Suco
de manga
ꟷ Quem não repete a história, esquece-a.
Uma vez esquecida, é certo pôr uma pedra
em cima. Como o vento leva o que não tem peso, que a lápide marque o que não
mais viceja.
Dona Cremilda não é folha seca, jamais será
página virada; sua raiz tem fibra pra pegar em pedra, areia ou barro ressequido.
ꟷ Quem tem família, tem berço.
Dona Cremilda retira a casca do pão de
forma, deposita-a na mesa e arrepia-se ao ver: a forma dá moldura ao que não
está ausente.
ꟷ O que a gente intui, a gente sente.
Ela não pensa que saudades sentidas
prescindem de choro pra que sejam perturbadoras. Dia sim, outro também, ela
chora à mesa.
Para que o desconforto com o que tenha
feito de errado, ainda hoje ou ontem, não lhe agrave a antipatia por uma versão
aprimorada de si, a ela não falta a dor de remoer-se em silêncio.
Acomodada a esta casa, cujas paredes
estão entupidas por retratos de familiares, ela é petúnia que murcha quando não
a regam lágrimas de compaixão, derramadas até a quem há de entrever-lhe os
espinhos.
Cacto a partir de uma petúnia, criatura?
ꟷ Gente decente não se desculpa pelo
descaso com o passado.
Ela não se deixa contrariar sem
contestações. Quando aborrecida, chega a ser estúpida. Se insistem, irrita-se. Uma
vez irritada, perde-se das boas maneiras, faz-se outra, uma pessoa beligerante.
ꟷ Quem cativa cuitelo com néctar, mata
por vaidade.
Dona Cremilda detesta que a recriminem pela ociosidade.
ꟷ Ainda que eu não esteja fazendo nada,
deploro quando chamam, batem no ombro, riem da suposta ausência da mente
presente. Santo Deus! Deixem-me meditar um pouquinho.
Assim interrompida, declina de mesuras.
ꟷ Quem respeita limites põe razão em
rebelar-se.
Ao meditar, Dona Cremilda respira de
olhos fechados. É preferível que não veja as fotos. As recordações mais
intensas até a confundem. Lugares que a alegram não devem ser misturados
àqueles que lhe são indiferentes.
Mas, de onde vêm as tristezas? Vêm de
algum lugar entre a alegria e a indiferença. Esta é a maior tristeza, fere tão
profundamente que até anestesia. As tristezas não vêm da indiferença, mas a
apatia não anula a dor, torna-a insuportável em tal grau que há amortecimento.
Sem arrependimento pela escolha feita,
quando teve que escolher entre comprar ou não um apartamento na praia, Dona
Cremilda pensou em ter filhos.
Caramba, crianças morrem afogadas.
E o apartamento na praia que não foi
comprado fez com que a Dona Cremilda lamentasse não ganhar o suficiente para começar
a pagar as parcelas, honrando-as por vinte anos.
Seus filhos não nadariam no mar nas
manhãs de domingo. Mesmo se garoasse, ventasse frio e os vendedores de picolé
reclamassem da nota de cem de Dona Cremilda, com água abaixo do joelho, as
crianças gritariam felicíssimas.
É terça, não é dia da filha de Dona
Cremilda pedir suco, até porque o copo sobre a mesa está vazio.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 24 de janeiro de 2023.
Nenhum comentário:
Postar um comentário