No meio da madrugada, sentado na
calçada, no meio-fio, tinha esse sujeito que não parava de reclamar da garoa, das
meias molhadas nos tênis em sopa, daquele frio parado nos pés, era frio glacial.
Como se o poste tivesse interesse no que
falava, falou do presente que não tinha esquecido. Como se a casinha de barro
no alto do poste não estivesse vazia, disse a uma bituca que não tinha lembrado
a data. Como estava um tanto triste e um tanto raivoso, batendo contra o peito
a carteira, sabia que havia lógica: não poderia ter comprado o presente que não
escolhera porque esquecera o aniversário de casamento.
Para mudar de opinião, é preciso estar
errado. Mas, estava?
Poderia ter dinheiro amassado nos
bolsos. Nenhuma nota, nem que fosse a de dois reais. Não tinha remédio, era
melhor voltar.
Sabia onde escondera as reservas. Pra
evitar novamente a tontura, não olhou pro alto. Levantou-se com dificuldade. Devia
ter mais de cem reais em notas de dois. Pra não prolongar o sofrimento de tomar
garoa gelada no cocuruto, patavinas que a chuvinha era boa.
Sempre tem um boteco à espera do último
cliente, contava que lhe vendessem fiado. Não tinha que se apressar porque
dinheiro só cresce em caixa eletrônico. Nem cartão trouxera consigo. E no meio
do trajeto mais rotineiro que os carimbos do escritório, abismou-o a claridade.
Passando diante da farmácia, foi
surpreendente notar que não tinha viv’alma no estabelecimento. Além do
segurança de olho no seu celular e do balconista também entretido no seu
telefone, ambos o ignoraram que passava devagar.
Balançando ao vento, passava.
Aquela farmácia aberta de madrugada
sempre esteve ali? Não seria ilusão de andarilho massacrado pelo sol do Saara?
Ou viraria um oásis mágico a quem sedento de dinheiro para birita boa e barata?
Atravessado por essas ideias, ia indo.
Que bom que não carregava um pacote,
podia andar devagar, sem o risco de escorregar. Não ter lembrado o casamento
era mesmo uma benção. Fora o fato de que papel chupa água como pinguço seca
copo, e o que era embrulho caprichado viraria maçaroca no lixo.
Vá com calma. Melhor abafar tais
pensamentos, pois eles não têm controle sobre a chuva, a calçada e a sola dos
tênis.
Chuva que bendiz é a mesma que enerva,
uma vez que tombos são contundentes porque tornam ridículo quem desaba.
Ele não queria ser abençoado às três da
madruga, ainda que a rua estivesse vazia. Se caísse, teria vergonha do fiasco
que faria. E a dor haveria de ser mais pungente no seu peito do que na sua
bunda.
Evoé, Sexta-Feira da Paixão!
Queria receber uma benção. A chuva era
sinal de que o perdão lhe era concedido. A tristeza o machucava, não o queria
afundado na raiva lodosa que o moldaria amargurado. O rancor durou rodadas. Pra
deixá-lo sem nada, a solidão veio veloz: camaradinha, a grana ganha de sol a
sol evapora numa noitada.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 09 de abril de 2023.
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