Quase
à vontade
Aristeu fala.
Como só abre a boca pra enxaguá-la ao
tomar banho, ele nem acha peculiar o regime que adota. Deveriam aprovar seu
patriotismo, pois é bastante cidadão para encarar o chuveiro de três em três
dias.
Será que os críticos não são capazes de
reconhecer o esforço que faz pelo país? Analisem com isenção: embora os fios sirvam
de poleiro a pombas e andorinhas, hidrelétricas prejudicam ecossistemas.
Porque o fedor bucal espanta, Aristeu
fala pouco.
Quem tem que se horrorizar com o seu bafo
é dentista, mas ele não marca consulta à toa, só mesmo quando a dor de dente o
força.
Aristeu diz que os seus hormônios precisam
de banhos demorados. Ele não economiza porque a água do chuveiro abranda a sua agitação.
Não é bobagem. Ainda que não esteja livre dos remédios, ele sabe que pessoas
que não tomam banho cansam bem menos.
Aliás, nas sessões da terapia, Aristeu
fala pouco.
As sessões são muito boas, pois ele
entende como as dúvidas mais cortantes ocorrem no caminho para sua casa.
Se pode gastar menos, por que certas
musas têm preferência de vir a ele no banho? Que poder misterioso tem esse
instinto coletivo que o arrebanha? Será tarada a pessoa que dá satisfação a
fantasias?
Com consciência insidiosa, Aristeu se lamenta.
Despido do gemebundo, quem testemunha o
noticiário da TV é um cidadão seco, salivando frente a tantas raivas, umas
cretinas.
Sozinho, mesmo que não precise falar
baixinho, ele fala. Ainda que o gato se interesse apenas pelos agrados feitos,
ele comenta como se cometesse um crime. Pela vergonha de indignar-se com o que
assiste, ele fala ainda mais baixo.
Acossado pelo que traz de taciturno,
Aristeu telefona.
Surdo às desculpas, pela urgência em dar
voz ao tremendamente reles, ele diz o que acha da realidade apresentada na TV,
que ela é vil porque humilha, é ofensiva porque parcial, é muito injusta.
Aristeu não para mais de falar, embora ache
justo cochichar.
Como deseja ater-se ao escancaradamente
revoltado, ele sussurra que podem estar na escuta. Teme que suspeitem de que há
muito mais coisas nas entrelinhas do que fala. O que não diz é que parece
afronta gritante a quem conhece quais os mecanismos da mente humana.
Porque lhe falta acurácia, Aristeu não
se cala.
Por repreender-se como destravado
tagarela, ele percebe o passo em falso para cair no escandaloso. Em calamitosa euforia,
percebe-se instado a renunciar à impotência de permanecer mudo. Sem surdinas
nem socapas, uma persona muito falante, quem o escuta sabe que lhe sobra o
indispensável aos sorrelfos, que é esse apelo ao êxtase.
É premente que vá banhar-se. Ele sabe
que precisa agir rápido. Os olhos giram nas órbitas. Saliva tanto que baba. Não
dá para terminar a ideia. De modo algum, não quer trair-se. Ele deseja
resguardar-se.
Despudoradamente deslumbrado, Aristeu
desliga o telefone.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 09 de fevereiro de 2023.
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