quinta-feira, 13 de abril de 2023

Continuação

 

Continuação

 

Como a vida é rio que não para de passar e suas águas são o novo a cada instante, antecipo que não tenho natureza incomum. Tento não ser arrastado e, momento a momento, trato de manter a leveza.

Então, ontem vim casmurro e amanhã também virei o mesmíssimo casmurro, e tudo bem que não me contradigo?

Ao pé da letra, se me mantivesse lucidamente coerente, digo que o tempero que mais me satisfaz é mesmo a contradição.

Nem tão casmurro nem tão carismático, pois a vida é instantânea e vivo como me sinto, entre curioso e entediado, indiferente e antenado, ardiloso e mentecapto, distraído e cativo, como sempre, sento e, para não chamar atenção, deixo que outros me puxem à conversa.

Mais silencioso que a média, muitos pensam que sou um camarada fechado, que pareço ter vivido muitas complicações, que essas minhas muitas feridas me angustiam tanto porque não as trato como deveria, pois eu poderia parar de sofrer se não me adaptasse a tais chagas.

Quando não se lhe reconhecem os palpites certeiros que julgam ter, decepcionam-se estas pessoas tão solidárias. Porque eu não as quero frustradas, ouço-as em silêncio e agradeço-lhes pelas palpitações.

Na maior parte das vezes, venho sentar-me ao balcão sem ânsias de querer compartilhadas minhas impaciências.

Se dormi mal, as pessoas não precisam saber.

Se cochilei vendo TV, fui eu que escolhi o filme.

Se acordei de madrugada, é que meus rins funcionam bem.

Se bebi muita água, melhor que tenha sido água.

À padaria, eu procuro chegar por volta das sete. Enquanto há mais lugares vagos do que gente de garganta boa, que tem certeza de que levantar a voz ajuda a apressar o aquecimento da chapa.

ꟷ O de sempre, patrão?

Eu penso: as orelhas de pessoas estúpidas não queimam por causa da estupidez mesmo que tenham sobre a nuca olhares neuróticos?

Como o rio do mundo tem margens que serpenteiam de acordo com o terreno, divago entre apático e resignado, rebelde e tolerante, sóbrio e apaixonado, por isso olho o espelho e reconheço que não fiz a barba, que a testa enrugada diz que estou positivamente neurótico.

Pelo ridículo da ideia, dissimulo que estou surdo. Por não responder à pergunta, parado à minha frente, o balconista repete:

ꟷ Vai querer o mesmo de sempre, patrão?

Como eu não assobiei nem esbravejei, sou atendido por quem acha melhor ignorar minha famigerada casmurrice.

De fato, eu quero pão com manteiga nas duas metades.

Tenho outra ideia brilhante: o problema de quem conta um segredo é a ilusão de controlar a rede por onde circula o dito em confiança?

Para que meu pedido fique completo, acrescento que eu quero café expresso, o grande, e dispenso açúcar e adoçante.

Sobressaltado com minha voz, berro ao chapeiro como se estivesse falando a meus botões:

ꟷ Boa gente, capricha aí na manteiga porque ela não é de nenhuma marca que eu já tenha experimentado.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 13 de abril de 2023.

Nenhum comentário:

Postar um comentário