domingo, 5 de fevereiro de 2023

Claro estigma

 

Claro estigma

 

Ando a pé.

Isso, andar a pé, permite que eu divague sobre a realidade.

Quando não preciso sair pra quitar minhas dívidas rotineiras, divago como um vagabundo, com a despretensão dos distraídos.

Caminho, vou sem pressa.

Vou olhando o mundo como certa gente que não procura o que lhe acalme a mente, amanse os ímpetos, adestre os instintos.

Vou descobrindo encantos porque não me propus achá-los.

Há detalhes adornando a fachada de uma casa, tento lembrar, onde mais eu vi aqueles detalhes?

Não me recordo, não me censuro.

São portuguesas as pedras que partem da calçada diante da casa, adentram o portão em duas faixas paralelas, fazem o piso da garagem onde a lataria de um fusquinha está sendo polida por um idoso.

Tranquilo nos gestos, visivelmente cuidadoso ao espalhar a cera no capô do carro, o homem cuida do automóvel como se desse banho no seu mais estimado cachorrinho.

Trocamos bons-dias com meneios e acenos.

Acho educado ser educado, mais ainda quando sou correspondido.

Arrisco dizer que aqueles detalhes na fachada da casa eu os vi em Paraty, ou Iguape. Certamente, em alguma cidade que preserve traços de arquitetura colonial. Quiçá em Congonhas do Campo ou Mariana.

Sossegadamente, sigo andando.

Minhas pernas curtas agradecem o passo desacelerado. Ainda que minha garganta não esteja seca, bebo água de quando em quando. A mente descansada ajuda-me a seguir discreto, de alma desarmada.

Como gosto de andar sem rumo, deixo-me ir pelos ziguezagues que o acaso vai me oferecendo, sem motivo aparente para recusá-los.

Se o destino sabe de mim pelo que nem penso saber, divertida é a ideia de que me perco na cidade onde eu nasci e fui criado, porque ela agora nem me percebe cúmplice do acaso ou vivo inocente.

Subo uma ladeira onde outrora não havia uma, aqui era mato.

Não me quero abatido.

Pelo menino de minhas andanças, tento recompor a mata. Mas, os passarinhos gorjeantes descendem dos moradores naturais? Também preservo cipós, ipês, jequitibás, nomeando-os.

Como óleo e água não se misturam, quem fui e quem sou têm vozes que me fissuram em dois monólogos. Isso é triste.

Tenho achado bem chata a realidade do mundo.

Chata e cansativa, pois o mundo ao meu alcance depende de meus pés, que me espalhem além de banco, dentista e supermercado.

Entro numa ladeira de terra.

Sem placa que a coloque em um mapa, cujo CEP a localize e GPS a situe, registre-se o veredito: jardins sem gnomos, casas indefesas.

Para que tal visão não fique perdida, mas o celular, cadê que nunca o trago comigo?

Queria que a rua acabasse num mirante, com vista esplêndida da cidade lá embaixo. Todavia, ela termina num muro grosseiro.

No muro, um portão; no portão, uma porta; à porta, tem câmera.

Camarada sozinho em rua sem saída, porque é irresistível fantasiar que estou roncando na rede, disparo tocar a campainha.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 05 de fevereiro de 2023.

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