Claro
estigma
Ando a pé.
Isso, andar a pé, permite que eu divague
sobre a realidade.
Quando não preciso sair pra quitar
minhas dívidas rotineiras, divago como um vagabundo, com a despretensão dos
distraídos.
Caminho, vou sem pressa.
Vou olhando o mundo como certa gente que
não procura o que lhe acalme a mente, amanse os ímpetos, adestre os instintos.
Vou descobrindo encantos porque não me
propus achá-los.
Há detalhes adornando a fachada de uma
casa, tento lembrar, onde mais eu vi aqueles detalhes?
Não me recordo, não me censuro.
São portuguesas as pedras que partem da
calçada diante da casa, adentram o portão em duas faixas paralelas, fazem o piso
da garagem onde a lataria de um fusquinha está sendo polida por um idoso.
Tranquilo nos gestos, visivelmente
cuidadoso ao espalhar a cera no capô do carro, o homem cuida do automóvel como
se desse banho no seu mais estimado cachorrinho.
Trocamos bons-dias com meneios e acenos.
Acho educado ser educado, mais ainda
quando sou correspondido.
Arrisco dizer que aqueles detalhes na
fachada da casa eu os vi em Paraty, ou Iguape. Certamente, em alguma cidade que
preserve traços de arquitetura colonial. Quiçá em Congonhas do Campo ou
Mariana.
Sossegadamente, sigo andando.
Minhas pernas curtas agradecem o passo
desacelerado. Ainda que minha garganta não esteja seca, bebo água de quando em
quando. A mente descansada ajuda-me a seguir discreto, de alma desarmada.
Como gosto de andar sem rumo, deixo-me
ir pelos ziguezagues que o acaso vai me oferecendo, sem motivo aparente para
recusá-los.
Se o destino sabe de mim pelo que nem
penso saber, divertida é a ideia de que me perco na cidade onde eu nasci e fui
criado, porque ela agora nem me percebe cúmplice do acaso ou vivo inocente.
Subo uma ladeira onde outrora não havia
uma, aqui era mato.
Não me quero abatido.
Pelo menino de minhas andanças, tento
recompor a mata. Mas, os passarinhos gorjeantes descendem dos moradores
naturais? Também preservo cipós, ipês, jequitibás, nomeando-os.
Como óleo e água não se misturam, quem
fui e quem sou têm vozes que me fissuram em dois monólogos. Isso é triste.
Tenho achado bem chata a realidade do
mundo.
Chata e cansativa, pois o mundo ao meu
alcance depende de meus pés, que me espalhem além de banco, dentista e supermercado.
Entro numa ladeira de terra.
Sem placa que a coloque em um mapa, cujo
CEP a localize e GPS a situe, registre-se o veredito: jardins sem gnomos, casas
indefesas.
Para que tal visão não fique perdida, mas
o celular, cadê que nunca o trago comigo?
Queria que a rua acabasse num mirante, com
vista esplêndida da cidade lá embaixo. Todavia, ela termina num muro grosseiro.
No muro, um portão; no portão, uma porta;
à porta, tem câmera.
Camarada sozinho em rua sem saída, porque
é irresistível fantasiar que estou roncando na rede, disparo tocar a campainha.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 05 de fevereiro de 2023.
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