terça-feira, 24 de janeiro de 2023

Suco de manga

 

Suco de manga

 

ꟷ Quem não repete a história, esquece-a.

Uma vez esquecida, é certo pôr uma pedra em cima. Como o vento leva o que não tem peso, que a lápide marque o que não mais viceja.

Dona Cremilda não é folha seca, jamais será página virada; sua raiz tem fibra pra pegar em pedra, areia ou barro ressequido.

ꟷ Quem tem família, tem berço.

Dona Cremilda retira a casca do pão de forma, deposita-a na mesa e arrepia-se ao ver: a forma dá moldura ao que não está ausente.

ꟷ O que a gente intui, a gente sente.

Ela não pensa que saudades sentidas prescindem de choro pra que sejam perturbadoras. Dia sim, outro também, ela chora à mesa.

Para que o desconforto com o que tenha feito de errado, ainda hoje ou ontem, não lhe agrave a antipatia por uma versão aprimorada de si, a ela não falta a dor de remoer-se em silêncio.

Acomodada a esta casa, cujas paredes estão entupidas por retratos de familiares, ela é petúnia que murcha quando não a regam lágrimas de compaixão, derramadas até a quem há de entrever-lhe os espinhos.

Cacto a partir de uma petúnia, criatura?

ꟷ Gente decente não se desculpa pelo descaso com o passado.

Ela não se deixa contrariar sem contestações. Quando aborrecida, chega a ser estúpida. Se insistem, irrita-se. Uma vez irritada, perde-se das boas maneiras, faz-se outra, uma pessoa beligerante.

ꟷ Quem cativa cuitelo com néctar, mata por vaidade.

Dona Cremilda detesta que a recriminem pela ociosidade.

ꟷ Ainda que eu não esteja fazendo nada, deploro quando chamam, batem no ombro, riem da suposta ausência da mente presente. Santo Deus! Deixem-me meditar um pouquinho.

Assim interrompida, declina de mesuras.

ꟷ Quem respeita limites põe razão em rebelar-se.

Ao meditar, Dona Cremilda respira de olhos fechados. É preferível que não veja as fotos. As recordações mais intensas até a confundem. Lugares que a alegram não devem ser misturados àqueles que lhe são indiferentes.

Mas, de onde vêm as tristezas? Vêm de algum lugar entre a alegria e a indiferença. Esta é a maior tristeza, fere tão profundamente que até anestesia. As tristezas não vêm da indiferença, mas a apatia não anula a dor, torna-a insuportável em tal grau que há amortecimento.

Sem arrependimento pela escolha feita, quando teve que escolher entre comprar ou não um apartamento na praia, Dona Cremilda pensou em ter filhos.

Caramba, crianças morrem afogadas.

E o apartamento na praia que não foi comprado fez com que a Dona Cremilda lamentasse não ganhar o suficiente para começar a pagar as parcelas, honrando-as por vinte anos.

Seus filhos não nadariam no mar nas manhãs de domingo. Mesmo se garoasse, ventasse frio e os vendedores de picolé reclamassem da nota de cem de Dona Cremilda, com água abaixo do joelho, as crianças gritariam felicíssimas.

É terça, não é dia da filha de Dona Cremilda pedir suco, até porque o copo sobre a mesa está vazio.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de janeiro de 2023.

Nenhum comentário:

Postar um comentário