quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

Bela porcaria

 

Bela porcaria

 

Que bela porcaria é viver, hein Samuel?

Pelo que sei, você abre a janela do seu quarto todos os dias apenas para incomodar-se, ou bocejaria.

Tanto faz, bocejos ou espreguiçadas, a vida incomoda.

Se se houvesse por menos absurdo, daria uma espiadinha esperta pelos vãos da veneziana antes de refugiar-se na cama.

Refúgio, abrigo ou covil?

Se esperança positiva imantasse as traquitanas do otimismo, a roda cósmica pararia no bônus, de mais um dia não sendo um a menos.

Que vida sortuda, Samuel, porque o universo confirma seu ideal, de que a humanidade magnética não norteia larápios, mendigos ou pulhas a levarem a vida como se houvesse amanhã, um amanhã redentor, pra torná-los cândidos, esplêndidos, radiantes monólitos do bem.

Mas radiações expressivas são o cacete; tanto chateiam que Chico, Chicão e Chiquinho não passam de um mesmo Francisco.

Coberta ou descoberta, caro Samuel, a sua mente não tem força de impedir que pernilongo zuna, sugue-lhe o sangue, deposite ovos.

Ele zune e ziguezagueia, tudo por uma picadinha.

Com o inseto pousado, levante-se. Não para matá-lo com chinelada nem porque esteja irritado com o zunido, saia da cama porque não tem que salvar o mundo. Saia da cama, mas saia sem precisar escrever.

Mate o pernilongo ou beba Coca-Cola ou escreva um poema, saia da cama enquanto pode deixá-la.

Trate de arrumar a cama, dobre as cobertas, ajeite a colcha, tire as rugas da colcha, faça o que pode fazer, enquanto ache que possa.

Haverá quem o leia. Haverá quem o divulgue.

Não se mata um leão a cada texto. Nem precisa pôr por escrito onde o leão mata a sede. Vá, não se esconda. Vire a página, Samuel.

Samuca, meu caro Samuca, o pernilongo vem, pousa na sua testa, suga-lhe o sangue, e mais uma vez.

Você pensa: o dia é outro porque é outro dia, e de novo.

Então, mate o pernilongo, beba Coca-Cola, escreva poema, saia da cama, pois você sabe que nada do que faça mudará a verdade: há um dia a mais.

Apesar de tudo, você existe e pode escolher: que a manhã seguinte seja a de mais outro dia, como sempre ou como um dia feito novo; que o dia se renove; que haja renovação.

Achando mesmo que possa estar renovado a cada dia, você é novo. Renovado a cada instante, confie, faça-se novo. Não espere, inove.

Inovação é risco, é aposta pelo que nunca houve.

Samuca, o inédito é o novo que vem pelas mudanças, não somente por variações. Que deixe de ser só cálculo o que seja hipoteticamente plausível.

Agora, repense.

O pernilongo morto ainda há pouco não é o mesmo que será morto. Pois bem, há pernilongo vivo, há pernilongo morto, e sempre serão um pernilongo ꟷ são todos indivíduos da mesma espécie.

Que você cubra ou descubra a cabeça, seu sangue corre nas veias e pernilongo alimenta-se dele, zune e ziguezagueia por ele.

Sem dar cabeçada, o Samuca tem razão:

incrível é ter gente que não acha a vida maravilhosa.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de janeiro de 2023.

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