Dois
irmãos e um degredo
À espera de que fosse atendida, a
grávida tossia. Punha um lenço à boca e tossia. Temendo-se tísica talvez,
tossia voltada para a parede. Quiçá por que fora criada a não deixar que a
criticassem pelo que sabia que iriam censurar-lhe as tosses ou sua gargalhada,
tossia enrugando a testa e fechando os olhos.
Pra alguns, Maria Joana gargalhava que
nem estrela de cinema em faroeste amalucado, com amáveis comediantes no lugar
de pistoleiros valentões. De vez em quando vinha-lhe a ideia de autografar
fotos suas a torto e a direito, Maria Joana gargalhava como se tossisse. De súbito,
cobria a boca com as mãos, parava de rir, tinha um olhar vidrado.
Sequer sorrindo encabulada, surpresa por
ocorrer-lhe uma censura ao doutor, achou-lhe grotesco o penteado domado por
brilhantina.
Embora estivesse tossindo, por legitimá-lo
em sua autoridade, não foi pelo bigodinho aparado daquele Cantinflas de jaleco que
ela sorriu encabulada.
ꟷ Mas, doutor, eu não condeno o sorvete,
terrível é a geladeira que ronca a madrugada toda.
Pulemos do imediato pós-guerra pros pandêmicos
dois mil e tralalá, e o que mais temos a oferecer a você?
Dois eram os irmãos, Atanagildo e Astrogildo.
Não, senhora, Gildo não era o nome do
pai. Sim, senhora, aquelas foram duas vidas gestadas em um único ventre. Apesar
da mãe tê-los parido com a diferença de três horas apenas, não se presuma que
suas almas estavam em sintonia. Distanciavam-se, mesmo nos assuntos de brutal relevância
como política, religião e o amor pelos gatos.
Sim, senhor, ao guri Astrogildo jamais ocorreu
amarrar bombardas no rabo de um gatinho, o que, entretanto, não o impedia de
esculachar quem segredasse a amantes ter um angorá chamado Pimpolho.
Por avançarmos pela seara das
intimidades, segredemos que Maria Joana nunca fumou. Tanto nunca fumou que ela nunca
bebeu. Embora nunca tenha tragado, ela não tem fumaça de intragável. Moça certinha,
sim; por óbvio, é mulher com um quê de careta; uma senhora com jeito de
maluquinha, céus!, isso tanto nos maravilha.
O que tinha de doida, tinha de engraçada.
Falava o que tinham que ouvir, e riam. Não gargalhavam, sorriam. Por dizer o
que era bom que fosse dito sem véus, nem se orgulhava disso.
Deram de escutá-la, que era bom que a
cidade tivesse uma pessoa que dissesse o que tinham de ouvir. Mas ela não punha
questão de ser ouvida pelo que dizia, uma vez que se apercebia do momento.
Sem que a demovessem pelo que dizia, não
zombava. Tirava teias, batia o pó, sacudia as vestes. Mofava com precisão. Tanto
era incisiva que os atarantados tiravam-na por insana, ria-se. Pela insanidade que
nem era a sua, mais que a Maria Joana gargalhava.
Dá peninha tanta gente que nem ri?
Se o segredo para ser feliz é
compartilhar travessuras de siameses e angorás, pra ronronar, o Atanagildo e o Astrogildo
são feras.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 19 de fevereiro de 2023.