domingo, 23 de abril de 2023

Cama quente

 

Cama quente

 

Não abro os olhos nem tateio as paredes, vou no escuro. A vontade de urinar é mais forte que titubeios. Sei, a confiança garante o próximo passo. Confiante, arrisco a integridade da testa. Acredito que paredes não precisam demonstrar estabilidade; não as impedirei de a mim me abalroarem como um corpo estranho. Não que a bexiga explodindo me faça agir feito imbecil, ajo por excesso. Excedo-me, alcanço a precisão de estar no lugar esperado no momento não calculado, mesmo porque é especulação vulgar os pingos na tampa serem dados como sintoma. De olhos abertos e mãos bobas, conheço a casa de cor e salteado.

A madrugada tem chão e não o quero alongado. Ainda que os olhos não ardam de sono, que ele, o sono, vença tal vigília imprópria.

Este inconveniente, ficar pensando na vida quando poderia dormir, não o debitarei na conta da imbecilidade. Credito-o porque fraquejo. E a minha pusilanimidade é tanta que me julgo feliz.

Me percebo imerso num estado contraditório: estou feliz porque me contrario. Ajo como um ser uniforme: sou essa pessoa que transita de forma segura, sou quem não receia as paredes, sou eu que dispenso bússola. Sei ir do quarto ao banheiro. Sei ir e sei voltar, pois vivo aqui. No entanto, contrariando a imagem que formo de mim mesmo, perdido por um instante, paro no corredor às escuras.

Parado nesse momento, calho de pensar: sem pensar que a parede do quarto é uma das paredes do corredor, a parede do quarto é parede do banheiro, a parede do banheiro também é uma das paredes da sala; sem refletir, levantei da cama, vim pelo corredor, urinei no vaso e dei a descarga; o que me perturba neste instante: estou pensando.

Se me permito uma leitura imaginativa do que acabei de fazer, diria que naveguei em águas tranquilas, boníssimas a veleiros; dirigido por ventos calmos, apreciei o horizonte; sem tédio, senti a realidade.

Penso, logo vejo que o corredor escuro é um espelho.

No filme O sangue de um poeta, na cena do espelho, entendo que é possível passar pela água do espelho, dá pra mergulhar no reflexo.

Compreendo, tenho dois lados: na cama, o pesadelo me põe suado, os meus demônios me querem acordado; na sala, o sofá acolhe quem se dispõe a conversar, a urbanidade me ajeita em bom camarada.

Onde me vejo unido a essas minhas duas faces?

O que sobra de mim, o que as entranhas descartam, vá pelo esgoto; o que suja, o que trago impregnado na pele, livra-me o chuveiro.

Há um vórtice na minha mente: estarei à boca de um ralo?

O sonho interrompido não tem importância. Como não o rememoro, não o escarafuncho aos pântanos da cachola. Quiçá regresse; quiçá o fio seja reatado para que outra história ganhe fluxo; quiçá meu cérebro trabalhe a favor.

Aliviado e satisfeito, volto pra cama sem nenhum arranhão. Aliviado e realizado, só penso esse senão: cadê o sonho?

Sou um cara de sorte, posso dormir.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de abril de 2023.

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