terça-feira, 31 de janeiro de 2023

Complicado nada

 

Complicado nada

 

O último dia do mês não me motiva a fazer o balanço do que eu fiz neste último mês, uma vez que, aceitável ou decepcionante, feito está o que está feito.

Lembro isso, esqueço-me daquilo. Procuro não complicar o que não tenho de complicar, pois a vida pode ser menos confusa se eu for mais atento. Ainda que ande confuso, que eu ande levemente.

Eu sei, e admito que sei: ainda que siga em frente, irei adiante ainda que não vá. Sim, realmente não sei o que até ontem achava que sabia. Eu não tenho pleno conhecimento de ter feito o que julgo ter feito, pois, embora tenha feito, não estou certo do que não fiz, ainda que não tenha feito o que ainda agora julgo acertado o que eu deixei de fazer.

Pessoa persistente que não desiste de crer no que não crê, a cada dia deste último mês, banhei-me, alimentei-me, dormi e acordei, tolices fizeram-me sorrir, indignei-me com vilanias, vivi felicidades, aceitei as frustrações, e contive o desespero.

A cada noite: cochilei na poltrona; critiquei chatices repetitivas que a televisão dá como saudável entretenimento; comi ovo frito em vez de rúcula; com paciência estoica, me livrei de pernilongo irritante; pratiquei a arte de aguardar dormindo que a alvorada dobre a esquina; sinto que o Sol iluminando a Terra sensibiliza-me, pois a comunhão cósmica da aurora está em mim; sou mesmo é humano, cotidianamente humano, daí que me percebo outro a cada dia.

Se me fosse pedido que citasse um fato relevante, teria de apontar que as pessoas não concordam em tudo. Marcaria: o que merece ser destacado por uma pode não ter importância para outra.

No labirinto do mundo, a vida aborrece quando o Minotauro nunca está na rua seguinte. Por mais que se ande, jamais se anda, se anda por nada, pois a próxima rua é sempre a mesma, outra rua.

Neste último dia do mês, quero estar preparado para o primeiro dia do mês que vem. Nas próximas vinte e quatro horas, não quero pensar que, dobrando a esquina, me aguarda o passado.

O que eu vejo à frente?

Reparo que criança que gosta de brincar ganha mais balas.

Noto que criança que brinca tem aquele olhar de gente feliz porque a vida é bem divertida quando se ganha balas, balas de caramelo.

Insisto, o que eu desejo mais adiante?

Simples, é boa a bala de caramelo que dissolve na boca.

Quem chupa uma bala gostosa de ser chupada é quem não perde tempo pensando na vida que poderia ter tido mas não tem.

Ora, neste último dia do mês, não perde nada quem pensa: pra que todo mês termine, é certo que haja o dia que seja o último.

Vamos lá, mude o foco. Pense o quão inspirador é saber que: o mês terminado há onze meses começa de novo onze meses depois; todo último dia do mês ocorre doze vezes ao ano; todo ano termina no último dia do ano.

De novo complicado, né?

A criança que chupa bala com gosto sabe que a próxima bala dará gosto de ser chupada porque toda bala é sempre outra.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 31 de janeiro de 2023.

Nenhum comentário:

Postar um comentário