Como
se fosse ontem
Sem disparar alarmes nem sugerir
evacuação urgente, arrisco dizer que sou uma pessoa tranquila, um tanto atabalhoada
quando me põem pressão, mas entendo quem desconfia que eu possa provocar alguma
coisa impressionante, oxalá uma aurora boreal repentina.
Alerto, porém, que não há estudos sérios
sobre gases humanos na estratosfera, sequer aqueles produzidos por mim que perco
a decência ao devorar meu feijãozinho favorito, com repolho cozido acompanhado
de batata doce.
Defendo-me, que tenho digestão pacífica.
Advirto a quem me apostrofa por minhas ambições
a uma rotina por demais invisível, urbanamente normal, que sou o tipo de gente
que não sonha em ser abatida feito OVNI no Canadá.
Muita gente talvez me considere um extraterrestre
justamente pelo aspecto familiar, como se as minhas pobres roupas puídas atribuíssem
impossibilidade de pilotar um jipe a trinta mil metros acima do mar.
Se não for balão meteorologicamente
chinês, cacem-no de pronto, pois espião de outra latitude que flutue sutil não
existe.
Porque a favor de minha persona
insignificante, é alvíssara o relato no qual me descrevo: um tanto arcado na
cacunda, outro tanto zarolho pelos óculos na ponta do nariz, com o restante de
mim empenhado em tirar sujeira de unha com a boca.
Pela estampa com que me apresento,
acredito ser uma pessoa sem nada de bizarro. Dou-me como alguém pacato, um
cidadão sonolento depois do almoço, um fulano calmo, um beltrano que foge do
caos, um sicrano andarilho porque nem tenho habilitação para andar de motocas
envenenadas ou magrelinhas motorizadas.
Das mil e uma máscaras atribuídas a mim,
só uma é a verdadeira, uma que já foi mostrada no escurinho do cinema.
O E.T. do Spielberg? O Bowie caído na
Terra? O sonolento Klaatu?
Cáspite, que nem aposto qual personagem
a que mais se aproxima de quem visualizo que sou.
Acho até que minha personalidade resulte
da soma, da mistura, da confusão dos rostos das atrizes e dos atores que foram
alienígenas em telonas, telinhas e mentalizações.
Sumo de vista feito um saci?
Pela imprevisibilidade, sou um saci.
Imprevisível mas rastreável. E radares me apanham no ar: juro que sou um
jumento mergulhando no espaço; e jumento que risca o céu não pode ser um cágado
camicase; nenhum cágado digere bem as rochas plásticas da Ilha de Trindade.
Dá dor de cabeça assistir ao meteórico
saci?
Assim como o tempo vira de uma hora para
outra, pegando a gente desprevenida como um balão ao léu dos ventos, agora
estou destinado a fazer da minha vida uma história nova em folha.
A partir de agora a sorte virou. De hoje
em diante eu sou outro. Que amanhã acorde mudado, que me possa parir essa outra
pessoa nova.
Enquanto houver amanhã, ontem siga sendo
ontem, para eu seguir sendo um National Kid revigorado, repaginado, reciclado?
Sou simpático a ser o Saci.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 14 de fevereiro de 2023.
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