A
busca
Alguém diz o que eu estava pensando nem
faz um segundo, sorrio, porque a confirmação da ideia me tranquiliza. Penso o
que mais gente tem pensado, isso indica que o tempo ao qual me vejo
circunscrito está a me configurar como mais uma pessoa perpassada pelo momento.
Sem que me faça excluído do presente, posso
opinar.
Por índole e idiossincrasia, trago o
desejo de afirmação como o ser humano que posso representar: não me satisfaço nos
confrontos; uma vez que é necessário o pertencimento a uma comunidade, não
afronto meus semelhantes; entendo a felicidade compartilhada, porque a mim me compreendo
como um a mais, caso não subtraia.
Tanta gente no mundo e tanto em comum, viver
é concordar.
Tanta gente vírgula porque o meu mundo é
pequeno, umas poucas veredas de uma cidade de não mais do que trinta mil
habitantes.
Dentro deste meu mundinho, é ainda menor
o círculo das pessoas que conheço, por proximidade amistosa ou esbarrões
fortuitos.
Por último mas não menos enfático, destaco
que as concordâncias com quem pensa como eu são fundamentais pro meu
equilíbrio.
Estar bem de cabeça é meio caminho
andado pra estar sintonizado com o pensamento do dia. E fazer o que me cabe é dar
elo ao corrente. Sei, faço minha parte para que as situações transitórias de
convivência urbana sejam geradas e monitoradas amiúde.
Amiúde, mas sem as banalizações que causem
apatia ou tédio. Só vulgarizo a vida social envaidecendo-me da realidade cidadã.
Todavia, se a pessoa não tem resposta própria
frente às azáfamas da vida, trato de ouvi-las; reflito sobre o que escuto e
busco estabelecer as relações entre o que dizem e o que julgo ter compreendido.
Dispenso maiores cordialidades com quem
não responde de pronto aos desafios da hora, pois é gente que titubeia, e flerta
com o acaso.
O acaso é perigoso pelas dissimulações,
pela máscara que afeiçoa, que constrói a imagem apropriada, que fabrica o que
se espera como se a esperança fosse o xis da questão ou outra bugiganga.
Vermelho de raiva, não mais um democrata
socialista:
ꟷ Pra evitar discussões pouco gentis,
não argumentemos contra os juros altos, falemos do calor absurdo em pleno
outono.
Amarelando de fome, operário atarraxado
à máquina:
ꟷ Não falemos de água encanada e coleta
e tratamento de esgoto, paguemos pelos dividendos estatais.
Verde por dentro e por fora, com a
melancolia até o pescoço:
ꟷ Torremos o pasto das emendas ou procriaremos
outros monturos com a mais azeitada das inteligências, a artificial.
Como sinônimos perfeitos são arapucas da
semântica, raciocina o reacionário: digo farol, ouço semáforo, vejo o sinal.
Ignoro os noves fora?
Até pra não dar a impressão de que me
desonram os bons modos, não sorrio feito besta, não ignoro quem me ignora e
cumprimento quem sequer cumprimenta.
Fazer do não outro talvez com cara de sim,
isso eu também busco.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 09 de maio de 2023.