Fôlego
de folião
Na ração diária de quem não vê a hora de
cair na folia, sem o devido equilíbrio, entram as tolices dos políticos, os
influentes cancelamentos e umas sacanagens safadinhas bem ultrajantes.
Por um ano inteiro, tanta intoxicação empanturra.
Com a necessária licença, que os quatro
dias e as cinco noites de carnaval permitam alimentar-se das alegrias não
instituídas por celular, TV e pombos-correio.
Da sexta à noite à manhã de quarta, que
o obsequioso consumidor bata o pó do ordeiro e ouça o chamado para reerguer-se das
cinzas só quando a realidade cocoricar.
Galo ouvido, mundo havido.
Como a gangorra do mundo depende do
impulso das más notícias, o rotineiro pede ao público que garanta o seu lugar.
Pra cantar o samba na avenida, pague-se
à vista. Já que custa caro apresentar um desfile primoroso, aceite-se crédito.
Se fosse de terceira, o espetáculo teria
baianas cansadas, ritmistas abúlicos, puxadores afônicos, carros mixurucas,
mestres-salas e porta-bandeiras desconectados e a comissão de frente fecharia o
tempo por aditamentos não dedutíveis na fonte.
Ao fim e ao cabo, quem pagaria por sujos,
feios e maltrapilhos?
Seu Rodrigues, ratos e urubus não são
novidade.
Não havendo novidade sob o sol, o
cronista informa que esta é uma obra de ficção. Sendo fictícia, ela não espalha
desinformação, também não inocula fatalismos nem cultiva rancores.
A crônica diz a aparente banalidade de
uma cena familiar.
Uma menina e um menino não estão
agitados, eles brincam. Como crianças que brincam, elas correm, pulam e gritam.
Sem saber o que são alvoroço e azáfama, o menino e a menina se divertem.
Observá-las brincando não precisa ter um
caráter desopilante. Que a graça da vida sendo vivida baste ao observador.
Ainda que o fígado destile fel, seja gratificante acompanhar duas crianças
vivendo mesmo que ignorem jargões e métodos analíticos.
Por favor, não se diga que o analista
consciente precisa esboçar e aplicar um método lúdico para apreender a diversão
infantil como jogo espontâneo, improvisado, com regras próprias.
Por uma visão marxista, um método
marxista? Que bananas sejam comparadas a bananas ꟷ verdes ou maduras, bananas?
Duvide-se da visão barroca de um filme surrealista? Serão anacrônicas as
reflexões sobre a luta de classes na Odisseia? Estarão confusas as mentes que
embaralham alhos com bugalhos? Há saída na entrada? Há cobra que se coma pela
cauda?
Uma menina e um menino correm, pulam, ralam
o joelho, cantam, brincam, se estranham, brigam, choram, voltam a rir ꟷ estão
vivos.
Num átimo, aquela mãe vê a árvore.
Ela nota o tronco. Ela chama a filha e o
filho, que voltem pros seus braços. Ela repara que o homem atrás do tronco tira
a barba, as botas, o gorro; ele tira a sua roupa.
Possessa que até suspira:
ꟷ Em pleno carnaval, nem Rei Momo sabe dar-se
ao respeito?
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 16 de fevereiro de 2023.