Esculhambentos
Percebo um movimento pouco amistoso, e
que não tem nada a ver comigo. Se eu sentisse que é comigo, complicaria. Quando
avultam os sentimentos, a confusão prospera. Mas não pretendo me render.
Preciso manter sossegada a cachola, permanecer
simples: quando o barulho é enorme, melhor tapar os ouvidos.
Nem surdo conseguiria silenciar o
carnaval comendo solto. Vim pra lavanderia, aqui tenho uma rede; posso beber
numa boa, nem engasgo com os cuspes da raiva que não tenho.
Sei, algo vem na minha direção.
Minha memória não me engana, e já que
mal comecei a beber um vinhozinho, então, a sobriedade não me serve de estímulo
pra imaginar outro bicho que não seja o meu parceiro mais assíduo.
Sou um cara de hábitos. Almoço e venho pra
rede. Trago uma taça de vinho e beberico. Bebericando, que a hora passe.
É carnaval, mas não preciso aguentar
bafafás.
Vim pros fundos porque não quis
especular. Vi que três mulheres e um homem discutiam.
Parece que o homem mexeu com uma delas.
Melhor dizendo, uma das mulheres mexeu com o homem de uma delas. Pode ser que
uma delas tenha mexido com outra delas.
Eis uma condição que preciso que aconteça:
ter sossego pra tomar a minha taça, dar-me esse tempo longe dos problemas.
O sábio sabe: se um não quer, dois não
se entendem.
Não preciso ouvir discussão alheia.
Sinto que preciso de um ar que não sufoque. Porque eu tenho contas a pagar,
pessoas a quem prestar contas; tenho muito que me humilhar, por contas erradas,
equivocadas e as nem levadas em conta.
Acontece que sossego o facho sem nem
mesmo saber por quê.
Talvez a digestão amanse as ansiedades,
ou delas me distraia.
Como a intuição atropela a razão, assim
como o percebo vindo, sei que o cachorro da casa vizinha está vindo porque ele
sabe que já estou na rede.
Admito que intuo o que não explico.
Sei por mim que mal sei, que desejos
brotam porque não há como fazê-los brotar quando se pensa poder controlá-los,
fazê-los acontecer.
Acontece sem que se deseje que aconteça.
O cachorro pula o muro. Senta no
quintal. Olha pra mim. Basta uma vez, ele late quando assobio que venha pra
perto.
Gosto da sua companhia, e bebo a isso.
Gostoso, o vinho desce. Suave, o
bem-estar me toma. Balanço que balanço, e mais tranquilo eu fico. Simples,
gosto do vinho que eu tomo.
A rede range nos ganchos. Gosto do
rangido. Primeiro me sento na rede. Gosto do balanço da rede. Faço o balanço:
com a digestão a mil, uma taça de vinho é o suficiente para me fazer deitar.
Gosto de deitar na rede depois que eu como.
Coço a sua cabeça. O cachorro não
rejeita afagos. Ele lambe o meu braço. Beijo a orelha que alcanço sem o risco
de cair. Torço para que não vire. Como não estou em guerra comigo, me balanço numa
boa.
Quando o cochilo acaba, cadê o restinho
que estava na taça?
Se o objetivo é consagrar a experiência,
pressagio:
quando dois querem, 100% é só o começo.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 21 de fevereiro de 2023.