Canta,
canta, cantador
Embora tenha um nome que reaviva muitas
das alegrias de criança, do outro lado do muro, vive um cachorro que não para
quieto.
Se soubesse serenar-se sempre que tem
sede, o atabalhoado não ficaria lambendo água esparramada.
Se sossegasse um pouco, certamente seria
menor a quantidade de ração espalhada ao redor da tigela.
Duas vezes ao dia enchem a tigelinha que
o danado abocanha para ir atirá-la à porta da cozinha.
Como não conquistou a técnica de batê-la
contra a porta, o serelepe late e fica latindo até que se disponham a
entendê-lo.
Quando finalmente atendem-no, tão
entusiasmado com o montículo de ração, Bidu abana o rabicho como ponteiro
Geiger na presença de urânio, é cotó evidentemente frenético.
Dobermann com nomezinho fofo? É ironia, bidu.
É irônico, porque o animal além do muro
serve como metáfora para gente neuroticamente pilhada, a cuja proximidade cabe a
advertência: mantenha distância.
Cuidado com o cão. Não se derreta frente
à airosa criatura. Quando levada a defender-se ou proteger terceiros, usa as garras
afiadas, seus caninos pujantes, ela tem mordedura nervosa.
Mesmo alimentada todos os dias, mesmo não
ameaçada, esta fera ataca canelas de carteiros, calotas de automóveis e gatos
com ou sem postura elegante, é brava, é cão ardilosamente bravo.
Não conhecesse macetes, truques e
artimanhas, seria outro bicho domesticado, objeto de estima que encantaria. Cativante,
este cão tem manhas. Quando fareja o medo, não ataca de pronto. Aguarda que se
lhe ofereçam a vantagem de um assalto certeiro.
Muros e muretas não são muralha;
salta-os como se brincasse.
Será Bidu o maior dos problemas?
Pra vizinhança, especialmente pros
vizinhos separados apenas por um muro, problema dos grandes é outro, é o
Clodoaldo.
Não passa dia sem que a mãe perca as
estribeiras, pois o moleque é imune a água benta nos costados e petelecos na
orelha.
Quando parece dar uma trégua pra que as
novidades do zap sejam checadas, é outro golpe astuto, pois nem sova de cinta
intimida o diabo no corpo deste espoleta.
Se corretivos bem dados domesticassem genética
indomável, quiçá o Clô desautorizasse suas ousadias mais infaustas, que nem
precisaria aquela amortecida de gelo no couro da bunda em carne viva.
Cadê o Clô, Bidu?
Putisgrila, pedir a pateta que faça
coisa inteligente é torcer pra calça ficar seca enquanto urina perna abaixo.
Ô Sol, tordo não tarda cantar a toada da
tarde?
Mouco a quem lhe grita o nome; balançando
desengonçado os pés na beirada do telhado; inalcançável a olhares alvoroçados:
tal pestinha continuaria contente se o cachorro bobo do vizinho não viesse
dedurá-lo, latindo feito um lunático.
Seja o bom garoto que sabe ser quando é
obrigado, jogue os cacos na lata de lixo, porque garrafas de refri só são
malabares nas mãos de quem entende do riscado, Clô.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 22 de janeiro de 2023.
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