terça-feira, 9 de maio de 2023

A busca

 

A busca

 

Alguém diz o que eu estava pensando nem faz um segundo, sorrio, porque a confirmação da ideia me tranquiliza. Penso o que mais gente tem pensado, isso indica que o tempo ao qual me vejo circunscrito está a me configurar como mais uma pessoa perpassada pelo momento.

Sem que me faça excluído do presente, posso opinar.

Por índole e idiossincrasia, trago o desejo de afirmação como o ser humano que posso representar: não me satisfaço nos confrontos; uma vez que é necessário o pertencimento a uma comunidade, não afronto meus semelhantes; entendo a felicidade compartilhada, porque a mim me compreendo como um a mais, caso não subtraia.

Tanta gente no mundo e tanto em comum, viver é concordar.

Tanta gente vírgula porque o meu mundo é pequeno, umas poucas veredas de uma cidade de não mais do que trinta mil habitantes.

Dentro deste meu mundinho, é ainda menor o círculo das pessoas que conheço, por proximidade amistosa ou esbarrões fortuitos.

Por último mas não menos enfático, destaco que as concordâncias com quem pensa como eu são fundamentais pro meu equilíbrio.

Estar bem de cabeça é meio caminho andado pra estar sintonizado com o pensamento do dia. E fazer o que me cabe é dar elo ao corrente. Sei, faço minha parte para que as situações transitórias de convivência urbana sejam geradas e monitoradas amiúde.

Amiúde, mas sem as banalizações que causem apatia ou tédio. Só vulgarizo a vida social envaidecendo-me da realidade cidadã.

Todavia, se a pessoa não tem resposta própria frente às azáfamas da vida, trato de ouvi-las; reflito sobre o que escuto e busco estabelecer as relações entre o que dizem e o que julgo ter compreendido.

Dispenso maiores cordialidades com quem não responde de pronto aos desafios da hora, pois é gente que titubeia, e flerta com o acaso.

O acaso é perigoso pelas dissimulações, pela máscara que afeiçoa, que constrói a imagem apropriada, que fabrica o que se espera como se a esperança fosse o xis da questão ou outra bugiganga.

Vermelho de raiva, não mais um democrata socialista:

ꟷ Pra evitar discussões pouco gentis, não argumentemos contra os juros altos, falemos do calor absurdo em pleno outono.

Amarelando de fome, operário atarraxado à máquina:

ꟷ Não falemos de água encanada e coleta e tratamento de esgoto, paguemos pelos dividendos estatais.

Verde por dentro e por fora, com a melancolia até o pescoço:

ꟷ Torremos o pasto das emendas ou procriaremos outros monturos com a mais azeitada das inteligências, a artificial.

Como sinônimos perfeitos são arapucas da semântica, raciocina o reacionário: digo farol, ouço semáforo, vejo o sinal.

Ignoro os noves fora?

Até pra não dar a impressão de que me desonram os bons modos, não sorrio feito besta, não ignoro quem me ignora e cumprimento quem sequer cumprimenta.

Fazer do não outro talvez com cara de sim, isso eu também busco.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de maio de 2023.

domingo, 7 de maio de 2023

Coração bestificado

 

Coração bestificado

 

A taxista foi protocolar ao cumprimentar o passageiro, a quem pediu o endereço de destino e, antes da partida do automóvel, advertiu-lhe que colocasse o cinto.

Por conta da morosidade do trânsito, a motorista atalhou por becos e ruas transversais, o que alongou o trajeto mas encurtou o tempo de chegada.

Ela encostava o carro; ele tinha o valor exato da corrida.

Se soubesse que o médico atrasaria o começo da consulta, mesmo assim teria mantido as críticas à demora do táxi, que levou vinte e cinco minutos pra pegá-lo à porta de casa, onde ficou esperando por longos, esses longuíssimos vinte e cinco minutos.

Assim como foi educado ao deixar de dizer à taxista o que pensava, agradecendo-lhe como sói a quem educado, ele esperou calado que o cardiologista o recebesse com as banalidades usuais.

Continuava com aquele formigamento esquisito no braço esquerdo. Sentia agulhadinhas quando subia apressado uma escada. Demorava a pegar no sono. Embora mantivesse o copo d’água pra molhar a boca, não dormia. Mesmo sem perceber formigamento e quaisquer pontadas no peito, queria ouvir do doutor qual o diagnóstico exato do que estava acontecendo com o coração.

O médico conferiu os resultados de ecocardiograma, radiografia do tórax, eletrocardiograma, teste ergonométrico e exame de sangue: era um órgão nas condições esperadas a uma pessoa sexagenária.

Caso prosseguisse com formigamento e sensações sufocantes, ele agendasse nova consulta: pra solicitação de ressonância magnética e exames complementares de sangue, fezes e alergia à realidade.

Que o paciente evitasse os alimentos gordurosos, caminhasse uma hora por dia, dormisse bem, não se entupisse de notícias ruins.

O que é uma notícia ruim? A gordura da picanha é ruim pras veias? O preço da picanha afeta a circulação sanguínea? A cabeça pesa mais o que o coração já anda sentindo? Como dormir tranquilo sabendo que amanhã o quilo da salada vai mesmo estar mais caro? Tivesse nascido coelho, levaria facadas na carteira ao roer cenouras? Ostentasse alma de poeta, diria ditirambos à lua vista do táxi?

Sim, sempre vem outro táxi.

O trânsito seguia tóxico, mas o motorista era outra pessoa.

Como a lua tocou em cheio a sua alma lírica, disse-a bela. O lar de São Jorge punha feliz o dragão a ser vencido pela lança. Entre a ânsia pela próxima contenda e a alegria da vitória, o taxista era um poeta.

Pouco lírico, o passageiro queria ignorar a eterna guerra do dragão da maldade contra o santo guerreiro; nem pensava em escutar o disco novo do Jards Macalé.

Tirando fuligem e o para-brisa empoeirado, claramente ocorreu-lhe: haverá uma Associação de Poetas Anônimos?

Não outro círculo de poetas buscando a glória, mas um grêmio de gente que tenta não soçobrar aos enlevos rastaqueras.

Deixe estar que a lua nua o bestifique, coraçãozinho.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de maio de 2023.

quinta-feira, 4 de maio de 2023

O grande teste

 

O grande teste

 

Preciso entabular uma conversa franca. De uma franqueza tal que só mesmo comigo eu consigo chacoalhar a minha galhardia de cidadão consciente da honestidade nas palavras.

O meu tabuleiro tem quitutes que me deixam preguiçoso, penso que não tenho que engolir brigadeiros, queijadinhas e quindins como se um telefone estivesse chamando, me testando.

Que coincidência! Mal eu penso: tem telefone tocando.

Aliás, nem me convidem pra festinha de marmanjo. Eu me conheço, fico à vontade quando digo que sou fiel à tradição de trair-me quando a pressão é pela estupidez. Embora produza pequenos estragos, acho notável que os adultos na sala usem bandejas como arma. Entre comer e defender-me, prefiro evitar a congestão.

Por leituras aleatórias soube que o estômago tem neurônios, o que me permite prever que panduio empanturrado afete as ideias. Uma vez que a leseira da cuca cheia possa gerar ideias das mais singelamente lógicas às violentamente estapafúrdias, reajo.

Pela razão de que sou pessoa com os nervos em dia, admito que é ridículo ir à varanda gritar que não preciso de celular pra confessar que as minhas virtudes de sujeito do bem fazem de mim um camaradinha astuto que não se esconde atrás do poste.

Postes têm lâmpadas; lâmpadas iluminam; e a iluminação da minha consciência quer deixar claro aos vira-latas bons de faro que não sou poste pra mijarem onde mais sou vulnerável, ao nível da calçada.

Aliás, nem toquem em mim quando falo ao telefone. Costumo tomar um susto quando o fluxo do pensamento é desviado. Isso de ser levado a entender o que pretende a mão que me agarre pelo braço é um fator desconcertante. Sim, por experiência, o mundo me desconcerta.

Que coincidência! Tem uma criança querendo atenção.

Olho pra baixo; o baixinho é velho conhecido; o infante quer que me abaixe, escute-o, que eu tome ciência do que tenho a dizer.

Como se falasse como eu falo com todo mundo, digo a mim mesmo que não tenho que atender o telefone quando ele está tocando. Talvez seja prudente eu deixá-lo sem som.

Pode ser que me queiram bêbado de euforia enquanto me vendem esse perfil de gente do bem que sabe que a digestão de picanha com guaraná é comparável à digestão de picanha com cerveja.

Que coincidência! Tem gente tocando a campainha.

A campainha está ligada, a porta está fechada, as cortinas estão cerradas; e por imaginar a cara de quem toca a campainha enquanto me telefona, eu fico eufórico.

Onipresente, onipotente, onividente, não apenas porque monitora a pressão, o pulso e o açúcar no meu sangue, tanto o telefone sabe mais sobre mim que ele já vem com a resposta sintomática:

ꟷ Posso ajudar?

Assimilado ao vício de não mais me corrigir por amargores, mesmo sem beijinho, o jeito é atacarmos o pote de napolitano que nunca falta no freezer.

Que coincidência! O menino que me abraça sou eu que o abraço.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de maio de 2023.

quarta-feira, 3 de maio de 2023

Nem pro santo

 

Nem pro santo

 

ꟷ Seu Osman, o que me diz da volta da cobrança do sindicato?

O homem só moveu o charuto de um canto da boca para o outro.

ꟷ Romualdo, seu paspalho, o certo não é cobrança do sindicato, o certo é dizer que é contribuição sindical, não é, Seu Osman?

De volta pra esquerda, o homem moveu o charuto.

ꟷ Deixem ele em paz; disse a mulher atrás do balcão.

ꟷ Dona Josefa, a gente quer ouvir a opinião do Seu Osman porque ele trabalhou no sindicato até se aposentar.

ꟷ Dona Zefinha, Seu Osman trabalhou por mais de trinta anos sem nunca ter saído do sindicato, sempre fiel, né, Seu Osman?

O homem tirou-a, bateu-lhe a cinza e repôs a bituca na boca.

Trazendo em cada mão um menino, o pai pediu dois pastéis: um de queijo e outro de carne. Mas os filhos queriam, ambos, pastel de queijo e de carne, os dois. Se tivesse pimenta, queriam. Se tivesse mostarda, também queriam. Se o pai pudesse, queriam ainda um quibe cada um, desde que tivesse limão cortado na hora.

Pondo os salgados num prato, a mulher abriu-se em sorriso:

ꟷ As crianças de hoje em dia sabem bem o que querem. Dá gosto ver que fazem questão de pedir sem constrangimentos. No meu tempo da idade deles, era impossível de acontecer. Não se podia abrir a boca pra dizer qual a vontade que a gente tinha.

Quando ia enfiando na maquininha o cartão de débito:

ꟷ Não esquece da Coca família, pai.

ꟷ E tem que ser beeem gelada, pai.

Nisso, a TV exibia imagens relativas ao Primeiro de Maio.

ꟷ Aumenta o volume, Zefinha.

Apareceu um sindicalista, o presidente do sindicato que era o líder dos operários há mais de quarenta anos. Ele dizia da importância de o salário-mínimo ter aumentado. Pois os dezoito reais farão a economia girar. O povo não comprará somente o básico da sobrevivência. Além de bife, arroz e feijão, irá comprar um par de sapatos novo, realizará o sonho de ter um celular muito moderno. O mercado ficará satisfeito. A indústria aumentará a produção. O comércio facilitará o crédito. E todo mundo do Brasil vai sorrir outra vez. A dignidade do trabalhador estará no sorriso de quem paga as contas e pode planejar aquela viagem pra praia, pra montanha, pro parque aquático, pra pizza com a família. Pra dar o animalzinho de estimação pro filho caçula que tanto pede pra ter um pastor chamado Pequeno Polegar, igual ao do seu avô.

O homem que permanecera mudo durante a fala inteira do tal herói da classe trabalhadora, levantou-se, pediu café e virou o copo de vez; pegou um fósforo da caixa que ficava disponível para os fregueses em cima do balcão, acendeu o charuto; bebeu outro copo.

ꟷ Ouviu, Seu Osman. O trabalhador ajudará a reconstruir o Brasil. Ganhando mais, será feliz do jeito que tem que ser. Sem espertalhão pra doutrinar pra que não seja.

Sem abrir a boca, o homem pegou a gaiola ꟷ pena que o corrupião não cantou ꟷ e saiu.

Disse a dona:

ꟷ Seus idiotas, o nome dele é Altair, Altair Filho.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de maio de 2023.

domingo, 30 de abril de 2023

A aura da inocência

 

A aura da inocência

 

Fotografias contam essa história que vai se desenrolando sem que se pense que ela pudesse ter sido manipulada, guiada pro sentido que garantisse coerência, ainda que as poses não escondam o recurso ao artifício, à virtualidade do espontâneo controlada pelo banal, pelo trivial de um cotidiano que se volta sobre si como originalidade, uma vez que o encadeamento das imagens narra uma identidade fictícia, obtida pela compreensão de que uma vida pode ser lida a partir do mundo passado pela sensibilidade, porque estes registros ideais permitem a revelação: um dia, esse garoto que não usava óculos passou a usá-los.

Adeus, menino triste.

Feita a transição dos fundos para a primeira carteira, a próxima foto, se não esconde a face do garoto de armação de tartaruga saboreando a manipulação freudiana da massa, acha-o deitado num colchonete.

Não é à toa que o assombrado está deitado, é para dominar-se, ter o controle físico da respiração. Na difícil prática de suportar-se sereno, é preciso esvaziar a mente, silenciá-la em tal grau que a entrada de ar nos pulmões não cale no cérebro a oxigenação necessária para que a consciência não apague o entorno.

Como festa atrai outra, embora o boca a boca alardeie que tomar cerveja por canudinho acelere a embriaguez, ficar doidão sem soluçar é assumir-se inepto pra bebedeiras, uma vez que, sem soluços, ânsias e ideias salvacionistas, pilequinhos apressados nem dão barato.

É preciso identificar autoridades que enchem a cara para remendar o mundo, a começar pela pátria. Mas, rebeldes que amam a revolução têm línguas, usam-nas também porque salivam pela carne.

É bom saber respirar. Faz bem livrar-se dos canudinhos. Age certo quem reaprende a viver pela dor. É bom crescer sem ser preciso.

Adeus, adeus.

De vez em quando, a terceira das fotos sobe à linha d’água. Respira e deixa respirar quem não se afoga nas mágoas, cujas cicatrizes não impedem que nuvens virem borrascas e copos enxuguem oceanos.

Ainda que o olhar não passe mais pelas lentes de Paulo Francis, as retinas seguem inquietas, severamente míopes, esteticamente éticas, retraídas à humildade; observe-se, um tanto torto.

Veja-se: há poucos dias do Natal, o shopping-center lotado, o rapaz anda em vão, a água do relógio prolonga a espera, as compras zanzam em sacolas, o barulho aumenta, pressiona, cola nos pensamentos, que os novos óculos digam que é possível arrancar a própria pele, trocá-la, desvestir-se em público.

Sorridente tagarela, adeus.

Da ótica do Iguatemi ao ponto da Rebouças: num fôlego, sem noção da caminhada; num lapso, sem a percepção de ter saído; noutra cópia de si, sombra desassombrada; sósia de si, tão familiar que estranha; o revelado se reconhece essa pessoa a reviver-se naquele 1984.

Grande Irmão, diga a que veio, não banque o sábio, perca a pose.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 30 de abril de 2023.

sexta-feira, 28 de abril de 2023

O amigo do Raul

 

O amigo do Raul

 

Se não tivesse dito que levaria os documentos, eu ficaria em casa. Como garoou a manhã toda, decidi que sairia depois do almoço. Faria o prometido, ainda que continuasse a garoar, porque meus atos teriam que falar por mim. Como contava ser julgado pelo que faria, nunca pelo que escamotasse, não adiaria o que tinha para fazer. Entre cochilar no sofá e cair na malha fina, enfiei os papéis num saquinho plástico e abri o guarda-chuva.

Evidente, na praça nua de árvores, as rajadas de garoa pediam que agisse tal qual os prudentes, e foi o que fiz, agi racionalmente.

A última vez que o coreto me abrigou acabei dormindo, tão bêbado. Todavia sóbrio, desta vez, não rememorei as varejeiras no vômito nem me apoquentaram as pessoas passando.

Lá ia a senhora que organizava a tarde dominical no salão da igreja. Não gostei do primeiro prêmio que ganhei, pois me pareceu mixuruca aquele jogo, uma vez que não sabia que um pote ficava escondido no outro, indo do menor para café ao maior para arroz.

Embora quisesse ganhar a bicicleta, nunca responsabilizei aquela dona pelas suas mãos aziagas. Embora a bicicleta nunca tenha saído pra mim, sequer às vésperas do Natal, também comprei para a mamãe as seis pilhas grandes pra que Nat King Cole cantasse no rádio.

Cá vinha o senhor que esculpia pequenas peças sacras, uns cristos em pau-ferro para oratórios de mesa. O bom homem nem sabia dar-se o devido valor pelo seu artesanato apurado, vendia tudo que punha na bancada, mas, todo mês, davam-lhe a esmola básica de uma cesta.

Cuidando para não escorregar, ia indo a cantora das pedras; vinha vindo devagar o entalhador de ébano; e a ambos chegava aquela peça rara, desgraçadamente famigerada, o tal embusteiro a quem os justos jamais lhe suportavam as velhacarias.

ꟷ Não tem trambique, não. E a foto é verdadeira, sim.

A fotografia era do Raul Seixas. Empunhava uma guitarra. O colírio eram os seus óculos escuros. De cavanhaque ruivo e lenço vermelho no pescoço, era o próprio em carne e osso.

ꟷ Tenho certeza que ele estava fazendo tipo por causa dos óculos escuros. E a barba pintada nessa cor acobreada bem forte é de roqueiro exagerado, o tipo que ele sempre foi. Por isso, o autógrafo é autêntico. Confie na imagem, é o Raul Seixas sem tirar nem pôr.

A todo mundo que passava, o súdito fiel queria vender a única cópia do Rei do Rock pela bagatela de cem reais. Que lhe dessem cinco, era o mínimo que aceitaria pela preciosidade autêntica.

Educado na malandragem da vida, nos primórdios de sua trajetória, dava a impressão de espertinho, coisa que o deprimia.

Houve isso com a história do canário que vendeu sem nem o ter em mãos. Cadê que o canarinho entrasse na arapuca? Haja paciência pra apanhar esse danado; e quem tinha pago o cobrava com a intolerância dos impacientes que não aceitariam sequer um pardalzinho travestido de sabiá.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 27 de abril de 2023.

terça-feira, 25 de abril de 2023

A próxima atração

 

A próxima atração

 

23 de abril é o dia do escritor, porque William Shakespeare nasceu neste dia e, segundo alguns, ele teria falecido também neste dia. Mas nascimento e morte não justificam a eleição da data, Shakespeare tem fama mundial pela compreensão da alma humana, embora muita gente ache que o ser humano nem tenha alma para ser compreendida.

Sobre a alma, tenho certeza de que tudo o que eu disser vai gerar arrependimentos, tormentos e ventos, como se nas cavernas da minha mente, ao redor da fogueira da sabedoria, estivessem assando batata um ancião, um anacoreta, um eremita e um eremita ancião anacoreta. Caviloso, já que batata quente é refresco nas mãos dos outros, o meu inconsciente anarquista aproveita o vento infinito para girar o catavento dos desejos incomunicáveis, e deixo a alma me levar.

Arrastado de volta ao dia do escritor, acredito que instituíram a data para celebrar seja o dia do autor, o do dramaturgo ou o do ator. Sim, o Velho Bill foi uma pessoa de múltiplos talentos, tendo sido dramaturgo, autor e ator, e, segundo as más gentes daquela época, nosso Bom Bill, globe-trotter a seu modo, teria sido útil à sociedade como empresário, mandachuva de companhia teatral e dono de teatro.

23 de abril, em todo caso, também é o dia de nascimento de amiga minha muito fã do mesmíssimo William Shakespeare. Embora ela não seja nem escritora nem dramaturga nem atriz nem sequer inglesa, ela diz que Ariel e Caliban são unha e carne, cara e coroa, branco e preto, noite e dia, porque, amalgamados na tempestade cósmica, ambos dão em síntese o que seja a existência humana.

Existo, logo atraio e-mails e spams.

Minutinhos antes da meia-noite, já o calendário a ponto de virar dia 24, recebi e-mail da própria aniversariante agradecendo a mensagem que lhe enviei pela data importantíssima na sua vida.

Por óbvio, se eu tivesse mandado o tal e-mail, teria citado o dia do escritor por causa do nascimento do Bardo Inglês, mas fui devidamente lembrado que 23 de abril é o Dia Mundial do Livro.

Inteligente de minha parte foi vestir a carapuça do cético abismado que mora nas entrelinhas do que não digo. Desconfiado, a querer-me mais informado: busquei e li: 13 de outubro é o dia do escritor.

Como sábio que tira coelhos da cachola, pergunto:

1. Se a inteligência artificial em voga soube pôr no Papa o casacão da rapaziada antenada, não terá havido manipulação no famoso retrato do Bardo, por que o cara nem era ele e, sim, um lorde?

2. Se a rapaziada antenada trata russos na Crimeia como germanos nos Sudetos, que verdades ganharão o mundo quando libertadas pelos algoritmos do amanhã?

3. Quando o mundo for Edmundo lendo a um leão o Rei Lear, obra outrora dada a outrem que não o tal Shakespeare, que nunca foi visto ostentando o casacão da rapaziada antenada, será o Edmundo?

4. Mas, que amanhã?

Ao redator, as respostas.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de abril de 2023.

domingo, 23 de abril de 2023

Cama quente

 

Cama quente

 

Não abro os olhos nem tateio as paredes, vou no escuro. A vontade de urinar é mais forte que titubeios. Sei, a confiança garante o próximo passo. Confiante, arrisco a integridade da testa. Acredito que paredes não precisam demonstrar estabilidade; não as impedirei de a mim me abalroarem como um corpo estranho. Não que a bexiga explodindo me faça agir feito imbecil, ajo por excesso. Excedo-me, alcanço a precisão de estar no lugar esperado no momento não calculado, mesmo porque é especulação vulgar os pingos na tampa serem dados como sintoma. De olhos abertos e mãos bobas, conheço a casa de cor e salteado.

A madrugada tem chão e não o quero alongado. Ainda que os olhos não ardam de sono, que ele, o sono, vença tal vigília imprópria.

Este inconveniente, ficar pensando na vida quando poderia dormir, não o debitarei na conta da imbecilidade. Credito-o porque fraquejo. E a minha pusilanimidade é tanta que me julgo feliz.

Me percebo imerso num estado contraditório: estou feliz porque me contrario. Ajo como um ser uniforme: sou essa pessoa que transita de forma segura, sou quem não receia as paredes, sou eu que dispenso bússola. Sei ir do quarto ao banheiro. Sei ir e sei voltar, pois vivo aqui. No entanto, contrariando a imagem que formo de mim mesmo, perdido por um instante, paro no corredor às escuras.

Parado nesse momento, calho de pensar: sem pensar que a parede do quarto é uma das paredes do corredor, a parede do quarto é parede do banheiro, a parede do banheiro também é uma das paredes da sala; sem refletir, levantei da cama, vim pelo corredor, urinei no vaso e dei a descarga; o que me perturba neste instante: estou pensando.

Se me permito uma leitura imaginativa do que acabei de fazer, diria que naveguei em águas tranquilas, boníssimas a veleiros; dirigido por ventos calmos, apreciei o horizonte; sem tédio, senti a realidade.

Penso, logo vejo que o corredor escuro é um espelho.

No filme O sangue de um poeta, na cena do espelho, entendo que é possível passar pela água do espelho, dá pra mergulhar no reflexo.

Compreendo, tenho dois lados: na cama, o pesadelo me põe suado, os meus demônios me querem acordado; na sala, o sofá acolhe quem se dispõe a conversar, a urbanidade me ajeita em bom camarada.

Onde me vejo unido a essas minhas duas faces?

O que sobra de mim, o que as entranhas descartam, vá pelo esgoto; o que suja, o que trago impregnado na pele, livra-me o chuveiro.

Há um vórtice na minha mente: estarei à boca de um ralo?

O sonho interrompido não tem importância. Como não o rememoro, não o escarafuncho aos pântanos da cachola. Quiçá regresse; quiçá o fio seja reatado para que outra história ganhe fluxo; quiçá meu cérebro trabalhe a favor.

Aliviado e satisfeito, volto pra cama sem nenhum arranhão. Aliviado e realizado, só penso esse senão: cadê o sonho?

Sou um cara de sorte, posso dormir.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de abril de 2023.

sexta-feira, 21 de abril de 2023

Somente a verdade

 

Somente a verdade

 

Houve uma confusão qualquer no quintal. Volta e meia, as crianças brigavam; e nunca era por pouca coisa, sempre havia motivo. Primeiro pintavam as rusgas, o chororô vinha depois. Ao que parece, foi a vez de o menino ter apanhado da irmã; ele entrar pedindo que o apoiassem era sinal disso.

Como a mãe estava no trabalho, cabia à filha mais velha cuidar dos dois irmãos. Ela tinha tanta coisa para ver no celular; que viessem com encrenca era demais. Seria ótimo se ficassem brincando, a deixassem em paz, ou ela contaria tudo na hora do almoço. E a mamãe daria jeito nos dois, como ela sempre dava.

O menino voltou pro quintal; ali ele não ficou nem cinco minutos.

A mais velha não quis saber, empurrou o irmãozinho pro quintal; ele e a irmãzinha se entendessem ou rolassem no chão, isso era com eles; ela tinha mais o que fazer, e trancar a porta da sala foi a primeira coisa que ela fez.

O problema é que a porta da cozinha estava aberta; o chorão voltou e veio pra cima dela. Deu-lhe tapas nos braços, esmurrou a poltrona e, se ela não cobrisse o rosto, teria recebido a cusparada.

O menino teria de limpar o chão; mesmo o limpando, que soubesse que haveria de haver-se com a mamãe. Ele teria de confessar, porque dele seria exigido que falasse a verdade, nada de choro ou mentiras.

O que as crianças não sabiam nem tinham como saber é que a mãe e o pai estavam na rua; mais exatamente, estavam na frente do prédio onde houve outra reunião produtiva, sobre a guarda dos filhos.

Foi preciso que guardas interviessem, ou haveria mais do que uma simples discussão. A contenda envolveria pugilato e unhadas.

De acordo com ele, quem queria briga era ela, uma vez que ele não era de gritar nem de gesticular; no duro mesmo, era um cara pacato.

Segundo ela, quem começou foi ele, porque ele dizia que a amava, mas, apesar desse amor, ele a traiu. Que amorzinho mais ordinário, de gente que não era capaz de empenhar-se na fidelidade. Nem que fosse pela lasanha de berinjela aos domingos, nem que pedisse picanha bem passada nos espetinhos. Truco!

Enquanto isso, na televisão, informavam que uma frente fria estava chegando. O certo seria os móveis ficarem meio metro acima do chão. Anunciaram, choveria forte por horas. Previam deslizamentos, haveria terra na pista, estradas acabariam interditadas. Que transtorno.

Enfim, a irmãzinha que bateu no irmãozinho apareceu. Lambuzada de manga. Subira na mangueira. Comera o quanto quis. Sem ninguém para aporrinhá-la, foi uma maravilha ficar comendo enquanto quisesse. Teve enjoo. Achou de pular, o pé não firmou, ralou os joelhos, mas não mancaria. Sendo a agredida, tinha que manter o ar bem carrancudo.

Felizardos à parte, no centro onde prosperaram birras e dissuasão, os bons de lábia tomavam vinho, beliscavam fritas. Proibidos de fumar, os bons doutores pescavam mil e um tucunarés.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de abril de 2023.

terça-feira, 18 de abril de 2023

O homem lírico

 

O homem lírico

 

Venta frio e não quero banalizar, dizer que o frio do vento enregela. Intermitente, o vento que passa silvando pelas frestas da porta esfria o quarto. Não há canção, há ruído, é irritante porque descontínuo. Tanto silva que abro a porta, e uma luz tênue acentua em mim a melancolia. E sobre as coisas pouso o olhar melancólico. Sobre os livros, as folhas, os badulaques, em tudo há essa camada de tristeza serena. Embora a poeira recubra as coisas, gosto do cheiro da terra molhada que o vento aviva. Sobrepõe-se em mim o ar gelado ao cheiro de um quarto parado no tempo. Venta frio e não pretendo escamotear a contradição: estou trancado em mim, me sinto mofado e reconheço que a poeira recobre os livros empilhados porque não me renovo a cada dia. Tenho pra mim que abrir a porta não se fundamenta na necessidade de renovação. A luz que vem de fora é fraca, não tem poderes mágicos nem me faz ver que o tempo pousado nas coisas é a pátina que trago em mim. Dentro de mim não me percebo úmido, digo que o ar gelado é úmido. O vento frio e úmido é que traz a umidade do mundo para dentro do quarto. Se respiro o bolor, não o condiciono ao tédio. Se transpiro o mofo, sei que não suo. A manhã é úmida e vazia. Parada na percepção de que estou amortecido para senti-la móvel, embora vente. Imóvel, vejo a parede do quarto. A parede me faz pensar: há poeira no ar. Compreendo que respiro o bolor. Compreendo, produzo mofo. Não morrerei do tédio que transmito às coisas do quarto. O gato olha a parede, a parede que olho, e a ele ocorrerá o pensamento de que a imobilidade nega o dinamismo da vida? Sem mexer a cabeça, sem abanar o rabo, sem baixar os olhos e sem me ver a observá-lo, o gato olha a parede. Ele não a recobre de outro significado a não ser o de que ela o impede de ver o que há além? Sem sombras, rachaduras, manchas. É apenas a parede parada diante do gato parado. Intuirá a metafísica a que a imobilidade induz? Que o tempo imóvel é o que não para? A porta aberta pode bater? Entre uma batida e outra, pode ser medido o intervalo? Que o tempo soprado pelo vento é que faz crescer o mofo na pilha de livros? O tempo respira; faz mofar, murchar e quarar. Não é o tempo que quara o que está mofado, é a luz do sol. As nuvens são água; a água está em mim e nas coisas. O tédio que sinto dita o instante. E percebo, é o vento que me contradiz. Sem necessidade de me enganar, digo ser essa pessoa ludibriada. É outono e não há sol. Ainda que o frio aumente quando sopra o vento, permaneço de porta aberta. Nuvens não anulam o sol, e não me anulo quando estou só. Não me apago, sinto o fastio. Entendo, o tempo que passa não silva nas frestas, só o vento. Mesmo que eu veja o gato que não me vê, eu não assobio uma canção triste. Isso não impede de me achar triste. Melancólico, um tanto vazio, ocupo-me de mim, ocupo-me da mente em que me penso.

Condiz a tal pastiche: alma lírica também mofa.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de abril de 2023.


domingo, 16 de abril de 2023

Realidade virtual

 

Realidade virtual

 

A campainha bateu. Bateu de novo. Foi batendo, e batendo, até que a porta fosse aberta. Só fui escutá-la com o chuveiro desligado, garanti a quem chiou comigo pela demora a atendê-lo.

Se eu fosse uma máquina, estaria programado para abrir a porta ao primeiro sinal, mas a mecânica dos meus componentes funciona tendo a irracionalidade como combustível e os sentimentos, por graxa.

Como não gosto de receber visita na hora da janta, deixei a pessoa esperando. Fiz-me entender que não atenderia a porta enrolado numa toalha. Já que optei por vestir um moletom, escolhê-lo demandou que considerasse a previsão: é burrice calcular que não haverá queda de temperatura só porque não sinto frio no momento.

Sem unir os pontos, o visitante não percebeu que banho pra mim é sagrado, é o tempo que tenho pra me desligar da adrenalina, é quando começo a me preparar pra dormir.

Se à pessoa que chegou sem ser convidada eu não tivesse omitido a contrariedade pela sua vinda, não me veria enredado:

ꟷ Gente fina, peça a pizza, pois eu trouxe vinho.

Que esperem de mim que me mantenha esse camarada boa praça que confirma a opinião alheia, essa camisa de força me ajusta porque dissimulo com louvor o desprendimento de quem abraça o mundo com a sensibilidade de acolher a ideia de outrem: se eu trouxe o vinho, está garantida a qualidade.

Mantenho a barra da camiseta por dentro da calça. Conservo a risca do cabelo penteado da esquerda pra direita. Preservo o bom humor de abrir a garrafa como se entendesse de vinho para classificá-lo bom.

Lendo o rótulo, disse que a marca era respeitada, a uva era do tipo que aprazia pela leve acidez e a origem, todo mundo sabe que o clima chileno se parece muito com o francês.

A consciência pesou. E repesou. Foi sopesando e sopesando, sem que a porta fosse fechada. Só vim a me escutar com o telefone ligado, ao me ouvir pedindo que fossem rápidos com a entrega.

A fluidez da vida é de fato um espetáculo, que nem pede aplausos mas nem penso em me vaiar; comigo fluindo: viva!

Pedaço a pedaço, a primeira pizza sumiu ainda quente; a seguinte precisou do micro-ondas. E a primeira garrafa acabou.

Mal respiramos, outra garrafa foi aberta. Na falta de mais uma pizza, uma tábua de provolone nem esquentou na mesa; e cubinho a cubinho, comemos o queijo como se a larica tivesse derretido os neurônios.

Por óbvio: noite de vinho e pizza tem que acabar em sorvete.

Meu amigo queria picolé de trufado de café.

ꟷ O mercado, meu amigo, não faz picolé de trufado de café.

Passamos à massa, mas a negociação foi tensa: queríamos passas ao rum, dissemos papaia com cassis; pensávamos abóbora com coco, falamos pistache.

Os potes chegaram.

E o motoboy contava com a gorjeta de sempre, dez reais.

Afora a alegria ao pegar a notinha de cinquenta, o entregador saiu-se com a novidade de que o pagamento poderia ser em remimbi.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de abril de 2023.

quinta-feira, 13 de abril de 2023

Continuação

 

Continuação

 

Como a vida é rio que não para de passar e suas águas são o novo a cada instante, antecipo que não tenho natureza incomum. Tento não ser arrastado e, momento a momento, trato de manter a leveza.

Então, ontem vim casmurro e amanhã também virei o mesmíssimo casmurro, e tudo bem que não me contradigo?

Ao pé da letra, se me mantivesse lucidamente coerente, digo que o tempero que mais me satisfaz é mesmo a contradição.

Nem tão casmurro nem tão carismático, pois a vida é instantânea e vivo como me sinto, entre curioso e entediado, indiferente e antenado, ardiloso e mentecapto, distraído e cativo, como sempre, sento e, para não chamar atenção, deixo que outros me puxem à conversa.

Mais silencioso que a média, muitos pensam que sou um camarada fechado, que pareço ter vivido muitas complicações, que essas minhas muitas feridas me angustiam tanto porque não as trato como deveria, pois eu poderia parar de sofrer se não me adaptasse a tais chagas.

Quando não se lhe reconhecem os palpites certeiros que julgam ter, decepcionam-se estas pessoas tão solidárias. Porque eu não as quero frustradas, ouço-as em silêncio e agradeço-lhes pelas palpitações.

Na maior parte das vezes, venho sentar-me ao balcão sem ânsias de querer compartilhadas minhas impaciências.

Se dormi mal, as pessoas não precisam saber.

Se cochilei vendo TV, fui eu que escolhi o filme.

Se acordei de madrugada, é que meus rins funcionam bem.

Se bebi muita água, melhor que tenha sido água.

À padaria, eu procuro chegar por volta das sete. Enquanto há mais lugares vagos do que gente de garganta boa, que tem certeza de que levantar a voz ajuda a apressar o aquecimento da chapa.

ꟷ O de sempre, patrão?

Eu penso: as orelhas de pessoas estúpidas não queimam por causa da estupidez mesmo que tenham sobre a nuca olhares neuróticos?

Como o rio do mundo tem margens que serpenteiam de acordo com o terreno, divago entre apático e resignado, rebelde e tolerante, sóbrio e apaixonado, por isso olho o espelho e reconheço que não fiz a barba, que a testa enrugada diz que estou positivamente neurótico.

Pelo ridículo da ideia, dissimulo que estou surdo. Por não responder à pergunta, parado à minha frente, o balconista repete:

ꟷ Vai querer o mesmo de sempre, patrão?

Como eu não assobiei nem esbravejei, sou atendido por quem acha melhor ignorar minha famigerada casmurrice.

De fato, eu quero pão com manteiga nas duas metades.

Tenho outra ideia brilhante: o problema de quem conta um segredo é a ilusão de controlar a rede por onde circula o dito em confiança?

Para que meu pedido fique completo, acrescento que eu quero café expresso, o grande, e dispenso açúcar e adoçante.

Sobressaltado com minha voz, berro ao chapeiro como se estivesse falando a meus botões:

ꟷ Boa gente, capricha aí na manteiga porque ela não é de nenhuma marca que eu já tenha experimentado.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 13 de abril de 2023.

terça-feira, 11 de abril de 2023

Centelha da rebeldia

 

Centelha da rebeldia

 

Não havia nenhuma indicação de que aquilo tornar-se-ia realidade, daquele menino compreender que a sua timidez o desafiava a ir beijar a menina encantadora, a única que usava rabo de cavalo.

A ideia de que, insinuante portanto belo, o movimento desse arranjo dos cabelos poderia estar interferindo na origem natural dos hormônios de uma criança era suficientemente improvável para ser considerada, até como aberração.

Se uma ideia não passa de possibilidade até que se torne ato, toda ação gera consequência, que seria o tapa na cara do beijoqueiro já que gestos carinhosos à traição não devem ser concretizados, sobretudo à socapa.

Ao garoto de cinco anos não ocorria a tentação de um beijo naquela garota tão graciosa, que não virava bruxa de vassoura voadora sequer quando, indiferente ao mundo ao seu redor, pintava um arco-íris.

Além de falar das sete cores, a professora contou que muita gente acredita que tem um tesouro escondido no fim do arco-íris, mas a aluno algum ou a nenhuma aluna ocorreu de perguntar-lhe onde é que ficava o começo do arco-íris.

Nem por brincadeira, professora alguma tinha pensado que aquilo, um aluno como outro qualquer poderia atravessar o pátio com o desejo insólito de dar um selinho em qualquer uma das alunas, pudesse vir à tona bem durante o intervalo.

Se ocorresse de uma criança de cinco anos agir como adolescente de doze anos, querendo bitoquinhas de surpresa, pais e mães teriam de ser convocados para imediata reunião com a diretoria.

Há quem pense que a escola deve ensinar que, ainda que singelos, espontâneos e sem nenhum tiquinho de lascívia, há beijos que podem ser entendidos como pouco amorosos, mesmo até repugnantes.

De fato, semanas depois de começadas as aulas, houve o beijo do calado monstrinho fofucho na meninota sardentinha.

Se realmente fossem a fundo, ainda que as sete cores estivessem pintadas na mesmíssima ordem em ambos os arcos-íris, haveriam de descobrir que o arco-íris do menino ia do canto inferior direito ao canto superior esquerdo, já o desenho da menina começava no canto inferior esquerdo e terminava no canto inferior direito, com uma casinha verde sob o tal arco celestial.

Todavia, relatou-se que, depois de séria investigação, à menina não caberia nenhum reparo porque ela nada fizera para estimular ebulições lúbricas neste desavergonhado que não soube se segurar na presença da colega, cujo rabo de cavalo não tinha o propósito de açodar libidos.

O ponto fulcral da lição é: nos recreios da vida, seja na escola, seja no boteco, seja na fábrica, quem não sabe se comportar merece saber que o valor educativo de um tapa fica estampado no estralo, na dor do vexame, no ardume da mágoa, no patético.

Em cem caracteres: quem ama faz conta de que amor se paga com amor, o resto é a alienação de que gente apaixonada beija bem.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de abril de 2023.

domingo, 9 de abril de 2023

Santo de barro

 

Santo de barro

 

No meio da madrugada, sentado na calçada, no meio-fio, tinha esse sujeito que não parava de reclamar da garoa, das meias molhadas nos tênis em sopa, daquele frio parado nos pés, era frio glacial.

Como se o poste tivesse interesse no que falava, falou do presente que não tinha esquecido. Como se a casinha de barro no alto do poste não estivesse vazia, disse a uma bituca que não tinha lembrado a data. Como estava um tanto triste e um tanto raivoso, batendo contra o peito a carteira, sabia que havia lógica: não poderia ter comprado o presente que não escolhera porque esquecera o aniversário de casamento.

Para mudar de opinião, é preciso estar errado. Mas, estava?

Poderia ter dinheiro amassado nos bolsos. Nenhuma nota, nem que fosse a de dois reais. Não tinha remédio, era melhor voltar.

Sabia onde escondera as reservas. Pra evitar novamente a tontura, não olhou pro alto. Levantou-se com dificuldade. Devia ter mais de cem reais em notas de dois. Pra não prolongar o sofrimento de tomar garoa gelada no cocuruto, patavinas que a chuvinha era boa.

Sempre tem um boteco à espera do último cliente, contava que lhe vendessem fiado. Não tinha que se apressar porque dinheiro só cresce em caixa eletrônico. Nem cartão trouxera consigo. E no meio do trajeto mais rotineiro que os carimbos do escritório, abismou-o a claridade.

Passando diante da farmácia, foi surpreendente notar que não tinha viv’alma no estabelecimento. Além do segurança de olho no seu celular e do balconista também entretido no seu telefone, ambos o ignoraram que passava devagar.

Balançando ao vento, passava.

Aquela farmácia aberta de madrugada sempre esteve ali? Não seria ilusão de andarilho massacrado pelo sol do Saara? Ou viraria um oásis mágico a quem sedento de dinheiro para birita boa e barata?

Atravessado por essas ideias, ia indo.

Que bom que não carregava um pacote, podia andar devagar, sem o risco de escorregar. Não ter lembrado o casamento era mesmo uma benção. Fora o fato de que papel chupa água como pinguço seca copo, e o que era embrulho caprichado viraria maçaroca no lixo.

Vá com calma. Melhor abafar tais pensamentos, pois eles não têm controle sobre a chuva, a calçada e a sola dos tênis.

Chuva que bendiz é a mesma que enerva, uma vez que tombos são contundentes porque tornam ridículo quem desaba.

Ele não queria ser abençoado às três da madruga, ainda que a rua estivesse vazia. Se caísse, teria vergonha do fiasco que faria. E a dor haveria de ser mais pungente no seu peito do que na sua bunda.

Evoé, Sexta-Feira da Paixão!

Queria receber uma benção. A chuva era sinal de que o perdão lhe era concedido. A tristeza o machucava, não o queria afundado na raiva lodosa que o moldaria amargurado. O rancor durou rodadas. Pra deixá-lo sem nada, a solidão veio veloz: camaradinha, a grana ganha de sol a sol evapora numa noitada.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de abril de 2023.

quinta-feira, 6 de abril de 2023

Pra lá e pra cá

Pra lá e pra cá

 

Em respeito à lei da convivência pacífica, fique estabelecido que a pessoa do lado de lá faça o que bem entender na varanda da sua casa desde que não se cometam ilícitos nem seja agredido o pudor público; em outras palavras, esteja implícito que a pessoa do lado de cá possa permanecer na varanda da sua casa sem se espantar com espetáculos ultrajantes nem se horrorizar com miserandas vilanias.

Na primeira manhã das mudanças, a pessoa de lá trocou as plantas de lugar: os vasos maiores foram arrastados pras laterais, os menores foram fixados nas vigas de sustentação do telhado.

Os furos feitos, na parede e numa viga, ganharam ganchos; e uma rede foi aberta, testada e aprovada.

A primeira manhã de transformações da varanda foi encerrada com o pagamento em dinheiro, uma jarra de suco e sorrisos.

A pessoa do lado de cá decidiu-se a dar uma resposta equiparável àquela iniciativa: sem vasos para deslocar na sua varanda, ela mesma fez os furos, parafusou os ganchos e deitou-se na sua rede.

Com tudo acontecendo de modo tão impulsivo, a resposta à pessoa do lado de lá terminou sem brinde algum porque a proativa pessoa do lado de cá sequer tomou um copo d’água.

A primeira tarde depois da rede instalada na varanda começou com a pessoa do lado de lá pendurando pequenos quadros.

Tais marteladas acordaram a pessoa do lado de cá, que, poropopó, pregou uma bandeira da torcida da qual era membro.

Certamente depois de ter jantado, a pessoa do lado de lá desarmou a rede pra dar espaço à cadeira cujo balanço constante tranquilizavam-na. Tanto quanto gatos ronronam quando acarinhados, singela e doce, cantarolando, ela ninava a si própria.

Do lado de cá, como digerir aquilo era difícil, a pessoa sumiu-se.

Na manhã seguinte, a serena pessoa do lado de lá trouxe mesinha, banqueta e uma pilha de livros.

Na mesinha ela pôs uma travessa com bule e bolachas. Voltada pra calçada, pôs-se a beber o café da manhã. Esquecera-se da maçã, mas foi com ela que encerrou o seu desjejum.

Incomodada com a exibição de frugalidade, a pessoa de cá também trouxe banqueta, trouxe outra, trouxe ainda seu pacote de salgadinhos, devidamente devorados com golezinhos de guaraná.

Como refrigerantes têm gás, eructações são consequência.

Protegida por fones de ouvido, a sequência de arrotos advindos do lado de cá não ofendeu a sensibilidade da pessoa da banda de lá.

Ignorada por uma pessoinha tão desaforenta, que demonstrava dar mais importância a escutar suas musiquinhas como se a vida daqui de fora não lhe dissesse respeito, isso era uma desfeita.

Como pessoa melindrosa merece resposta em tal quilate, a pessoa de cá, antes mesmo do almoço, trouxe um isopor, do qual retirou uma latinha; verificada a temperatura, bebeu a cerveja toda numa golada.

Na terceira margem da rua, sem tecer paralelos, a terapia do ciclista é circular.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 06 de abril de 2023.