O
homem lírico
Venta frio e não quero banalizar, dizer
que o frio do vento enregela. Intermitente, o vento que passa silvando pelas
frestas da porta esfria o quarto. Não há canção, há ruído, é irritante porque
descontínuo. Tanto silva que abro a porta, e uma luz tênue acentua em mim a melancolia.
E sobre as coisas pouso o olhar melancólico. Sobre os livros, as folhas, os
badulaques, em tudo há essa camada de tristeza serena. Embora a poeira recubra
as coisas, gosto do cheiro da terra molhada que o vento aviva. Sobrepõe-se em
mim o ar gelado ao cheiro de um quarto parado no tempo. Venta frio e não
pretendo escamotear a contradição: estou trancado em mim, me sinto mofado e
reconheço que a poeira recobre os livros empilhados porque não me renovo a cada
dia. Tenho pra mim que abrir a porta não se fundamenta na necessidade de
renovação. A luz que vem de fora é fraca, não tem poderes mágicos nem me faz
ver que o tempo pousado nas coisas é a pátina que trago em mim. Dentro de mim
não me percebo úmido, digo que o ar gelado é úmido. O vento frio e úmido é que
traz a umidade do mundo para dentro do quarto. Se respiro o bolor, não o
condiciono ao tédio. Se transpiro o mofo, sei que não suo. A manhã é úmida e
vazia. Parada na percepção de que estou amortecido para senti-la móvel, embora
vente. Imóvel, vejo a parede do quarto. A parede me faz pensar: há poeira no
ar. Compreendo que respiro o bolor. Compreendo, produzo mofo. Não morrerei do
tédio que transmito às coisas do quarto. O gato olha a parede, a parede que olho,
e a ele ocorrerá o pensamento de que a imobilidade nega o dinamismo da vida?
Sem mexer a cabeça, sem abanar o rabo, sem baixar os olhos e sem me ver a
observá-lo, o gato olha a parede. Ele não a recobre de outro significado a não
ser o de que ela o impede de ver o que há além? Sem sombras, rachaduras,
manchas. É apenas a parede parada diante do gato parado. Intuirá a metafísica a
que a imobilidade induz? Que o tempo imóvel é o que não para? A porta aberta
pode bater? Entre uma batida e outra, pode ser medido o intervalo? Que o tempo
soprado pelo vento é que faz crescer o mofo na pilha de livros? O tempo respira;
faz mofar, murchar e quarar. Não é o tempo que quara o que está mofado, é a luz
do sol. As nuvens são água; a água está em mim e nas coisas. O tédio que sinto dita
o instante. E percebo, é o vento que me contradiz. Sem necessidade de me enganar,
digo ser essa pessoa ludibriada. É outono e não há sol. Ainda que o frio
aumente quando sopra o vento, permaneço de porta aberta. Nuvens não anulam o
sol, e não me anulo quando estou só. Não me apago, sinto o fastio. Entendo, o
tempo que passa não silva nas frestas, só o vento. Mesmo que eu veja o gato que
não me vê, eu não assobio uma canção triste. Isso não impede de me achar
triste. Melancólico, um tanto vazio, ocupo-me de mim, ocupo-me da mente em que me
penso.
Condiz a tal pastiche: alma lírica
também mofa.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 18 de abril de 2023.
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