Sorumbático
Noite passada, começaram as luzes. Foi
providencial esse começo, porque as cobertas estavam no chão. A posição fetal
não indicava que o pesadelo decorria da espinha entortada em bicos de papagaio.
Fazia frio, e o suor incômodo tinha se originado do frio da madrugada.
Acordar com a cabeça nos pés e os pés
onde o travesseiro deveria estar, se não estivesse sobre os cobertores caídos,
era o sinal de que houvera travado uma batalha, mais uma, e outra vez perdida.
Sem fazer publicidade do sofrimento que
suporta, padece porque o osso no osso nas sete décadas de vida faz ombros e
joelhos doerem quando dos gestos mais rotineiros, como subir uma escada ou
segurar sacolinhas de compras.
Quando a circunstância recorda que viver
tem agruras que as horas de sono não reparam, Olegário se reconhece um corpo.
É o seu corpo avariado que acordou com
as luzes. É nele que o frio fez doer as juntas do esqueleto. Pobre caixa
craniana que não isola da noite o fantasma que despertou, esse lamentável Olegário.
Numa noite de muitas dores, uma voz
luminosa falou-lhe que sonha acordado o homem que não conhece pesadelos.
Quando uma luz fala a quem dorme, é dita
uma verdade.
No fundo um crédulo, primeiro ele desconfiava
do que lhe era dito, só depois é que depositava a fé em quem o incorporava à
teia de gente informada de tantos segredos.
Sim, sob o sol forte deste país
tropical, não há como ignorar que ele é exemplo de pessoa que se identifica com
esses sonhadores que não sabem o que seja despertar por conta de um pesadelo enregelante.
Olegário revisitou-se nas diversas vezes
em que acabou caindo na rua porque pisara em buraco escandalosamente visível.
Evita o ridículo quem não sonha de olhos
abertos.
Havia luzes. Naquela madrugada, muitas eram
as luzes.
Antes de perder o fôlego por causa do
que estava ali fora, Olegário pôs os óculos e recostou-se à guarda da cama.
A primeira coisa que pensou foi uma
situação impossível, que havia uma viatura policial à janela.
Seria assombroso que as cores azul e
vermelha fossem do giroflex de uma patrulha, pois carro de polícia, caminhão de
bombeiro, ônibus, táxi ou uma ambulância, nenhum veículo conhecido teria como
flutuar àquela altura, porque ele morava no décimo andar.
Excluídos os automóveis, talvez fosse um
drone.
Com luzes tão potentes, ocorreu-lhe que
apenas celulares gigantes são equipados com tais recursos.
Putisgrila! Atacariam o apartamento com
telefonemas.
Cáspite! Arrombariam as portas com
selfies.
Oxe! Olegário foi novamente seduzido.
Havia muito, quando brincava aos pés de
uma mangueira, algo veio clicar justo quem nem sabia o que era aquilo, um OVNI.
Como ninguém soube daquele disco-voador
pilotado por um bando de alienígenas, só o garoto teria como contar o que
acontecera, mas o Olegário tartamelo nasceu ali, alhures, naquele ventre.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 02 de fevereiro de 2023.
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