terça-feira, 18 de abril de 2023

O homem lírico

 

O homem lírico

 

Venta frio e não quero banalizar, dizer que o frio do vento enregela. Intermitente, o vento que passa silvando pelas frestas da porta esfria o quarto. Não há canção, há ruído, é irritante porque descontínuo. Tanto silva que abro a porta, e uma luz tênue acentua em mim a melancolia. E sobre as coisas pouso o olhar melancólico. Sobre os livros, as folhas, os badulaques, em tudo há essa camada de tristeza serena. Embora a poeira recubra as coisas, gosto do cheiro da terra molhada que o vento aviva. Sobrepõe-se em mim o ar gelado ao cheiro de um quarto parado no tempo. Venta frio e não pretendo escamotear a contradição: estou trancado em mim, me sinto mofado e reconheço que a poeira recobre os livros empilhados porque não me renovo a cada dia. Tenho pra mim que abrir a porta não se fundamenta na necessidade de renovação. A luz que vem de fora é fraca, não tem poderes mágicos nem me faz ver que o tempo pousado nas coisas é a pátina que trago em mim. Dentro de mim não me percebo úmido, digo que o ar gelado é úmido. O vento frio e úmido é que traz a umidade do mundo para dentro do quarto. Se respiro o bolor, não o condiciono ao tédio. Se transpiro o mofo, sei que não suo. A manhã é úmida e vazia. Parada na percepção de que estou amortecido para senti-la móvel, embora vente. Imóvel, vejo a parede do quarto. A parede me faz pensar: há poeira no ar. Compreendo que respiro o bolor. Compreendo, produzo mofo. Não morrerei do tédio que transmito às coisas do quarto. O gato olha a parede, a parede que olho, e a ele ocorrerá o pensamento de que a imobilidade nega o dinamismo da vida? Sem mexer a cabeça, sem abanar o rabo, sem baixar os olhos e sem me ver a observá-lo, o gato olha a parede. Ele não a recobre de outro significado a não ser o de que ela o impede de ver o que há além? Sem sombras, rachaduras, manchas. É apenas a parede parada diante do gato parado. Intuirá a metafísica a que a imobilidade induz? Que o tempo imóvel é o que não para? A porta aberta pode bater? Entre uma batida e outra, pode ser medido o intervalo? Que o tempo soprado pelo vento é que faz crescer o mofo na pilha de livros? O tempo respira; faz mofar, murchar e quarar. Não é o tempo que quara o que está mofado, é a luz do sol. As nuvens são água; a água está em mim e nas coisas. O tédio que sinto dita o instante. E percebo, é o vento que me contradiz. Sem necessidade de me enganar, digo ser essa pessoa ludibriada. É outono e não há sol. Ainda que o frio aumente quando sopra o vento, permaneço de porta aberta. Nuvens não anulam o sol, e não me anulo quando estou só. Não me apago, sinto o fastio. Entendo, o tempo que passa não silva nas frestas, só o vento. Mesmo que eu veja o gato que não me vê, eu não assobio uma canção triste. Isso não impede de me achar triste. Melancólico, um tanto vazio, ocupo-me de mim, ocupo-me da mente em que me penso.

Condiz a tal pastiche: alma lírica também mofa.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de abril de 2023.


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