Realidade
virtual
A campainha bateu. Bateu de novo. Foi
batendo, e batendo, até que a porta fosse aberta. Só fui escutá-la com o
chuveiro desligado, garanti a quem chiou comigo pela demora a atendê-lo.
Se eu fosse uma máquina, estaria
programado para abrir a porta ao primeiro sinal, mas a mecânica dos meus
componentes funciona tendo a irracionalidade como combustível e os sentimentos,
por graxa.
Como não gosto de receber visita na hora
da janta, deixei a pessoa esperando. Fiz-me entender que não atenderia a porta
enrolado numa toalha. Já que optei por vestir um moletom, escolhê-lo demandou que
considerasse a previsão: é burrice calcular que não haverá queda de temperatura
só porque não sinto frio no momento.
Sem unir os pontos, o visitante não
percebeu que banho pra mim é sagrado, é o tempo que tenho pra me desligar da
adrenalina, é quando começo a me preparar pra dormir.
Se à pessoa que chegou sem ser convidada
eu não tivesse omitido a contrariedade pela sua vinda, não me veria enredado:
ꟷ Gente fina, peça a pizza, pois eu
trouxe vinho.
Que esperem de mim que me mantenha esse
camarada boa praça que confirma a opinião alheia, essa camisa de força me
ajusta porque dissimulo com louvor o desprendimento de quem abraça o mundo com
a sensibilidade de acolher a ideia de outrem: se eu trouxe o vinho, está
garantida a qualidade.
Mantenho a barra da camiseta por dentro
da calça. Conservo a risca do cabelo penteado da esquerda pra direita. Preservo
o bom humor de abrir a garrafa como se entendesse de vinho para classificá-lo
bom.
Lendo o rótulo, disse que a marca era respeitada,
a uva era do tipo que aprazia pela leve acidez e a origem, todo mundo sabe que
o clima chileno se parece muito com o francês.
A consciência pesou. E repesou. Foi
sopesando e sopesando, sem que a porta fosse fechada. Só vim a me escutar com o
telefone ligado, ao me ouvir pedindo que fossem rápidos com a entrega.
A fluidez da vida é de fato um
espetáculo, que nem pede aplausos mas nem penso em me vaiar; comigo fluindo:
viva!
Pedaço a pedaço, a primeira pizza sumiu
ainda quente; a seguinte precisou do micro-ondas. E a primeira garrafa acabou.
Mal respiramos, outra garrafa foi
aberta. Na falta de mais uma pizza, uma tábua de provolone nem esquentou na
mesa; e cubinho a cubinho, comemos o queijo como se a larica tivesse derretido os
neurônios.
Por óbvio: noite de vinho e pizza tem
que acabar em sorvete.
Meu amigo queria picolé de trufado de
café.
ꟷ O mercado, meu amigo, não faz picolé
de trufado de café.
Passamos à massa, mas a negociação foi
tensa: queríamos passas ao rum, dissemos papaia com cassis; pensávamos abóbora
com coco, falamos pistache.
Os potes chegaram.
E o motoboy contava com a gorjeta de
sempre, dez reais.
Afora a alegria ao pegar a notinha de cinquenta,
o entregador saiu-se com a novidade de que o pagamento poderia ser em remimbi.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 16 de abril de 2023.
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