terça-feira, 14 de fevereiro de 2023

Como se fosse ontem

 

Como se fosse ontem

 

Sem disparar alarmes nem sugerir evacuação urgente, arrisco dizer que sou uma pessoa tranquila, um tanto atabalhoada quando me põem pressão, mas entendo quem desconfia que eu possa provocar alguma coisa impressionante, oxalá uma aurora boreal repentina.

Alerto, porém, que não há estudos sérios sobre gases humanos na estratosfera, sequer aqueles produzidos por mim que perco a decência ao devorar meu feijãozinho favorito, com repolho cozido acompanhado de batata doce.

Defendo-me, que tenho digestão pacífica.

Advirto a quem me apostrofa por minhas ambições a uma rotina por demais invisível, urbanamente normal, que sou o tipo de gente que não sonha em ser abatida feito OVNI no Canadá.

Muita gente talvez me considere um extraterrestre justamente pelo aspecto familiar, como se as minhas pobres roupas puídas atribuíssem impossibilidade de pilotar um jipe a trinta mil metros acima do mar.

Se não for balão meteorologicamente chinês, cacem-no de pronto, pois espião de outra latitude que flutue sutil não existe.

Porque a favor de minha persona insignificante, é alvíssara o relato no qual me descrevo: um tanto arcado na cacunda, outro tanto zarolho pelos óculos na ponta do nariz, com o restante de mim empenhado em tirar sujeira de unha com a boca.

Pela estampa com que me apresento, acredito ser uma pessoa sem nada de bizarro. Dou-me como alguém pacato, um cidadão sonolento depois do almoço, um fulano calmo, um beltrano que foge do caos, um sicrano andarilho porque nem tenho habilitação para andar de motocas envenenadas ou magrelinhas motorizadas.

Das mil e uma máscaras atribuídas a mim, só uma é a verdadeira, uma que já foi mostrada no escurinho do cinema.

O E.T. do Spielberg? O Bowie caído na Terra? O sonolento Klaatu?

Cáspite, que nem aposto qual personagem a que mais se aproxima de quem visualizo que sou.

Acho até que minha personalidade resulte da soma, da mistura, da confusão dos rostos das atrizes e dos atores que foram alienígenas em telonas, telinhas e mentalizações.

Sumo de vista feito um saci?

Pela imprevisibilidade, sou um saci. Imprevisível mas rastreável. E radares me apanham no ar: juro que sou um jumento mergulhando no espaço; e jumento que risca o céu não pode ser um cágado camicase; nenhum cágado digere bem as rochas plásticas da Ilha de Trindade.

Dá dor de cabeça assistir ao meteórico saci?

Assim como o tempo vira de uma hora para outra, pegando a gente desprevenida como um balão ao léu dos ventos, agora estou destinado a fazer da minha vida uma história nova em folha.

A partir de agora a sorte virou. De hoje em diante eu sou outro. Que amanhã acorde mudado, que me possa parir essa outra pessoa nova.

Enquanto houver amanhã, ontem siga sendo ontem, para eu seguir sendo um National Kid revigorado, repaginado, reciclado?

Sou simpático a ser o Saci.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de fevereiro de 2023.

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