domingo, 9 de abril de 2023

Santo de barro

 

Santo de barro

 

No meio da madrugada, sentado na calçada, no meio-fio, tinha esse sujeito que não parava de reclamar da garoa, das meias molhadas nos tênis em sopa, daquele frio parado nos pés, era frio glacial.

Como se o poste tivesse interesse no que falava, falou do presente que não tinha esquecido. Como se a casinha de barro no alto do poste não estivesse vazia, disse a uma bituca que não tinha lembrado a data. Como estava um tanto triste e um tanto raivoso, batendo contra o peito a carteira, sabia que havia lógica: não poderia ter comprado o presente que não escolhera porque esquecera o aniversário de casamento.

Para mudar de opinião, é preciso estar errado. Mas, estava?

Poderia ter dinheiro amassado nos bolsos. Nenhuma nota, nem que fosse a de dois reais. Não tinha remédio, era melhor voltar.

Sabia onde escondera as reservas. Pra evitar novamente a tontura, não olhou pro alto. Levantou-se com dificuldade. Devia ter mais de cem reais em notas de dois. Pra não prolongar o sofrimento de tomar garoa gelada no cocuruto, patavinas que a chuvinha era boa.

Sempre tem um boteco à espera do último cliente, contava que lhe vendessem fiado. Não tinha que se apressar porque dinheiro só cresce em caixa eletrônico. Nem cartão trouxera consigo. E no meio do trajeto mais rotineiro que os carimbos do escritório, abismou-o a claridade.

Passando diante da farmácia, foi surpreendente notar que não tinha viv’alma no estabelecimento. Além do segurança de olho no seu celular e do balconista também entretido no seu telefone, ambos o ignoraram que passava devagar.

Balançando ao vento, passava.

Aquela farmácia aberta de madrugada sempre esteve ali? Não seria ilusão de andarilho massacrado pelo sol do Saara? Ou viraria um oásis mágico a quem sedento de dinheiro para birita boa e barata?

Atravessado por essas ideias, ia indo.

Que bom que não carregava um pacote, podia andar devagar, sem o risco de escorregar. Não ter lembrado o casamento era mesmo uma benção. Fora o fato de que papel chupa água como pinguço seca copo, e o que era embrulho caprichado viraria maçaroca no lixo.

Vá com calma. Melhor abafar tais pensamentos, pois eles não têm controle sobre a chuva, a calçada e a sola dos tênis.

Chuva que bendiz é a mesma que enerva, uma vez que tombos são contundentes porque tornam ridículo quem desaba.

Ele não queria ser abençoado às três da madruga, ainda que a rua estivesse vazia. Se caísse, teria vergonha do fiasco que faria. E a dor haveria de ser mais pungente no seu peito do que na sua bunda.

Evoé, Sexta-Feira da Paixão!

Queria receber uma benção. A chuva era sinal de que o perdão lhe era concedido. A tristeza o machucava, não o queria afundado na raiva lodosa que o moldaria amargurado. O rancor durou rodadas. Pra deixá-lo sem nada, a solidão veio veloz: camaradinha, a grana ganha de sol a sol evapora numa noitada.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de abril de 2023.

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