Espeloteado
Se o convidarem, não se precipite. Embora
o rancoroso mostre-se satisfeito quando contrafeito, veja-se entre quem não
adula nem deseja que o bajule. Por se importar com a tranquilidade, particularmente
com a sua, recuse rastejar seu ego festeiro entre festeiros.
Acredite, embora goste de demonstrar-se
atento ao instante, a ele não se apegue, que o momento passa e segue virando.
Se hoje é lama grudada na roupa, amanhã são cacos contando histórias.
Torne-se menos impetuoso,
conscientize-se, dar like é registrar-se ativo, comentar com sinceridade
fotos postadas faz com que seja visto como rude. Como incomoda tal rudeza
sinceramente consciente, pode crer que o consideram um chato, petulante, um
babaca metido a besta. Que seja. Só esteja seguro que é preferível ir dar
pipocas a rinoceronte, pela distância daquelas pessoas, convivas de caco cheio.
Bastante distante, pra que as palavras
desairosas não o atinjam em um dos seus pontos fracos, as orelhas. Pois orelha
queimando diz que reprimendas e contestações voam ligeiras e cobrem quilômetros
assim que profetizadas por aquelas bocas encharcadas de cachaça.
Vá para longe e fique lá pelo tempo
necessário para que as pragas esfriem no caminho. Lembre-se de que há quem o
queira adestrado, a tirar selfies com todo mundo, que isso é normal,
bacana, coisa de gente bem simpática.
Seja antipático, vá à festa para
contrariar quem o queira sorridente, sóbrio, um exemplo maravilhoso de pessoa
iluminada. Dê o melhor de si: leve a escuridão e faça trovejar. Seja autêntico,
pois não é problema seu que o repilam, que desgostem de temporais.
Sim, pecado é faltar à festa boa. Frente
à felicidade fotogênica, não seja outro ressentido. Comentários irônicos não bastam,
esteja lá com o semblante carregado, de quem pode chover a qualquer momento.
No clima da festa, com você já
alegrinho, pela malícia de mentiroso que não se envergonha das próprias
bazófias, solte essa: o rinoceronte come pipoca.
Com certeza a alegria embriaga, brinde a
isso.
Embriagado, seria um pecado não se
alegrar com as fanfarronices de achar falhas morais em quem não se anima com a
embriaguez que a consciência ventila ao bel-prazer de gozar na hora o que tenha
para ser gozado.
Porque dá pelota do quão verdadeira é esta
ideia, você a pensa de passagem: maravilhoso é ir ao zoológico que a cidade não
tem.
Já que a invenção coloca-o no mapa, o
zoo existe. E qualquer um pode achá-lo, basta usar a bússola afetiva que o
configura mais longe que a inexistência: na mente em que o coração não a cativa.
Onde ofegante o afobado?
Onde convém visitar quando o medo puxa
pelo ar, sufoca, paralisa. Onde as verdades desconcertantes são içadas do
pântano mental em que a gente naufragada nem se sabe encoberta pelo vistoso do coral.
Travesso, se rinocerontes são bestas,
belo é ser coral.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 06 de junho de 2023.