domingo, 12 de fevereiro de 2023

Chocolate quente

 

Chocolate quente

 

Era pra eu estar podando roseiras na casa da minha cunhada, nisso veio uma abelha picar no meu pescoço nem bem me sentei para beber o café que me foi oferecido, afinal, como Deus adora ironias, Ambrósio, estou aqui, bebendo guaraná, enquanto você nem disfarça a satisfação de me ver com este vermelhão no pescoço.

Prefiro pensar que a irritação vai passar logo, porque sei muito bem que o guaraná não é antídoto pro incômodo que eu sinto ao ver no seu rosto a felicidade de me ver mais incomodado com a sua cara do que com o dolorido da picada da abelha.

O venenoso da situação é que a sua cara de bom amigo camarada me faz lamentar que fui obrigado a deixar para trás o sorriso sereno da minha cunhada. Porque a minha irmã culparia a mim, Ambrósio, como sempre ela faz quando algo de ruim acontece comigo.

Você poderia treinar no banheiro. É possível assumir a personagem de bom amigo camarada para que a gente perceba o quanto você pode ser sincero, Ambrósio. Tente agir com menos altivez, pois a sua rigidez o faz atuar como se as pessoas que sabem ouvir o que os outros dizem não são de sua confiança.

Ficar contrariado enquanto for preciso para defender-se dos demais é qualidade que se aprende. Invejo-o por sua soberba. Dá vontade de sair sem pagar, Ambrósio, apenas pra ensiná-lo a amar-se.

Se realizasse esta vontade, na certa, você bateria em mim. Sem dó, me sentaria a pua nas pernas com a vassoura. Me daria socos. Gritaria comigo. Entraria no papel de dono de bar que se irrita com desrespeito. Deixaria claro quem manda na sua espelunca.

Confie que possa amar-se ainda que odeie o próximo.

Eu ficaria com as sequelas do seu amor. Planejaria a vingança. Iria beber na concorrência. Falaria do ocorrido sem mudar uma vírgula. Por quê? Ambrósio, quando contada sem que se tome partido, toda história é verdadeira, fiel aos acontecimentos, sem nada fora dos fatos.

Proeza de vendedor? Veja bem, eu não vendo nada.

Se a sua interpretação do que digo é a de que tudo o que faço é pra me beneficiar de alguma forma, Ambrósio, você não vai me ofender ao reforçar o que tenho de bom.

Ora, eu sou mesmo muito bom em vender coisas, mas se não quer que eu venha mais aqui, Ambrósio, seja honesto, assuma o desprezo que você tem por mim. Do contrário, eu voltarei amanhã e continuarei vindo até que haja dignidade de sua parte.

Ambrósio, você não esconde que sua cara de sujeito grato é o mais cristalino nojo que sente por todos que trazemos as nossas pequenas verdades, as nossas minúsculas dores, as miudezas da vida.

Você não bebe guaraná, você toma chocolate.

Ambrósio, é lógico que dono de bar tem que correr bêbado que vive para atormentar, mas sóbrio também irrita a ponto de merecer que lhe seja negado um copo d’água ou uma lata de guaraná.

Não ache que sou idiota, Ambrósio, porque eu sei que nem quente guaraná tem o sabor do chocolate.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 12 de fevereiro de 2023.

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