quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

Fôlego de folião

Fôlego de folião

 

Na ração diária de quem não vê a hora de cair na folia, sem o devido equilíbrio, entram as tolices dos políticos, os influentes cancelamentos e umas sacanagens safadinhas bem ultrajantes.

Por um ano inteiro, tanta intoxicação empanturra.

Com a necessária licença, que os quatro dias e as cinco noites de carnaval permitam alimentar-se das alegrias não instituídas por celular, TV e pombos-correio.

Da sexta à noite à manhã de quarta, que o obsequioso consumidor bata o pó do ordeiro e ouça o chamado para reerguer-se das cinzas só quando a realidade cocoricar.

Galo ouvido, mundo havido.

Como a gangorra do mundo depende do impulso das más notícias, o rotineiro pede ao público que garanta o seu lugar.

Pra cantar o samba na avenida, pague-se à vista. Já que custa caro apresentar um desfile primoroso, aceite-se crédito.

Se fosse de terceira, o espetáculo teria baianas cansadas, ritmistas abúlicos, puxadores afônicos, carros mixurucas, mestres-salas e porta-bandeiras desconectados e a comissão de frente fecharia o tempo por aditamentos não dedutíveis na fonte.

Ao fim e ao cabo, quem pagaria por sujos, feios e maltrapilhos?

Seu Rodrigues, ratos e urubus não são novidade.

Não havendo novidade sob o sol, o cronista informa que esta é uma obra de ficção. Sendo fictícia, ela não espalha desinformação, também não inocula fatalismos nem cultiva rancores.

A crônica diz a aparente banalidade de uma cena familiar.

Uma menina e um menino não estão agitados, eles brincam. Como crianças que brincam, elas correm, pulam e gritam. Sem saber o que são alvoroço e azáfama, o menino e a menina se divertem.

Observá-las brincando não precisa ter um caráter desopilante. Que a graça da vida sendo vivida baste ao observador. Ainda que o fígado destile fel, seja gratificante acompanhar duas crianças vivendo mesmo que ignorem jargões e métodos analíticos.

Por favor, não se diga que o analista consciente precisa esboçar e aplicar um método lúdico para apreender a diversão infantil como jogo espontâneo, improvisado, com regras próprias.

Por uma visão marxista, um método marxista? Que bananas sejam comparadas a bananas ꟷ verdes ou maduras, bananas? Duvide-se da visão barroca de um filme surrealista? Serão anacrônicas as reflexões sobre a luta de classes na Odisseia? Estarão confusas as mentes que embaralham alhos com bugalhos? Há saída na entrada? Há cobra que se coma pela cauda?

Uma menina e um menino correm, pulam, ralam o joelho, cantam, brincam, se estranham, brigam, choram, voltam a rir ꟷ estão vivos.

Num átimo, aquela mãe vê a árvore.

Ela nota o tronco. Ela chama a filha e o filho, que voltem pros seus braços. Ela repara que o homem atrás do tronco tira a barba, as botas, o gorro; ele tira a sua roupa.

Possessa que até suspira:

ꟷ Em pleno carnaval, nem Rei Momo sabe dar-se ao respeito?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de fevereiro de 2023.


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