terça-feira, 21 de fevereiro de 2023

Esculhambentos

 

Esculhambentos

 

Percebo um movimento pouco amistoso, e que não tem nada a ver comigo. Se eu sentisse que é comigo, complicaria. Quando avultam os sentimentos, a confusão prospera. Mas não pretendo me render.

Preciso manter sossegada a cachola, permanecer simples: quando o barulho é enorme, melhor tapar os ouvidos.

Nem surdo conseguiria silenciar o carnaval comendo solto. Vim pra lavanderia, aqui tenho uma rede; posso beber numa boa, nem engasgo com os cuspes da raiva que não tenho.

Sei, algo vem na minha direção.

Minha memória não me engana, e já que mal comecei a beber um vinhozinho, então, a sobriedade não me serve de estímulo pra imaginar outro bicho que não seja o meu parceiro mais assíduo.

Sou um cara de hábitos. Almoço e venho pra rede. Trago uma taça de vinho e beberico. Bebericando, que a hora passe.

É carnaval, mas não preciso aguentar bafafás.

Vim pros fundos porque não quis especular. Vi que três mulheres e um homem discutiam.

Parece que o homem mexeu com uma delas. Melhor dizendo, uma das mulheres mexeu com o homem de uma delas. Pode ser que uma delas tenha mexido com outra delas.

Eis uma condição que preciso que aconteça: ter sossego pra tomar a minha taça, dar-me esse tempo longe dos problemas.

O sábio sabe: se um não quer, dois não se entendem.

Não preciso ouvir discussão alheia. Sinto que preciso de um ar que não sufoque. Porque eu tenho contas a pagar, pessoas a quem prestar contas; tenho muito que me humilhar, por contas erradas, equivocadas e as nem levadas em conta.

Acontece que sossego o facho sem nem mesmo saber por quê.

Talvez a digestão amanse as ansiedades, ou delas me distraia.

Como a intuição atropela a razão, assim como o percebo vindo, sei que o cachorro da casa vizinha está vindo porque ele sabe que já estou na rede.

Admito que intuo o que não explico.

Sei por mim que mal sei, que desejos brotam porque não há como fazê-los brotar quando se pensa poder controlá-los, fazê-los acontecer.

Acontece sem que se deseje que aconteça.

O cachorro pula o muro. Senta no quintal. Olha pra mim. Basta uma vez, ele late quando assobio que venha pra perto.

Gosto da sua companhia, e bebo a isso.

Gostoso, o vinho desce. Suave, o bem-estar me toma. Balanço que balanço, e mais tranquilo eu fico. Simples, gosto do vinho que eu tomo.

A rede range nos ganchos. Gosto do rangido. Primeiro me sento na rede. Gosto do balanço da rede. Faço o balanço: com a digestão a mil, uma taça de vinho é o suficiente para me fazer deitar. Gosto de deitar na rede depois que eu como.

Coço a sua cabeça. O cachorro não rejeita afagos. Ele lambe o meu braço. Beijo a orelha que alcanço sem o risco de cair. Torço para que não vire. Como não estou em guerra comigo, me balanço numa boa.

Quando o cochilo acaba, cadê o restinho que estava na taça?

Se o objetivo é consagrar a experiência, pressagio:

quando dois querem, 100% é só o começo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de fevereiro de 2023.

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