sexta-feira, 21 de abril de 2023

Somente a verdade

 

Somente a verdade

 

Houve uma confusão qualquer no quintal. Volta e meia, as crianças brigavam; e nunca era por pouca coisa, sempre havia motivo. Primeiro pintavam as rusgas, o chororô vinha depois. Ao que parece, foi a vez de o menino ter apanhado da irmã; ele entrar pedindo que o apoiassem era sinal disso.

Como a mãe estava no trabalho, cabia à filha mais velha cuidar dos dois irmãos. Ela tinha tanta coisa para ver no celular; que viessem com encrenca era demais. Seria ótimo se ficassem brincando, a deixassem em paz, ou ela contaria tudo na hora do almoço. E a mamãe daria jeito nos dois, como ela sempre dava.

O menino voltou pro quintal; ali ele não ficou nem cinco minutos.

A mais velha não quis saber, empurrou o irmãozinho pro quintal; ele e a irmãzinha se entendessem ou rolassem no chão, isso era com eles; ela tinha mais o que fazer, e trancar a porta da sala foi a primeira coisa que ela fez.

O problema é que a porta da cozinha estava aberta; o chorão voltou e veio pra cima dela. Deu-lhe tapas nos braços, esmurrou a poltrona e, se ela não cobrisse o rosto, teria recebido a cusparada.

O menino teria de limpar o chão; mesmo o limpando, que soubesse que haveria de haver-se com a mamãe. Ele teria de confessar, porque dele seria exigido que falasse a verdade, nada de choro ou mentiras.

O que as crianças não sabiam nem tinham como saber é que a mãe e o pai estavam na rua; mais exatamente, estavam na frente do prédio onde houve outra reunião produtiva, sobre a guarda dos filhos.

Foi preciso que guardas interviessem, ou haveria mais do que uma simples discussão. A contenda envolveria pugilato e unhadas.

De acordo com ele, quem queria briga era ela, uma vez que ele não era de gritar nem de gesticular; no duro mesmo, era um cara pacato.

Segundo ela, quem começou foi ele, porque ele dizia que a amava, mas, apesar desse amor, ele a traiu. Que amorzinho mais ordinário, de gente que não era capaz de empenhar-se na fidelidade. Nem que fosse pela lasanha de berinjela aos domingos, nem que pedisse picanha bem passada nos espetinhos. Truco!

Enquanto isso, na televisão, informavam que uma frente fria estava chegando. O certo seria os móveis ficarem meio metro acima do chão. Anunciaram, choveria forte por horas. Previam deslizamentos, haveria terra na pista, estradas acabariam interditadas. Que transtorno.

Enfim, a irmãzinha que bateu no irmãozinho apareceu. Lambuzada de manga. Subira na mangueira. Comera o quanto quis. Sem ninguém para aporrinhá-la, foi uma maravilha ficar comendo enquanto quisesse. Teve enjoo. Achou de pular, o pé não firmou, ralou os joelhos, mas não mancaria. Sendo a agredida, tinha que manter o ar bem carrancudo.

Felizardos à parte, no centro onde prosperaram birras e dissuasão, os bons de lábia tomavam vinho, beliscavam fritas. Proibidos de fumar, os bons doutores pescavam mil e um tucunarés.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de abril de 2023.

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