Cama
quente
Não abro os olhos nem tateio as paredes,
vou no escuro. A vontade de urinar é mais forte que titubeios. Sei, a confiança
garante o próximo passo. Confiante, arrisco a integridade da testa. Acredito
que paredes não precisam demonstrar estabilidade; não as impedirei de a mim me abalroarem
como um corpo estranho. Não que a bexiga explodindo me faça agir feito imbecil,
ajo por excesso. Excedo-me, alcanço a precisão de estar no lugar esperado no
momento não calculado, mesmo porque é especulação vulgar os pingos na tampa serem
dados como sintoma. De olhos abertos e mãos bobas, conheço a casa de cor e
salteado.
A madrugada tem chão e não o quero
alongado. Ainda que os olhos não ardam de sono, que ele, o sono, vença tal
vigília imprópria.
Este inconveniente, ficar pensando na
vida quando poderia dormir, não o debitarei na conta da imbecilidade. Credito-o
porque fraquejo. E a minha pusilanimidade é tanta que me julgo feliz.
Me percebo imerso num estado
contraditório: estou feliz porque me contrario. Ajo como um ser uniforme: sou
essa pessoa que transita de forma segura, sou quem não receia as paredes, sou
eu que dispenso bússola. Sei ir do quarto ao banheiro. Sei ir e sei voltar,
pois vivo aqui. No entanto, contrariando a imagem que formo de mim mesmo,
perdido por um instante, paro no corredor às escuras.
Parado nesse momento, calho de pensar: sem
pensar que a parede do quarto é uma das paredes do corredor, a parede do quarto
é parede do banheiro, a parede do banheiro também é uma das paredes da sala;
sem refletir, levantei da cama, vim pelo corredor, urinei no vaso e dei a descarga;
o que me perturba neste instante: estou pensando.
Se me permito uma leitura imaginativa do
que acabei de fazer, diria que naveguei em águas tranquilas, boníssimas a
veleiros; dirigido por ventos calmos, apreciei o horizonte; sem tédio, senti a
realidade.
Penso, logo vejo que o corredor escuro é
um espelho.
No filme O sangue de um poeta, na
cena do espelho, entendo que é possível passar pela água do espelho, dá pra mergulhar
no reflexo.
Compreendo, tenho dois lados: na cama, o
pesadelo me põe suado, os meus demônios me querem acordado; na sala, o sofá
acolhe quem se dispõe a conversar, a urbanidade me ajeita em bom camarada.
Onde me vejo unido a essas minhas duas faces?
O que sobra de mim, o que as entranhas
descartam, vá pelo esgoto; o que suja, o que trago impregnado na pele, livra-me
o chuveiro.
Há um vórtice na minha mente: estarei à
boca de um ralo?
O sonho interrompido não tem
importância. Como não o rememoro, não o escarafuncho aos pântanos da cachola.
Quiçá regresse; quiçá o fio seja reatado para que outra história ganhe fluxo;
quiçá meu cérebro trabalhe a favor.
Aliviado e satisfeito, volto pra cama
sem nenhum arranhão. Aliviado e realizado, só penso esse senão: cadê o sonho?
Sou um cara de sorte, posso dormir.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 23 de abril de 2023.
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