama pelo nome, me identifica em voz alta e diz que fazia tempo que não nos encontrávamos, nos abraçávamos, que podíamos rememorar algumas de nossas lutas inglórias.

Porque fomos rapazes de beber além da conta, pendurávamos em quem afiançasse nossa voragem. E bebíamos até a chuva passar.

Amantes da picanha, churrasqueávamos de quando em quando, ao léu de nossos boletos abduzidos, pois vão de porta tem esse hábito de soprar pra debaixo do tapete o que segue preso à folhinha.

Não vejo problema: abraço, rememoro, topo um churrasquinho.

Há pessoas que alegam dor na consciência porque estão mudadas, porque deixaram de ir a festas; que alegria é ter mudado, porque tenho dor de cabeça se não tenho seis horas de sono.

Há gente que diz odiar gente que a embarace; essa gente é gente exagerada, afinal: perder a graça não é cair de bunda, é razão para rir do ódio que não sente.

Doido varrido, culpo São Pedro por cinco dias no escuro.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de novembro de 2023.

terça-feira, 7 de novembro de 2023

Bom garoto

 

Bom garoto

 

Quando a Cidade Eterna foi fundada?

Perguntaram, mas o problema é que responderam.

Ao ouvir a resposta, desdenhei. Sempre que eu desdenho, atazano-me. Se tivesse sido sarcástico, quiçá o desdém reverberasse na minha cachola de maneira mais luminosa. Indubitavelmente, o sarcasmo põe-me opaco, pois me suga ao humor que ofuscaria os demônios.

Como os demônios brilham, logo troco de pele.

Na verdade, nego aos outros o que a mim nem sei como me negar, que talvez eu devesse falar mais, que eu sofra menos por ficar de boca fechada quando tenho com o que contribuir, que forçosamente calado violentar-me-ia como pessoa.

De verdade, embora não comente o que falam por aí, não paro de especular sobre os uivos que escuto. É diabrura achar que me expor à lua é maluquice. Ainda que o luar afete o fluxo das ideias, esconderia melhor as minhas garras.

Quando o homem aflora, sacrifica-se a ovelha.

Será misteriosa a transformação por influência do mundo? Por que não atino de onde me vem o ímpeto carniceiro? Por que recuo quando estou às portas de outra resposta?

Quando tiro da cumbuca a lama que recobre o rosto, sorrio maroto, levemente endiabrado, sossego-me de algumas taras, nem as nomeio, penso nos guarás do Caraça, os de muros adentro e os de afora.

Eu falo de mistérios, lama misteriosa? Que nada.

Falo do espelho que enruga; do micro que estupefaz; do celular que confunde; da página que aprisiona; do fato que escala até o fundo; do lodo à tona; da pele recoberta por sedimentos de sentido, sentimentos doridos, assoreamentos pela miopia das retinas; até do lobo que lambe a faca, sangra e sofre; falo dessa dor afiada que fala ao poeta.

O poeta amestrado é lobo que finge canhestramente ser o cordeiro a balir vontades às portas da intoxicação. E suas vontades balidas não são tóxicas nem fundamentais, dão sono.

Erroneamente, o poeta acha que o casaco de lã diz à memória que o sol de 21 de abril também faz suar os albinos da Europa.

Tolo, o poeta pensa que os lobos de Minas comem mocotó.

Lupino, o poeta escreve um verso, escreve outro, funde os dois, e nada feito. Descontente e arisco, ele permanece à espera da lama que lhe mascare os desejos, à espera do lodo que o revele ovino.

Quem choca o ovo da serpente?

Três dias depois do temporal, do vendaval da tempestade, o poeta enlameado escreve no escuro, e continua sem banho.

Alegremente, o poeta sobrevive ao fim dos tempos, embora o lobo do poeta uive à TV. Alegremente, o uivo volta da TV como resposta à inocência do lobo. Inocentemente, o poeta pensa que comer o lobo que o come é o mesmo que amamentar-se pelo espelho.

Poeta renegado, quem imita o lobo e destroça o poema merece cem anos de perdão?

Ao poeta fala a loucura:

ꟷ O que os meus caninos sangram, o seu tormento não cura.

E o que fundamenta a alucinação renegada do poeta?

Remo e Rômulo, não falte vinho às tretas.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de novembro de 2023.

domingo, 5 de novembro de 2023

Boca maldita

 

Boca maldita

 

Putisgrila, estão gritando. E a desgraça é que ninguém sai gritando de madrugada quando é dia de semana, então, acharam de vir berrar nos meus ouvidos justo no feriado.

Freguesia, bananas, abacaxis e laranjas estão quase de graça. Se não acredita, venha conferir. Mas venha logo, porque o caminhão das pechinchas está saindo. Freguesia, corre, corra, venha! Para já ir, é só o moço dar o troco. Estamos indo, freguesia. Banana, abacaxi, laranja, está tudo muito barato. Corre, corra, venha logo, freguesia!

Haja goela.

Quando era garoto, com o vendedor advertindo que aquilo era peso demais para criança mirrada, o sábado era reservado a torrar em frutas os cruzeiros que mamãe dispunha para que a sacola ficasse cheia.

Pelas lembranças do guri mirrado que não sossegava nem depois de ter esfolado os joelhos, conheci minhas fragilidades sem saber que criança feliz nem calcula o que seja infância.

Quando sou forçado à reação, felizmente sigo infantil, birrento, faço bico, franzo a testa e fecho a cara.

Madrugadores, hoje é Finados.

Vocês bem que poderiam não ter vindo perturbar minha paz, porque o que nem imaginava neste feriado é ter sido acordado pelos anúncios de pencas baratas, unidade dulcíssima, dúzias do mais melífluo néctar, pois o que eu menos esperava é ter perdido um segundo de sono com gente muito viva que não deixa as oportunidades passarem.

Madrugadores, vocês deveriam espelhar-se nos mortos que pedem apenas que, uma vez ao ano, pensemos neles, e só neles.

E que possamos avaliar o que fizeram conosco, o que fizemos com eles, o que faremos conosco a partir do que deles pensarmos.

Contudo, o caminhão não veio num sábado, veio em Finados.

Com laranja a preço de banana, quem saboreia abacaxis?

Embora ache graça ao espiar-me enquanto faço a barba, não sorrio mas faço caretas; por distraído, corta-me a navalha.

A navalha que servira ao meu pai, agora ela me fere.

Para estancar o sangue uso a espuma do sabonete: isso quem fazia era o meu pai; isso funciona porque acredito que funcione: e da ferida, pai, mais uma vez não sai sangue.

Como não sei contar piada, prefiro anedotas.

Lembro-me, três caras entraram num bar: o bacana diz horrores de quem fala barbaridades; quem se recusa a dizer barbaridades mesmo de quem fala horrores é o sacana; é o cara legal que pede paciência a quem pensa que paciente é quem nem sabe a força que tem.

Entendo o que estou tentando dizer.

Uma vez que Deus está nos detalhes, sou detalhista: entre a cama e a janela, o tapete; entre o tapete e a janela, a cadeira; entre a cadeira e o caminhão, a janela; entre a janela e o caminhão, a boca.

Apesar de toda deferência pelos vendedores de abacaxi, o franzino franzido pede que parem, tenham dó, imploro que fechem a matraca.

Eles não param, não se apiedam nem cortam o megafone.

ꟷ Vão pro inferno, filhotes do capeta!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 05 de novembro de 2023.

quinta-feira, 2 de novembro de 2023

Confissões de um comedor de bacon

 

Confissões de um comedor de bacon

 

É feriado, gente boa. Putisgrila! É feriadão prolongado.

Eu poderia chatear com muita coisa que é preciso debater, discutir, ratificar, retificar, coisa que não dá para deixar pra depois do chope, da pizza, do virtual campeão apurado no Engenhão.

Mas, gente boa, você fique em paz, que também não vim pedir-lhe que abone alguma reflexão extravagante pela qual me expresse mal e cause indignação, revolta, desperte em você a vontade assanhada de mijar na minha roseira.

É feriado, gente boa. Maravilha! É feriadão prolongado.

Em paz, esqueça guerras, a meta fiscal, a prometida ida do Papa à COP, e supere o espaventoso da virada do verdão no Tapetinho.

Gente boa, você não abra mão da tranquilidade, que não estou aqui pra manipular o seu entusiasmo, sua euforia, sua atenção, porque você não tem que receber o vil tratamento de quem seja público, audiência, doador de um realzinho a mais na minha conta.

É feriado, gente boa. Cáspite! É um feriadão prolongado.

Gente boa, você trabalha honestamente, gosta do que fabrica, tem orgulho de fazer um automóvel, é vaidoso quando vê o veículo rodando nas ruas, sente-se confortável por sabê-lo moderno, com airbags, freio a disco, um troço porreta, porquanto meio elétrico, meio a gasolina.

Você labuta arduamente, ardorosamente, porque ama os canaviais, ama essa caninha brasileira, boa de plantar, colher e ser destilada.

É feriado, gente boa. Caramba! É um feriadão prolongado.

Todavia, você se recorda, pode desconsiderar-se responsável pelo cachaceiro alucinado que trafega pelas avenidas, rodovias e infovias, porque cultiva minhocas na cachola.

Entranhado cachaceiro, suas minhocas arribam-no ao pedestal azul da planilha, pois tiram angústia, depressão e viés camicase.

É feriado, gente boa. Carambolas! É feriado prolongado.

Gente amiga, se me considera uma pessoa apta a merecer perdão, embora na surdina, no abafadiço dos meus silêncios, esteja em guerra, às armas, embora faça mortíferas as minhas mãos, perdoe-me.

Camaradinha, gente boa, fique sabendo que não recuo de tapas de mão aberta e sopapos sorrateiros, não temo noites em claro nem nego meus dias de cochilo mesmo em cadeira de assento duro.

É feriado, gente boa. Maravilha! É feriadão prolongado.

Gente boa, gente amiga, sou humano, fraquejo, me envergonho de mim por minhas pusilanimidades, sou uma pessoa sensível, tenho para mim que lhe pareço um sujeito vigoroso, mas não sou cidadão de fibra para ignorar o zunzunzum de um pernilongo.

Depois de outra noite dedicado à eliminação desse monstro que me quer desequilibrado, você sabe, o corpo humano não sobrevive a seis dias sem água, mas à minha mente, para me convencer de que posso ficar mal-humorado, bastam três madrugadas sem dormir.

Sei, porco esmeraldino, tem feriado que não me cai bem.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de novembro de 2023.

terça-feira, 31 de outubro de 2023

Mais uma chance

 

Mais uma chance

 

A menina bateu, e aguardou. Com mais força, tornou a bater. Sem paciência para esperar, ela bateu e bateu.

Ficar batendo era inútil, uma vez que aquela porta era igualzinha à do quarto dos pais, que gostava de ficar trancada sempre que trovões arrancavam-na da cama dos sonhos.

Com medo dos clarões, quer que seus punhos virem machado para abrir passagem. Com tantos raios, implora ser abrigada entre o pai e a mãe. Com todas as suas forças, desespera a esmurrá-la.

Apesar daquele estardalhaço, ninguém apareceu.

Já que a chuva tinha engrossado, a menina colocou a assadeira no capacho em que estava escrito: ‘lar de gente feliz’.

Essa gente ficará mais feliz com o bolo de cenoura; feliz e satisfeita, pois o bolo de cenoura tem um toque especial: em vez da cobertura de chocolate, está coberto com coco, com o recheio de coco que torna os bolos de aniversário irresistivelmente saborosos.

A menina levantou o papel-alumínio; aqueles pedacinhos a fizeram salivar. Pra resistir àquela vontade, precisava ir embora, mas não tinha como ir-se dali porque a chuva estava bastante forte.

É preciso lucidez pra resolver problemas sérios. Mas pessoa lúcida não implica que esteja serena. Embora sofra antes de decidir-se, tendo em vista o pior que pode acontecer, é preciso querer o menos ruim.

Se fosse embora debaixo daquela chuvarada, levaria bronca pelas suas roupas ensopadas. Então, até que a chuva diminuísse um pouco, o jeito seria balançar-se na cadeira da varanda. Se sentasse sem pedir ordem, a gente da casa iria passar-lhe um pito. Tomar sabão era muito injusto, só porque estava balançando, isso não era para tanto; além do mais, o aguaceiro vinha do céu, ela não tinha como controlá-lo.

Nisso, veio um cachorro abanando-se à garota.

Porque gostou da companhia, afagou-o, chamou-o de amigão, quis colocá-lo no colo, mas o bicho foi bisbilhotar a coisa à porta.

Ele farejou que aquilo era algo comestível. A pata serviu para rasgar o papel-alumínio. Pra abocanhá-los, o focinho soltou tijolinhos de bolo. Sem ‘au-aus’ a denunciá-lo esfomeado, enfarou-se.

Com o celular, a menina gravou tudo.

Aquele cachorrinho era mesmo esperto. Tão logo sentiu o cheirinho de coisa boa, devorou a maior parte. Ele fez o certo, pois o vento faria com que a chuva estragasse o bolo.

A chuva diminuiu e ela correu pra casa.

Assim que a viu encharcada, com palmadas na bunda, a criança foi surrada pela mãe.

Ela não tinha nada que ficar mostrando gravaçãozinha de cachorro ou ficar inventando que tinha feito algo bom, porque não tinha nada de ter dado o bolo prum vira-lata de rua.

Ela fosse se enxugar, mas a menina correu pro seu quarto, trancou a porta, pulou a janela e foi sentar-se na jabuticabeira.

Sem casa na árvore, pôde esconder-se atrás das folhas; quietinha, iria provar o seu ponto, que as roupas secam por conta.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 31 de outubro de 2023.

domingo, 29 de outubro de 2023

A roupa do corpo

 

A roupa do corpo

 

Sobre a minha reserva, sou discreto. Mesmo que não me convenha, emudeço, fico retraído; já os fanfarrões mostram-se satisfeitos consigo; enquanto eu me absumo, espalhafatam-se.

Em meio a bruxos e mestres da natureza, faço a mágica de não me entregar à vaidade, vou vivendo. Pra não me apagar inteiramente, sigo existindo. De desaparição em desaparição, deixo migalhas.

Posso sumiços; e assentir-me poderoso, alegra-me.

Embora não sejam mágicos, meus poderes são potentes; tanto são que, atônito, fico convulsionado, bestificado, de queixo caído.

No esplendor de fazer-me tímido, recluso na tartamudez, torno-me observador concentrado no que vai pelo entorno; tanto me desconcerta o mundo que apuro o juízo pelo que avivo, à flor de mim, desabrochem idiossincrasias cristalinas; e deveras sensibilizado, tamanho o realismo da contenção, percebo-me: não sou mármore que respira.

Respiro mas sorrio a quem respira. Serenamente respiro; e cheguei a tal estado porque é deplorável quem vive na obsessão: a serenidade gere felicidade.

É feliz quem persevera no caminho da felicidade? Não creio.

Estou no mundo; e na ventura do instante, vivo e sobrevivo. Aceito a felicidade enquanto dure; só as frustrações martirizam-me; já que são efêmeras as decepções, consigo transformá-las ou superá-las.

Não é preciso um bom motivo para uma pessoa acreditar que possa imaginar-se o centro de cenas grandiosas, feito herói em ação.

O mundo basta a quem o observa, ele é real. Por ser real, o mundo não consola o cidadão. Pela realidade não ser bastante, o cidadão que tece linhas mentais usa da indivisibilidade pra notar o quanto às vezes o bem produz o mal e o mal, porventura, faz o bem.

No maniqueísmo dessa percepção, a fila do caixa anda.

ꟷ É azeite?

ꟷ É mel.

ꟷ Quanto custa?

ꟷ Não sei.

ꟷ Você compra as coisas sem saber o preço?

ꟷ Prefiro adoçar a vida naturalmente.

ꟷ Quer dizer que açúcar é química que prejudica a gente?

ꟷ Ele custa R$ 23,45, senhora.

ꟷ Que caro!

ꟷ O mel de casa empedrou, o senhor sabe como fazer voltar?

ꟷ Amiga, mel empedrado está estragado.

ꟷ Moça, é só colocar o mel cristalizado em banho-maria que o calor o deixará liquefeito novamente.

ꟷ Então, o mel ainda está bom?

Entre a ganância e o ressentimento, a máscara detestável que não uso é a de intermediário. E uma vez que não me seduzo a apaziguador ou a belicoso, converso com os meus botões.

“E as abelhinhas? Ninguém se preocupa com o aquecimento global matando milhares de milhões de abelhinhas mundo afora; ninguém se condói pelas pobrezinhas. E as pessoas têm orgulho de trabalhar pelo próprio sustento, e fazem questão de dizer que precisam ralar pelo pão de cada dia. As ignorantes reclamam do preço das frutas, lamentam a baixa qualidade dos frutos e não entendem a interligação de escassez e carestia.”

ꟷ Não tem nada pra dizer, padre?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 29 de outubro de 2023.


quinta-feira, 26 de outubro de 2023

Seres mundanos

 

Seres mundanos

 

Um alarme, na madrugada, denuncia: algo foi bolido.

Quisera não fosse acordado assim, por nada, por uma ninharia, por uma banalidade tão prosaica, mas eu fui.

Já que estou acordado e não consigo dormir, vou escrever.

“Queríamos muito ter dormido a noite inteira, mas a consciência tem razões abissais para bem nos abalar quando as aprouve bem.

“Uma vez escapulido o sono, nada há que nos dissuada de retomá-lo, de qualquer maneira recobrá-lo, nem que seja com a leitura do livro que encabeça a pilha de enjeitados.

“O marcador leva-nos à página donde o evadíramos. Recuemos a parágrafos que aprazariam atiná-lo pelo fio do sentido, e fomos falhos. O eleito à estatura de ultrajante é mágoa de nossas debilidades: fracos, não perseveramos; frouxos, sequer o repomos no monte; fracassados, reposicionamo-lo tampouco na estante.

“Venceríamos a contenda se houvéssemos entrado em campo com planejamento estratégico instituído, se preservássemos a organização ao longo do embate, se não abrandássemos da prévia bravura.”

Não fui acordado pela buzina, o ponto é o 5X0.

A equipe adversária dar um vareio no meu time, faz parte. A cachola dar uma canseira em mim, ela é dada a tais artes.

De fato, pelo que não desejara houvesse acontecido, a insônia me apanha ao breu da insatisfação. Colhido na floração do desalento, dou-me desamparado. Pela lembrança frustrante, sinto-me goleado.

Na escuridão que me oculta à mobília, permaneço sentado. Calado, não me aquieto nem me silencio, quero-me menos raivoso, mais tênue, sereno, melancólico.

Quero este estado mundano, um corpo na cadeira, uma pessoa no escuro. Indubitavelmente, me quero lembrado do dia seguinte.

Mas as pálpebras não colaboram. Mesmo fechadas, percebo meus olhos arderem. Não há grãos de areia nos meus olhos, mas o cansaço é essa areia.

O que me cansa é o sono que não vem, e lembro o clássico. Sinto-me transpassado pelo instante, pela implacabilidade do instante vivido que fica a reviver porque não me esqueço dos eventos recentes.

Queria ter entendido que desmaiava, e não houve desmaio. Queria o breu a envolver o quarto inteiro, mas não sou lâmpada apagada. Quis ter gerado energia suficiente para sonhar que recobrava os sentidos, e continuarei sonado por mais um dia.

Embora o cansaço inspire um futuro sombrio, a aurora já vem.

Outra jornada, mais uma vez. Todavia, o mesmo. Nas incertezas de caminhante, a mesma pessoa. Outro ser, eu mesmo, porque me quero gente disposta a descomplicar. Pelo que me possa, eu simplifique. Pra que me entenda, apesar de mim, eu respire, e busque respirar de olhos abertos. Pois eu procure em mim o que me permita ser menos eufórico, alguém diverso desse torcedor desassossegadamente derrotado.

De novo, apegado à luz, deito-me: mundano e medíocre, só desejo dormir um pouco mais, só isso, sim.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 26 de outubro de 2023.


terça-feira, 24 de outubro de 2023

Ribanceira

 

Ribanceira

 

Antes de sair, verifique, deixe as janelas abertas.

Não transforme o lar num antro de poeira concentrada. Você fica pê da vida quando o nariz coça que não para mais, tem uma saraivada de espirros e, bastante peíssimo, vira a lacrimejar, já abatido.

Antes de espumar por ter saído voltado para o trabalho, adiante-se, não seja relapso, pense na vaidade, sorria, seja indulgente, coce-se na cuca, espirre, e vá suar, se for o caso, até se ressinta de tanto suor por dia, ao mês, sendo já este ser tão precisado de férias.

Antes de almoçar, urine.

Conserve o sorriso, tenha paciência com quem deseja discursar na refeição. Isso é certo, dispor de uma horinha pra preservar-se facilita o entendimento. Compreenda, sua intolerância beira o ridículo; entenda, um copo de baba pouco afeta as forças que movem o mundo. O terror traz o abismo pra perto, cola-o à pele, ficam sangue e urina misturados à poeira do mundo. Mantenha suas mãos limpas; não fique encanado, lave-se, dê funcionamento às torneiras.

Antes de dizer-se otimista com o futuro da humanidade, previna-se, tenha lido os últimos comentários de quem está à mesa com você, seja radical, recorde-se de que cordialidade exuberante dá azia. Beba água, um suco, aceite aquela taça de vinho, o branco resfriado, recuse o tinto; não pense no balde de sangue, seu corpo é engenhoca movida a sete litros de sangue. É o caso, volte a urinar e torne a lavar-se.

Antes de descansar, dirija sem olhar as placas mas respeite o farol; volte pra casa como um canarinho, assobie e cante junto, a música vai conduzi-lo, você tem o trajeto memorizado. Seja leve, divirta-se, o carro não é cão pra achar sozinho o caminho; descanse, ponha a mente em ponto morto. Você traz um passarinho nas veias, assobie, não cerre os dentes, cante. Cuide-se, não viva na banguela, que vicia.

Antes de arrepender-se, grite.

Você faz tanta coisa sem precisar de automóvel, ande a esmo, tome um ar, veja quanta gente anda devagar. Não banque o chato, sorria a quem o procura só pela conversa-fiada. Poupe-se das palavrinhas que não abrem nem guaraná, sorria a quem precisa ouvi-las, considerá-las sábias. Solte-se, dialogue, converse numa boa. Saiba sorrir quando for necessário; seja um camarada bom de papo, dê linha à prosa de gente que liga quando a hora voa; e ser vento às pipas até faz bem.

Antes de fechar a cara, escute as histórias, ria das piadas; rir não é preciso, mas gritar? Só faça um escarcéu quando pressionado. E diga o que lhe parece sem sentido, relate o seu estranhamento, sua falta de inteligência para comparar um penico com um balde ou um copo; e se tivesse um peniquinho embaixo da cama, saberia quantos litros produz de noite. Uma vez que você não tem como calcular o nível de felicidade quando urina, emburre e dê os seus coices.

Mas, Zeca, não tire o pé, não coma a jaca, não seja jeca.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de outubro de 2023.

domingo, 22 de outubro de 2023

Banana amassada

 

Banana amassada

 

Papai, não se preocupe comigo. Estou bem. Não estou sozinho em casa, mas minha companhia não vai causar problemas. Como sempre, a solidão me acompanha.

É o anjo que não me guarda, é o ser que não me protege de minhas instabilidades, então, acho bom não insistir em querer-me mais calmo, assim, sem ter medo de mim mas arriscando estar enganado, vou ficar sozinho em casa.

A solidão alivia-me da pressão que aplico em mim, pois volta e meia eu corro, erro a mão, ponho peso onde não devo, nem deveria cutucar, mas a tentação é grande, seduz a enfiar a mão na cumbuca, e não sei se o caldo escuro do fundo é mel, preciso lamber o dedo para saber se o mel ainda é doce, delicioso, ou é o cheiro que engana.

De vez em quando, papai, nos momentos em que estou a ponto de cair no choro, a ansiedade por experimentar outra vez o que conheço me faz apreciar mais ainda a companhia da minha consciência.

Sem dúvida, a solidão dá consciência à pessoa que eu sou.

Quando vou desabar, perder o pé da realidade, quando vou chorar sem saber a razão, então, papai, a sombra que me sustenta na solidão desperta em mim a vontade de fumar um cigarrinho.

Eu não choro quando fumo, acendo um cigarro e trago uma ou duas vezes, tusso feito idiota e, de pronto, jogo-o fora. Não vou virar fumante de uma hora para outra porque a solução dos desequilíbrios não passa pela euforia, talvez pela dor.

Não sinto dor, papai, logo sei que a mim me penso.

Também não penso só em mim, penso nos outros e saio andar; vou fumar em ambiente aberto porque os outros têm outras dores.

Tomo o partido errado, o meu, pois sei que fumar faz de mim o meu próprio inimigo, mas me defendo, mesmo errado, porque sou cruel.

É por mim mesmo que volto a crueldade contra mim, é pra controlar meu lado revoltado, mas não ajo assim pra que as pessoas conheçam uma versão limpinha de mim, não quero que os outros saibam o quanto posso ser insolente.

Se sou companhia incompreensível, que a julguem os outros.

Papai, quando estou caminhando sem ninguém a me acompanhar, estou cuidando de mim e resguardando os demais, afastando-os desta minha faceta má.

Não preciso falar alto ou gesticular como se eu estivesse possuído, a mim me basta andar calmamente, tragar tranquilamente, nem preciso apagar o cigarro com a ponta do pé, nem imagino um alvo, apenas dou um peteleco e vou adiante.

Eu andei e voltei. Mas eu não voltei consciente de que o cigarro me satisfaz ao fumá-lo, voltei convicto de que estou certo de que fumar me prejudica de modo tão gostoso.

Papai, entendo que falar que estou certo dá motivo aos outros para dizer, orgulhosos, que conhecem um boa-praça que nem eu.

Pessoa boa e correta, não me negarei a agir como uma pessoa boa que não tem que sentir remorsos por fazer as coisas certas que precisa fazer.

Mesmo sem um cigarrinho na boca, varrerei pro lixo as baratas que atacavam a minha aveia.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de outubro de 2023.

quinta-feira, 19 de outubro de 2023

Um pouco de paz

 

Um pouco de paz

 

De segunda a sexta, a reforma da casa ao lado da minha é bastante barulhenta: as marteladas começam às sete; já o falatório dos homens começa antes, às seis e meia.

Quão poderosa é a magia dos homens. Ela me estimula a saltar da cama, porque os meus ouvidos alvoroçam quando percebem que o dia principia a precipitar seus eventos.

Enfeitiçado, sou útil e prático; e, uma vez alvoroçado, essa persona impassível força o viço: acuado em mim, meus dentes rangem e tenho língua cortante; diante de mim e de toda gente, insulta-me ter que lutar comigo até que, intratável, me afaste, eu recue, isole-me.

Prevendo cansaço e pressentindo o esgotamento, e porque não me apraz ser tirado do sono pelos negócios do mundo, tomo banho e bebo café antes que os tais tagarelas entrem na obra.

Na pausa do almoço, ontem, à porta do tapume estava um operário; desejei passar por ele sem comentar os efeitos dos ruídos sobre mim, mas a tagarelice pode ser astuta e revelar-se mesmo numa pessoa até no instante em que se imagina serena, de boa com o mundo.

Súbito vi-me vencido pela serra que bem cedinho cortava ferragens, admiti a imbecilidade de acreditar que pensamentos poderiam silenciar meus impulsos mais idiotas, tanto que me alegra pensar que cumprirei surdo minha estadia no inferno.

O sujeito não parou de palitar um dente qualquer até que sua língua percebesse-o limpo. Ele tirou o capacete; coçou o cocuruto da cabeça. Se poderia conceder explicações sobre o que tanto fazia no trabalho, livrou-se do palito com um peteleco. Sem sequer oferecer um, acendeu o cigarro que tirou do maço que trazia na calça. Tragou e tossiu. Livrou-se do fósforo com um peteleco. Novamente, tragou. Do meio-fio onde estava sentado, batucando no capacete, olhou-me.

Aquele olhar era expressivo, entendi-o.

Pensei no peso de um martelo e o quanto ficar martelando por horas todos os dias, de segunda a sexta, como era um serviço estafante. Era esgotante, cansava, e isso deixaria cansada qualquer pessoa.

O camarada não disse nada.

Sempre pensei que um operário deveria ser simpático com quem o apoia e lhe é simpático, mas aquele olhar me dizia o contrário, que era eu que o antipatizava, que eu estava atrapalhando sua hora de almoço, que a pessoa que o irritava naquele seu tempinho de descanso era eu, que sempre me vi como cidadão esclarecido, um defensor dos direitos dos trabalhadores, que eu sempre fui uma voz na luta pelas igualdades econômica e social.

Ele continuou calado, e fumante.

Precisei ser franco. Pedi que me perdoasse, porque aquela reforma estava dando-lhe pão. Se não tinha motivo pra aturar reclamações que julgava tolas, ele não perdesse a esperança de conseguir um emprego melhor, de salário maior.

Sem ver a hora no celular, atirou longe a bituca, repôs na cabeça o capacete e, portinhola adentro, a criatura sumiu.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de outubro de 2023.


terça-feira, 17 de outubro de 2023

Energia positiva

 

Energia positiva

 

Apesar de ser escorpião, acredito na realidade.

Circulo por aí porque as veredas que serpenteiam não implicam que minha labirintite dificulte os trânsitos do mundo.

Leio as placas e vou pela rua sem auxílio de bússola ou do sol.

Quando me perco, não me afobo, eu confio; o endereço virá ao meu encontro, não rezingo; o lugar vem dar comigo quando estou prestes a encontrá-lo, pois nele me encontro desde que saí buscá-lo.

E é por mim que saio por aí, e não vou sempre em frente, sou como os ponteiros de um relógio, só paro de circular quando acaba a bateria, falta corda ou quebra.

Como eu não quebro feito essa máquina que marca o tempo, posso ignorar os instantes quando durmo, mas a hora passa e o relógio segue funcionando, e eu, mesmo adormecido, também sigo.

Que coisa esplêndida é o ser humano, não é geringonça que roda, roda, roda e não sai do lugar.

Há gente que vai longe, voa por quilômetros, é criativa, usa a mente; pousa sem paraquedas porque tem trem de pouso, a fantasia.

Eu que não tenho asas nem viajo de avião, ando por aí, pelo mundo. Como não tenho necessidade de conquistar espaço nem preciso cavar um buraco que me abrigue, tenho o rosto lavado pelo vento.

Posso deitar na grama, maravilhar-me com o céu noturno e suspirar de amores quando me encanta uma estrela cadente.

Encantado, aceito que o sol, a lua, as nuvens condicionem a minha alegria, a minha tristeza, meu desdém e meus infortúnios, uma vez que me percebo suscetível aos campos de energia com os quais a natureza me sensibiliza.

Tocado pelo sentimento de estar no mundo, não escondo que tenho preferências e não me envergonho de anunciá-las: eu ando pela banda ímpar das ruas quando o sol bate implacável; não saio de casa quando chove, porque temo as calçadas esburacadas, desniveladas e as nem ainda assentadas, pois terra molhada vira lama e lama é traiçoeira.

Em suma, o mundo é uma arapuca.

Com tal ideia de armadilha na cachola, penso em quem a armou e, depois de uma espiada no espelho, reforço a ilusão: a pessoa que vejo vê apenas a mim, porque a mim eu me vejo quando ela me vê.

Se fôssemos gente íntima que não tem nada para revelar, eu ficaria bravo comigo, pois deveria contentar-me com a imagem vista.

Mas a infelicidade nada tem a ver com descontentamento nem com a mente fraca que não faz mover as nuvens.

A solução pro problema é simples: que a mente fraca leia os jornais, pois o farfalhar das folhas move o ar; com mais gente lendo horóscopo, maior a intensidade do vento; com a animação, o céu nublado fica azul e céu limpo vira chuvoso.

Ter tudo ao gosto do freguês é justo.

E freguês conta com que a rua leve à praça, na praça haja ipês, nos ipês haja canários cantores; sem ‘a’ nem ‘agá’, a previsão não falhe.

Conforme desejo ter demonstrado: acredito, a mente move moinhos assim como a lua, marota que só, controla mares, marés e maremotos.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de outubro de 2023.

domingo, 15 de outubro de 2023

Menino triste

 

Menino triste

 

Duas crianças brincam em casa. Meninas e meninos jogam na rua. Sem saber quem trouxe a bola, uma mulher e um homem divertem-se com a pelada que as meninas e os meninos disputam. O tapete, a sala e a varanda em que uma cadeira balança levemente com o vento estão na casa em frente daquela em que a senhora e o senhor vibram a cada bela jogada. Quanto à bola, as duas crianças, que não trocam o tapete pelos abraços nem ligam de sabê-la esférica e chutável, ambas não se importam com outro brinquedo a menos no porão.

E a gritaria não para. Quando sai gol, gritam de alegria ou reclamam da marcação. Quando há falta, porque a fizeram e porque a marcaram, a gritaria é de quem não tem razão e, até mais intensa, de quem a tem. Pois os gritos, a vontade de vencer, os dribles, as botinadas e o calão produzem tamanha euforia e muitíssimo entusiasmo.

De tanto gritar e querer vencer na marra, as meninas e os meninos da pelada da rua despertam o selvagem que toda pessoa faz de conta que nem traz dentro de si.

A selvageria a céu aberto não tem obstáculo que a impeça de subir. Lá no alto, o alvoroço faz São Pedro parar com os seus afazeres. E ele vem dar uma espiada no que está acontecendo sob suas barbas. E ele não hesita e não se excita, ele resolve de pronto: manda chuva.

Se fosse apenas água caindo dos céus, ninguém se importaria.

Há ventania, portas batendo, alarmes disparando, nuvens sombrias e nuvens totêmicas, há clarões instantâneos, estrondos chocantes, há mães espavoridas, papais estapafúrdios e avôs estrambóticos que, de todo comovidos, não têm como evitar os espasmos e espaventos.

Os otimistas, pessoas que se sensibilizam positivamente diante dos assombros do mundo, opinam que o temporal é ótima providência, por interromper o fluxo das faltinhas à pancadaria animalizada.

Bons escoteiros que não juram à toa, os pessimistas não duvidam que a tempestade despejada por São Pedro é pra acalmar os raivosos, torná-los aptos a jogar pelas regras; eles estão convictos de que o ser humano precisa ser contido, pra não dar ao lobo a pele do lobo.

Uma terceira corrente, todavia, não atribui ao santo a proeza de ter acabado com a alegria dos homens; essa gente sussurra que a chuva é a carapuça de uma fonte maligna: o demiurgo que governa o mundo tem tentáculos que os humanos são incapazes de sentir, e de recusar, portanto, a sua influência.

Assim, as duas crianças param de brincar quando um menino entra. Elas não olham a bola, é que o menino molhado que cria uma poça no tapete faz com que lhe peçam que as deixe em paz.

O menino que cria uma poça no tapete não quer criar caso, ele nem quer brincar com aquelas crianças que preferem brincar sobre o tapete da sala a brincar lá fora, a bater bola lá na chuva.

É triste, menino em pé sobre o tapete, todo mundo parece que nem fica chateado, que toda gente se contenta em ficar enfurnada.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 15 de outubro de 2023.

quinta-feira, 12 de outubro de 2023

O pomo da concórdia

 

O pomo da concórdia

 

Imbuído da verve de bom entendedor, basta que desconfie de algo estranho para eu começar a rastrear o que não é dito. Mergulhado em tal espírito, o de farejador de entrelinhas, deixo entrar Luisinho, aquele que, tão seguro de si até em falsete, costuma dizer “faço o que quero”, como se fosse incontornável ouvi-lo a dizer: “sou livre”.

Quando uma pessoa cobra dele um posicionamento claro a respeito de algum assunto que esteja em evidência, notei que o meu amigo nem percebe que tem esse tique, ou já teria tirado melhor proveito, mas sua voz se altera quando pensa uma coisa e fala outra.

Desta vez, ao dizer que faz o que deseja, ele pretende dizer que faz o que se espera que faça, ou a sua presença seria insuportável.

Então, tal liberdade é osso enterrado no jardim. E cavarei porque o meu instinto carniceiro gosta de roer o que seja, só pelo cheiro, até que o tesouro desencavado torne inútil a imaginação.

Dá gosto modelar a carne, juntá-la ao osso, a carne ligada à carne. Sem precipitação, o esqueleto pare em pé. Sem neurose, haja o corpo. Para que a ideia baile, haja identificação. Que a ideia seja esmiuçada. Que os detalhes traduzam a encarnação, e leia-se o símbolo.

Encaro a tarefa, debruço-me sobre a circunstância.

Estou sentado. Chupo uma laranja. Há um par de rolinhas rondando o banco em que estou sentado chupando uma laranja. Os passarinhos não comem as sementes que eu cuspo. Não brotará uma laranjeira no cimentado. Sei que as aves não têm fome, é que mais cedo joguei-lhes migalhas. As duas rolinhas não arrulham nem pipilam. Enquanto chupo uma laranja sentadinho no banco que eu fiz, elas ciscam. Temerosas de que possa comê-las, as teimosas ciscam.

Desato o nó: rolinhas não são pombas; elas não representam a paz; ao fritá-las, não terei cometido nenhuma barbaridade.

Luisinho diz que penso muita bobagem, digo coisas absurdas para causar indignação, provoco as pessoas, só que nem todo mundo gosta de gente que parece se divertir com a irritação dos outros.

Ora, a natureza ensina, mas poucas pessoas a compreendem.

Se a macieira é sacudida, maçãs irão cair. Se uma escada é usada, maçãs serão colocadas no cesto. Maçãs acondicionadas no cesto não serão amassadas, logo vão demorar para estragar. Se mais maçãs são vendidas, mais dinheiro entra no bolso. Então, a pessoa cheia de maçã não tem que vender caro as suas compotas de geleia.

Então, Luisinho diz: se a macieira é sacudida, não será preciso usar escada; a pessoa com vertigem não cairá; ninguém correrá à farmácia atrás de creme analgésico; a sopa será servida de quando em quando; a dor na costela será menor desde que a pessoa fique deitada, procure não se mexer, tome a sopa quente de mandioquinha.

A razão prepondera: uma vez que o universo induz que chupemos, nós sacudimos a laranjeira, e cuspimos, só o bagaço nós cuspimos.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 12 de outubro de 2023.