domingo, 16 de abril de 2023

Realidade virtual

 

Realidade virtual

 

A campainha bateu. Bateu de novo. Foi batendo, e batendo, até que a porta fosse aberta. Só fui escutá-la com o chuveiro desligado, garanti a quem chiou comigo pela demora a atendê-lo.

Se eu fosse uma máquina, estaria programado para abrir a porta ao primeiro sinal, mas a mecânica dos meus componentes funciona tendo a irracionalidade como combustível e os sentimentos, por graxa.

Como não gosto de receber visita na hora da janta, deixei a pessoa esperando. Fiz-me entender que não atenderia a porta enrolado numa toalha. Já que optei por vestir um moletom, escolhê-lo demandou que considerasse a previsão: é burrice calcular que não haverá queda de temperatura só porque não sinto frio no momento.

Sem unir os pontos, o visitante não percebeu que banho pra mim é sagrado, é o tempo que tenho pra me desligar da adrenalina, é quando começo a me preparar pra dormir.

Se à pessoa que chegou sem ser convidada eu não tivesse omitido a contrariedade pela sua vinda, não me veria enredado:

ꟷ Gente fina, peça a pizza, pois eu trouxe vinho.

Que esperem de mim que me mantenha esse camarada boa praça que confirma a opinião alheia, essa camisa de força me ajusta porque dissimulo com louvor o desprendimento de quem abraça o mundo com a sensibilidade de acolher a ideia de outrem: se eu trouxe o vinho, está garantida a qualidade.

Mantenho a barra da camiseta por dentro da calça. Conservo a risca do cabelo penteado da esquerda pra direita. Preservo o bom humor de abrir a garrafa como se entendesse de vinho para classificá-lo bom.

Lendo o rótulo, disse que a marca era respeitada, a uva era do tipo que aprazia pela leve acidez e a origem, todo mundo sabe que o clima chileno se parece muito com o francês.

A consciência pesou. E repesou. Foi sopesando e sopesando, sem que a porta fosse fechada. Só vim a me escutar com o telefone ligado, ao me ouvir pedindo que fossem rápidos com a entrega.

A fluidez da vida é de fato um espetáculo, que nem pede aplausos mas nem penso em me vaiar; comigo fluindo: viva!

Pedaço a pedaço, a primeira pizza sumiu ainda quente; a seguinte precisou do micro-ondas. E a primeira garrafa acabou.

Mal respiramos, outra garrafa foi aberta. Na falta de mais uma pizza, uma tábua de provolone nem esquentou na mesa; e cubinho a cubinho, comemos o queijo como se a larica tivesse derretido os neurônios.

Por óbvio: noite de vinho e pizza tem que acabar em sorvete.

Meu amigo queria picolé de trufado de café.

ꟷ O mercado, meu amigo, não faz picolé de trufado de café.

Passamos à massa, mas a negociação foi tensa: queríamos passas ao rum, dissemos papaia com cassis; pensávamos abóbora com coco, falamos pistache.

Os potes chegaram.

E o motoboy contava com a gorjeta de sempre, dez reais.

Afora a alegria ao pegar a notinha de cinquenta, o entregador saiu-se com a novidade de que o pagamento poderia ser em remimbi.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de abril de 2023.

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