Em respeito à lei da convivência
pacífica, fique estabelecido que a pessoa do lado de lá faça o que bem entender
na varanda da sua casa desde que não se cometam ilícitos nem seja agredido o
pudor público; em outras palavras, esteja implícito que a pessoa do lado de cá
possa permanecer na varanda da sua casa sem se espantar com espetáculos ultrajantes
nem se horrorizar com miserandas vilanias.
Na primeira manhã das mudanças, a pessoa
de lá trocou as plantas de lugar: os vasos maiores foram arrastados pras laterais,
os menores foram fixados nas vigas de sustentação do telhado.
Os furos feitos, na parede e numa viga,
ganharam ganchos; e uma rede foi aberta, testada e aprovada.
A primeira manhã de transformações da
varanda foi encerrada com o pagamento em dinheiro, uma jarra de suco e sorrisos.
A pessoa do lado de cá decidiu-se a dar
uma resposta equiparável àquela iniciativa: sem vasos para deslocar na sua
varanda, ela mesma fez os furos, parafusou os ganchos e deitou-se na sua rede.
Com tudo acontecendo de modo tão
impulsivo, a resposta à pessoa do lado de lá terminou sem brinde algum porque a
proativa pessoa do lado de cá sequer tomou um copo d’água.
A primeira tarde depois da rede
instalada na varanda começou com a pessoa do lado de lá pendurando pequenos quadros.
Tais marteladas acordaram a pessoa do
lado de cá, que, poropopó, pregou uma bandeira da torcida da qual era membro.
Certamente depois de ter jantado, a
pessoa do lado de lá desarmou a rede pra dar espaço à cadeira cujo balanço constante
tranquilizavam-na. Tanto quanto gatos ronronam quando acarinhados, singela e
doce, cantarolando, ela ninava a si própria.
Do lado de cá, como digerir aquilo era
difícil, a pessoa sumiu-se.
Na manhã seguinte, a serena pessoa do
lado de lá trouxe mesinha, banqueta e uma pilha de livros.
Na mesinha ela pôs uma travessa com bule
e bolachas. Voltada pra calçada, pôs-se a beber o café da manhã. Esquecera-se
da maçã, mas foi com ela que encerrou o seu desjejum.
Incomodada com a exibição de
frugalidade, a pessoa de cá também trouxe banqueta, trouxe outra, trouxe ainda
seu pacote de salgadinhos, devidamente devorados com golezinhos de guaraná.
Como refrigerantes têm gás, eructações
são consequência.
Protegida por fones de ouvido, a
sequência de arrotos advindos do lado de cá não ofendeu a sensibilidade da
pessoa da banda de lá.
Ignorada por uma pessoinha tão desaforenta,
que demonstrava dar mais importância a escutar suas musiquinhas como se a vida
daqui de fora não lhe dissesse respeito, isso era uma desfeita.
Como pessoa melindrosa merece resposta
em tal quilate, a pessoa de cá, antes mesmo do almoço, trouxe um isopor, do
qual retirou uma latinha; verificada a temperatura, bebeu a cerveja toda numa
golada.
Na terceira margem da rua, sem tecer
paralelos, a terapia do ciclista é circular.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 06 de abril de 2023.
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