A
fonte
Exceto nos momentos em que uma vontade
irrefreável me controla, entro naquele bar pra comer um salgado, beber meu guaraná
e, já que peguei deste hábito, assuntar a quantas anda o dia.
Não disfarço, sei que faz bem manter-me disciplinado
a maior parte do tempo. Todavia, não penso na temperança como uma ilha bucólica
em meio a um colossal oceano de bravatas devassas.
Levo uma vida melancólica. Não que nela
eu tenha me abrigado por escolha, é que me são desnorteantes temporais, ventanias,
mesmo os marasmos. A melancolia, porém, percebo-a como garoa ao meio-dia.
Levemente triste, sento-me a uma
distância saudável dos fumantes, peço um quibe devera rançoso e, pra passá-lo por
frugal às papilas, eu capricho na pimenta.
Como devagar, não que o salgadinho
permita saboreá-lo como uma iguaria inigualável. Porque frio, oleoso e difícil
de engolir, mordo-o com moderação, embora ponha mais pimenta.
Se é pra quebrar o ranço do apimentado
roçando na garganta, tomo cerveja. Desculpem, não entro em boteco só para tomar
cerveja.
No manual não escrito deste observador,
fico longe das encrencas. Se não aprovo pacientemente minha rotina de abstêmio,
não brigo por ninharias. Aproveito o dia para permanecer em dia com a vida.
Sei bem que vontades insondáveis surgem
do nada, avolumam-se no peito e dão calafrios quando trato de pesar perdas e
ganhos já com um pé no muquifo a que me resigno frequentar.
Quando incontrolável, a ânsia que me sobe
à carne desanda a hora: guloso sem fome, entorno copos; baixem-me garrafas e
garrafas.
Quando nem reparo no que faço, às
pessoas sóbrias pareço à beira de uma brutalidade vergonhosa, que eu corra
abraçar outro vaso.
Vaso em cuja água desentranha-se tal
funda flor: o remorso.
Quem reflete sobre a realidade diz que vasos
que transbordam não brincam em serviço. Deixam escorregadiços quaisquer pisos.
E tornam nauseabundos os ambientes. São visceralmente escatológicos.
Segundo quem me conhece bêbado,
subscrevo e dou fé: vasos são traiçoeiros quando me servem de casca de banana.
Enquanto ando tonto, bambaleando nos
calcanhares, pisando torto na latrina imunda em que eu mesmo acabo entrando, o
chão sujo me leva ao abraço.
Feito um libertino travesso, eu não sento
no vaso.
Neste momento crítico, abraçado a este
vaso de marca conhecida, quero trocar-lhe o nome, rubricá-lo Rrose Sélavy.
De posse deste novo status, preciso levá-lo
do retrete pra depositá-lo na mesa do primeiro que reclame do vândalo que a mim
me possui neste instante de fato estarrecedor.
Constrangido, recobrarei a sanidade.
Compungido, religarei o encanamento que
detonei num repente.
Com o retorno da ordem, posso muito bem
decidir na moedinha. Se der cara, continuo bebendo; se der coroa, saio de
fininho.
Mas a vida é mesmo um caso perdido. Como
não tenho moedas no bolso, pago a conta.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 29 de janeiro de 2023.
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