quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

Varrido

 

Varrido

 

Cheia de prosa, a brisa passa por mim. Me percebendo perplexo, o ar faz assobiar o sabiá. Cheio de graça, se bem entendo a mensagem, acho normal a pessoa avaliar-se: será que sou ou será que estou?

Dizem, aqueles que se acham sãos é que dizem, que o sujeito com ideias estapafúrdias invariavelmente produz extravagâncias realizando bizarrices em série porque está consciente de que nada há de errado consigo, a sociedade é que não compreende a sua natureza.

Evidentemente, quem se pergunta o quanto tem de doido é alguém que está pronto pra saber que é ridículo parar a boca a um centímetro da boca que espera ser beijada.

Quem pede um beijo não duvida que beijar seja normal, beija. Como é perfeitamente normal que se desfrute do beijo desejado, beijem-se.

Normal não é quando essa pessoa persuade outrem a criticar-me: como não é se gosta de agir como se fosse?

Zanzo azedo, bramindo fogo, vociferando a mil, blasfemando como anjo insone, tenho estado tenso, ando abrindo abismo, de um instante pra outro cairei no riso, cuspirei a bel-prazer, pularei da corda bamba, sei que tomo pé do que ando fazendo porque a cabeça dói, a barriga ronca, a boca não se segura, direi o clichê, percebo a ideia batida, que o senso comum me acuda, é óbvio, na cômoda situação de definir-me, fico quieto, pois me colocam no lugar de quem eu julgo insano.

Certamente, nem passa pela cabeça da pessoa que me atende na farmácia que o meu sorriso de gente comum diz que me considero apto a demonstrar serenidade mesmo que o dinheiro seja pouco pro xampu.

Como pode o cabelo estar seco se o chuveiro está ligado?

Primeiro, quem toma banho não quer lavar a cabeça. Ou, a cabeça é careca. Outra possibilidade, chuveiro ligado não implica que estejam tomando banho, talvez limpem o box com a água da mangueirinha.

Talvez o mundo não fique melhor se eu permanecer sorridente, mas a pessoa que trabalha no caixa não precisa que mais um chato queira saber qual é o seu signo.

Que deficiência a minha, sei um pingo de nada de astrologia.

Primeiro, ver o céu à noite é maravilhoso. Depois, muito me encanta a escuridão do céu noturno. Pontos luminosos, distantes, acredito que tais corpos interfiram na felicidade humana que capta a força viva que a tudo liga, une e amalgama. Sim, o universo é deslumbrante.

Como joalheiro dado a pensamentos cabotinos, correndo o risco de soar mentecapto, digo que a realidade é diamante que me cabe ajudar a lapidar a cada segundo.

Como cobiço livrar-me de certas ideiazinhas, eu não vou varrer pro bueiro mais próximo quem me despreza.

À pessoa de mão espalmada, peço-lhe que se levante por um futuro melhor, pois a transformação fraterna depende da sua vontade.

Solidarizo-me com quem pede sorte. Acredito que merrecas dadas valham tal qual arroz, feijão e bife.

Por que sorrio?

Sorriso é camisa de força a energúmeno, sopro eu.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 26 de janeiro de 2023.

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