terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

Prática de inspiração

 

Prática de inspiração

 

Haja vista o momento presente, inspirado autodidata que não alega insanidade quando a realidade obra por mim que eu me paute por uma postura racional mesmo em ambientes e situações em que a emoção sobrepuje a coerência, acho conveniente que refaça os passos que me trouxeram à esquina onde eu me acho.

Todavia acho muita coisa, de tal maneira descabida que pareço lelé da cuca, por cuja fleuma desatino-me de uma coisa em outra.

E não acho, tenho certeza. Assim que me vir, ela me cumprimentará porque nos conhecemos. Contudo, ela passa por mim que nem me vê feito poste fincado no meio do passeio.

Nada sendo dito, bendito seja que dito a mim que eu medite.

Sujeito à verificação aleatória, entendo que os acontecimentos que não se comprovam fatos tornam difícil a digestão da realidade, porque a reconstituição da consciência passa pelo autoconhecimento.

Sem interferências alheias, alheio-me.

Há luz, logo me declaro: eu penso.

E a moça que passa sabe que soltar pipa no quintal é atividade bem pouco lúdica quando comparada a soltar pipa em terreno baldio.

Além dos muros, a fiação aérea é séria ameaça. Causa desastre o soltador de pipa que se ocupa apenas em dar linha. Sua pipa cabeceia, perde altura, caindo até ficar enroscada. Pronto! Tal brinquedo é butim a piratas urbanos que ululam de vacilo em vacilo.

Como o Sol bate nas andorinhas, não oscilo na esquina.

Os seres humanos sabem que o Sol é fonte natural de energia, que sua energia é renovável, embora deitássemos com as galinhas.

Chateados por deitar cedo, arranjamos energia elétrica para emular a luminosidade solar, incandescemos filamentos nos bulbos de cristal que afixamos no teto das nossas casas.

Pela forçada adaptação humana à crescente redução do sono, são as lâmpadas tecnicamente as culpadas. Eram doze as horas dormidas na escuridão do horizonte, passaram a oito com a penumbra de abajur, até nos restarem as seis intermitentes horas de insones pestanas.

Se pessoas conhecem a fome que as acometem em jantares, ceias e baladas, é que vale a pena pagar pela luz solar sem sol ou elas teriam de pegar no sono com as assustadoras histórias de gambás, raposas e gerentes de granja.

Cloaca de vida! Toda galinha sabe onde os juros arrocham, porque gerentes de granja enchem a poupança por papar milhares e milhares de dúzias de ovos.

A realidade é algo chocante?

Choque maior tenho eu com a galinha que passa de ônibus, porque nunca pensara que tal bicho topasse ser transportado entre nós outros que lhe somos predadores.

Se bem que tem motorista tartaruga que não freia bruscamente, ele obviamente pensa na coitada da galinha, cuja angústia de presumir-se esborrachada no para-brisa é um pulo pro panduio dos esfomeados.

Escrupulosos consumidores militantes, todos à luta:

ꟷ Chega de gracinha! Passe livre pras galinhas!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de fevereiro de 2023.

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