Somente
a verdade
Houve uma confusão qualquer no quintal.
Volta e meia, as crianças brigavam; e nunca era por pouca coisa, sempre havia
motivo. Primeiro pintavam as rusgas, o chororô vinha depois. Ao que parece, foi
a vez de o menino ter apanhado da irmã; ele entrar pedindo que o apoiassem era
sinal disso.
Como a mãe estava no trabalho, cabia à
filha mais velha cuidar dos dois irmãos. Ela tinha tanta coisa para ver no
celular; que viessem com encrenca era demais. Seria ótimo se ficassem brincando,
a deixassem em paz, ou ela contaria tudo na hora do almoço. E a mamãe daria
jeito nos dois, como ela sempre dava.
O menino voltou pro quintal; ali ele não
ficou nem cinco minutos.
A mais velha não quis saber, empurrou o
irmãozinho pro quintal; ele e a irmãzinha se entendessem ou rolassem no chão,
isso era com eles; ela tinha mais o que fazer, e trancar a porta da sala foi a
primeira coisa que ela fez.
O problema é que a porta da cozinha
estava aberta; o chorão voltou e veio pra cima dela. Deu-lhe tapas nos braços,
esmurrou a poltrona e, se ela não cobrisse o rosto, teria recebido a cusparada.
O menino teria de limpar o chão; mesmo o
limpando, que soubesse que haveria de haver-se com a mamãe. Ele teria de
confessar, porque dele seria exigido que falasse a verdade, nada de choro ou
mentiras.
O que as crianças não sabiam nem tinham
como saber é que a mãe e o pai estavam na rua; mais exatamente, estavam na
frente do prédio onde houve outra reunião produtiva, sobre a guarda dos filhos.
Foi preciso que guardas interviessem, ou
haveria mais do que uma simples discussão. A contenda envolveria pugilato e
unhadas.
De acordo com ele, quem queria briga era
ela, uma vez que ele não era de gritar nem de gesticular; no duro mesmo, era um
cara pacato.
Segundo ela, quem começou foi ele,
porque ele dizia que a amava, mas, apesar desse amor, ele a traiu. Que amorzinho
mais ordinário, de gente que não era capaz de empenhar-se na fidelidade. Nem
que fosse pela lasanha de berinjela aos domingos, nem que pedisse picanha bem
passada nos espetinhos. Truco!
Enquanto isso, na televisão, informavam
que uma frente fria estava chegando. O certo seria os móveis ficarem meio metro
acima do chão. Anunciaram, choveria forte por horas. Previam deslizamentos, haveria
terra na pista, estradas acabariam interditadas. Que transtorno.
Enfim, a irmãzinha que bateu no
irmãozinho apareceu. Lambuzada de manga. Subira na mangueira. Comera o quanto
quis. Sem ninguém para aporrinhá-la, foi uma maravilha ficar comendo enquanto
quisesse. Teve enjoo. Achou de pular, o pé não firmou, ralou os joelhos, mas não
mancaria. Sendo a agredida, tinha que manter o ar bem carrancudo.
Felizardos à parte, no centro onde prosperaram
birras e dissuasão, os bons de lábia tomavam vinho, beliscavam fritas. Proibidos
de fumar, os bons doutores pescavam mil e um tucunarés.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 21 de abril de 2023.
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