Chocolate
quente
Era pra eu estar podando roseiras na
casa da minha cunhada, nisso veio uma abelha picar no meu pescoço nem bem me sentei
para beber o café que me foi oferecido, afinal, como Deus adora ironias,
Ambrósio, estou aqui, bebendo guaraná, enquanto você nem disfarça a satisfação
de me ver com este vermelhão no pescoço.
Prefiro pensar que a irritação vai
passar logo, porque sei muito bem que o guaraná não é antídoto pro incômodo que
eu sinto ao ver no seu rosto a felicidade de me ver mais incomodado com a sua
cara do que com o dolorido da picada da abelha.
O venenoso da situação é que a sua cara de bom amigo camarada me faz lamentar que fui obrigado a deixar para trás o sorriso sereno da minha cunhada. Porque a minha irmã culparia a mim, Ambrósio, como sempre ela faz quando algo de ruim acontece comigo.
Você poderia treinar no banheiro. É
possível assumir a personagem de bom amigo camarada para que a gente perceba o
quanto você pode ser sincero, Ambrósio. Tente agir com menos altivez, pois a
sua rigidez o faz atuar como se as pessoas que sabem ouvir o que os outros dizem
não são de sua confiança.
Ficar contrariado enquanto for preciso para
defender-se dos demais é qualidade que se aprende. Invejo-o por sua soberba. Dá
vontade de sair sem pagar, Ambrósio, apenas pra ensiná-lo a amar-se.
Se realizasse esta vontade, na certa, você
bateria em mim. Sem dó, me sentaria a pua nas pernas com a vassoura. Me daria
socos. Gritaria comigo. Entraria no papel de dono de bar que se irrita com
desrespeito. Deixaria claro quem manda na sua espelunca.
Confie que possa amar-se ainda que odeie
o próximo.
Eu ficaria com as sequelas do seu amor.
Planejaria a vingança. Iria beber na concorrência. Falaria do ocorrido sem mudar
uma vírgula. Por quê? Ambrósio, quando contada sem que se tome partido, toda
história é verdadeira, fiel aos acontecimentos, sem nada fora dos fatos.
Proeza de vendedor? Veja bem, eu não vendo
nada.
Se a sua interpretação do que digo é a
de que tudo o que faço é pra me beneficiar de alguma forma, Ambrósio, você não
vai me ofender ao reforçar o que tenho de bom.
Ora, eu sou mesmo muito bom em vender
coisas, mas se não quer que eu venha mais aqui, Ambrósio, seja honesto, assuma
o desprezo que você tem por mim. Do contrário, eu voltarei amanhã e continuarei
vindo até que haja dignidade de sua parte.
Ambrósio, você não esconde que sua cara
de sujeito grato é o mais cristalino nojo que sente por todos que trazemos as nossas
pequenas verdades, as nossas minúsculas dores, as miudezas da vida.
Você não bebe guaraná, você toma
chocolate.
Ambrósio, é lógico que dono de bar tem
que correr bêbado que vive para atormentar, mas sóbrio também irrita a ponto de
merecer que lhe seja negado um copo d’água ou uma lata de guaraná.
Não ache que sou idiota, Ambrósio, porque
eu sei que nem quente guaraná tem o sabor do chocolate.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 12 de fevereiro de 2023.
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